Simone Weil é uma escritora de pensamento independente, seus livros defendem a racionalidade, não a racionalidade materialista, isso aliás é coerentemente criticado, Aqui nesse volume a autora escreve ensaios criticando o pensamento marxista praticado após a revolução russa. Não critica o comunismo como se tem feito rasamente nos tempos atuais num combate fútil e partidário ideológico, Weil critica o que Lenin e seus seguidores praticaram convertendo um partido não só num império mas numa religião. Em outro livro seu "Pela supressão dos partidos políticos" ela trata do tema político de forma mais abrangente denunciando o esgotamento da democracia pelo sistema político-partidário, mas em Opressão e Liberdade ela vai mais além esmiuçando a vida em sociedade desde tempos primitivos quando o homem se arriscava diariamente para obter alimento e proteção contra uma natureza ao mesmo tempo acolhedora mas incerta. Nos tempos modernos, o homem tem relativa proteção, pode obter alimentos (pessoas miseráveis encontram comida na rua e em lixões), mas é refém de máquinas. As utopias das revoluções industriais e tecnológicas facilitaram muito a vida, mas converteram o homem em refém das máquinas. O comunismo de Marx é de matriz autoritária, defende a ditadura do proletariado. Ocorre que os sovientes, - grupo de trabalhadores camponeses, revolucionários responsáveis diretos pela derrubada do czar e que mais sofriam com o despotismo - foram traídos pelo sistema da tal ditadura, quem passava a mandar então era o partido, o proletariado passou a ser tão ou mais oprimido que antes, mesmo quando ainda era tratado como servo ou escravo feudal. Não existe a tal ditadura do proletariado. Foi um pretexto para ascender ao poder um grupo de oportunistas que querem maximizar o que fez e faz o capitalismo, oprimir. Com isso Weil não defende o sistema liberal, ao contrário do que muitos supõem (por isso ela não é tão popular nem entre partidários conservadores nem progressistas, ainda bem, pois não é dessa forma que encontraremos a liberdade). Voltando ao tema das revoluções (tecnológica e industrial), a máquina escravizou o homem e o levou às guerras, se ela trouxe benefícios eles foram apenas úteis ao acumulo de mais tempo gasto com futilidades, lucro absurdo para uma fatia cada vez menor da sociedade, deteriorando a saúde e a qualidade de vida daqueles que sustentam a base da pirâmide, ou mesmo que trabalham para sustentar o sistema (força policial, funcionários dos governos e órgãos vinculados ao Estado).
O homem, segundo Weil só vai encontrar a liberdade quando escolher libertar-se da máquina, mas não se trata de ludismo, aversão às máquinas, trata-se de saber como usá-las sem que elas dominem ou façam as pessoas dominar umas às outras. Que elas, as máquinas sejam instrumentos e que juntamente com a razão sirvam ao homem e não o homem às máquinas.
Um paralelo que pode ser feito com o mundo de hoje é que estamos muito mais dominados pelas máquinas que no tempo de Weil, nem por isso os ensaios desse livro deixam de ter função. Ao contrário, eles mostram que os homens ainda não aprenderam como melhor conviver em sociedade. O mundo não deixou de ser violento com o fim das grandes guerras, ao contrário, está ainda mais violento e a cultura do medo administra muitos países. Há violência. Quais as soluções oferecidas: ''Mais armas!'' Há terrorismo: ''Mais orçamento para indústria bélica!'' Aumento dos casos de transtornos e conflitos familiares, geracionais: ''Medicamentos, livros de autoajuda, terapia em igrejas''. Busca-se a solução imediata, a solução ideológica e definitiva, uma bala de prata contra o monstro. Mas não se chega a lugar nenhum com placebo e soluções imediatistas e desesperadas, porque elas nunca são racionais, trabalham com o medo passional contra o medo real, a resposta nunca é alcançada pois é mais um castelo de areia. O ser humano se anula. Não que medicamentos, livros de autoajuda ou terapias religiosas não funcionem, mas é preciso um pouco mais. Os casos de transtornos e conflitos familiares e geracionais aumentam junto com a violência porque o homem parece gostar de conviver com o medo, aceita a tirania, aceita ser mandado, dominado, paparicado pelo deus máquina. Quando ele por conta própria quiser dar um basta e dominar a tecnologia ao seu favor muito provavelmente os graves problemas que enfrenta serão solucionados, sem autoritarismos, sem mandonismos, sem quaisquer tipos de escravidão do homem pelo homem ou do homem pela máquina.