A Paixão -

    Geza Vermes

    Record
    2007
    125 páginas
    4h 10m
    ISBN-10: 8501075019
    Português Brasileiro

    Não há dúvidas de que há aproximadamente 2 mil anos um carismático judeu foi executado por ordem judicial em Jerusalém. Na época, eventos como esse eram comuns. A Palestina estava em ebulição, judeus e romanos encontravam-se em maus termos e as autoridades em geral reagiam com ferocidade diante de qualquer possibilidade de ameaça. As conseqüências dessa execução, no entanto, provaram-se imensuráveis; a decisão de Pôncio Pilatos motivou o surgimento de uma religião que ainda hoje subsiste, influenciando a história do mundo. Mas o quanto sabemos realmente sobre a Paixão - seqüência de eventos descrita pelos seguidores de Jesus -, a prisão, o julgamento e a execução de um homem santo local cujo impacto póstumo só pode ser comparado ao de raríssimas figuras históricas? Neste livro, Geza Vermes analisa as contradições dos quatro evangelhos canônicos - Mateus, Marcos, Lucas e João — para esclarecer o episódio da Paixão de Cristo. Leva a cabo esta tarefa ao mostrar, por exemplo, que a presença da Virgem Maria ao pé da Cruz é detalhada apenas no relato de João; que apenas em Lucas encontram-se as famosas palavras de Jesus, 'Pai, perdoa-lhes - não sabem o que fazem', em geral citadas pelos cristãos como prova de que o perdão é a virtude distintiva de sua fé; e que só em Mateus é desenvolvida a história da traição e do suicídio de Judas. Adicionalmente, o autor aponta equívocos de tradução dos textos, responsáveis por uma série de mal-entendidos perpetuados ao longo da história. Além de investigações pontuais, Geza Vermes expande seu estudo para um contexto mais amplo e polêmico, ao sugerir que os relatos dos evangelistas foram distorcidos de modo a culpar os judeus, e não os romanos, pela morte de Jesus, o que teria servido de ponto de partida para mais de 2 mil anos de anti-semitismo por parte dos cristãos.

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    Jeff Rodrigues30/03/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Resenha publicada no Leitor Compulsivo.com.br

    Um dos eventos mais importantes do Cristianismo e uma das maiores tradições em celebração da Igreja Católica, a morte e ressurreição de Cristo é um mistério de fé. O homem que inflamou os ânimos e despertou a fúria do Império Romano influenciou os rumos da história da humanidade até os dias atuais, a ponto de até a contagem do tempo, no calendário, ter o seu nascimento como marco. De tudo o que sabemos seja pela religião, pelo aprendizado com nossos pais e avós, ou por leituras diversas, o quanto de fato é verdade e o quanto é tradição? E há espaço também para inverdades ou deturpações em toda essa história? Um dos maiores estudiosos do Cristianismo, Geza Vermes se debruçou sobre as narrativas em torno da prisão, julgamento e morte de Jesus para separar coincidências e menções isoladas e analisa-las sob a luz das tradições judaicas conhecidas da época. Com isso, reuniu informações sobre o que de fato pode ter acontecido nos momentos finais da vida de Jesus. Ao comparar os relatos dos Evangelhos com registros de historiadores e nos situar no contexto do momento político do Império Romano, além de explicar como funcionavam as celebrações da Páscoa dos judeus, ele nos mostra como era o cotidiano daquele período, algo que não aprendemos nas pregações religiosas. A Paixão disseca o passo a passo do que a tradição religiosa colocou como últimos momentos de Jesus (última ceia, prisão, julgamentos, sentença de morte, crucificação, morte e sepultamento) e aponta pontos incompatíveis com o judaísmo, possíveis erros de tradução dos manuscritos do período e até mesmo distorção de informações pelos evangelistas. Ao mesmo tempo, tenta reconstituir a cronologia que mais possa se aproximar da realidade e, com isso, entregar aos leitores um relato histórico preciso (dentro do possível) da Paixão de Cristo. A linguagem de Geza Vermes é acessível e foge de jargões ou vocabulários acadêmicos. Utilizando-se de trechos dos Evangelhos, ele vai explicando e discorrendo sobre os acontecimentos, de forma didática e extremamente interessante. A leitura é envolvente e acaba sendo uma verdadeira aula sobre a sociedade e as tradições religiosas judaicas. Apesar das paixões que temas religiosos despertam, o conhecimento da história por trás das crenças e tradições orais religiosas é importante e está bem longe de tentar desacreditar algo. Como o autor deixa bem claro desde o prólogo, o objetivo de estudos e obras como A Paixão é o de esclarecer fatos, coloca-los justamente sob a ótica da história. Mergulhar na leitura de livros como este não abala uma religião ou uma crença, mas nos ajuda a entendê-las melhor. O ponto mais importante, a mensagem daquele homem, filho de Deus ou não, sobreviveu a gerações e continua influenciando nossas vidas. Talvez falte a nós, apenas, colocar mais essa mensagem em prática.

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