A poesia lorquiana cheira a flor de laranja, e seu texto poético - espaço preto/branco - vasto areal a estampar os rastros de Andaluzia; por ele seguem, a pé, os ciganos, os cegos cantadores, os meninos tagarelas, as mulheres " pudientes", os "pregoneros", os peregrinos da Espanha estóica, católica, radical às vezes, pronta para o perdão imediato, ereta, em direção ao tempo sem fronteiras, de pé . . . Granada, riso escancarado, obsessão, gosto de laranja doce servida em bandejas amargas: o apelo de Tânatos! Mas o poeta segue o seu caminho sem olhar para trás; segue-o com sua "guitarra" e sua solidão. O menino Federico e seu colar de pássaros na garganta despertam os galos para o cora! solidário! Poeta e dramaturgo, nasceu a 5 de junho de 1898 em Fuente Vaqueros, quando a Espanha tentava florescer nas letras e nas artes. Granada, sua província de sortilégios e muitos apelos telúricos: berço e túmulo. Aprendeu as primeiras letras com a própria mãe - professora primária -, Vicenta Lorca, casada com Federico García Rodriguez, ambos provincianos e muito ligados à terra granadina. Precoce em tudo: na música, no desenho, nas letras, na descoberta do mundo circundante; joalheiro da palavra, sabia trabalhar o verso para que ele pudesse, quando lido ou ouvido, reluzir ou tilintar no espelho e no alforje da poesia pura. Não se pode negar a García Lorca o papel de um dos mais representativos poetas espanhóis das três primeiras décadas de nosso século, com expressiva repercussão até os dias atuais. Inegavelmente foi aquele que, dentre todos os de sua geração, conseguiu alcançar os patamares da fama, despertar maior entusiasmo entre os de sua geração. Não importa que a crítica especializada, ao rastrear a produção inicial de García Lorca, nela tenha encontrado flagrantes influências de Juan Ramón Jiménez e algo do modernismo em sua primeira obra: Libro de poemas (1921). Ele conseguiu superar os modelos e os inspiradores iniciais de sua carreira literária. Não pretendemos, com tal afirmação, negar os vínculos que ele manteve com os diversos movimentos estéticos europeus e, principalmente, com aqueles nascidos ou assimilados pela Espanha, pois, ao terminar a grande guerra européia, as teorias giram em torno da desumanização da arte, através da palavra dos prosadores da chamada geração de 1925: Ramón Gómez de Ia Serna, Jarnés Antonio Espina, MaX Aub; entre os poetas, os da chamada geração de 1927: Gerardo Diego, Salinas, Guillén, Alberti, desta sobressaindo a figura carismática de Lorca, influenciado e, por sua vez, influenciador. A obra de García Lorca ressalta do mesmo modo por sua recorrência ao doce país da infância, apesar de ter sido ela marcada por graves e consecutivas enfermidades. Frágil, mas obediente aos conselhos maternos, conseguiu superar as crises. Entre uma provação e outra, estudou solfejo e piano. Fez o curso secundário em Granada e ingressou, em 1914, na Universidade de Granada, pela qual se diplomou em direito (1923), ali estudando também filosofia com Fernando de los Ríos que o estimulou a trasladar-se para Madri. Por esse tempo aproximou-se dos grandes nomes da vanguarda artística espanhola, no campo das letras, da música e das artes plásticas, chegando a tornar-se amigo íntimo de Salvador Dalí e Manuel de Falla, desenvolvendo e realizando, desta forma, sua vocação precoce em direção à música, à poesia e ao teatro. As revistas madrilenas lhe abriram as portas. A partir de 1925, passou a colaborar em vários periódicos da capital, sobretudo em La Gaceta Literaria e na Revista de Ocidente. É a partir do ano de 1926, como já vimos, que ele forma, com Salinas, Guillén, Alberti e outros poetas jovens, o grupo dos chamados poetas de vanguarda, seguindo as pegadas de Juan Ramón Jiménez, que revolucionaria, de fato, a poesia espanhola daquela época, ainda marcada pela influência deste poeta. Ático Vilas-Boas da Mota .

