José Louzeiro é mais famoso pela autoria de Pixote e Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, ambos transformados em filme de sucesso. Esse seu romance Em Carne Viva é bastante desconhecido, lançado no início dos anos 80, hoje em dia você só o encontra em sebos, como foi o meu caso.
Como nos romances supracitados, Louzeiro aqui também fala de criminalidade, todavia, ele acrescenta um viés político ao retratar os anos de chumbo logo após o AI-5, em 1968, onde a ditadura militar aterrorizou e matou um sem número de pessoas que lutavam contra o regime.
O livro começa pelo retrato de Leo, um criminoso típico da literatura noir/hard-boiled, que apesar de sua conduta fora da lei, mantém um código de ética, moral e lealdade para com seus parceiros, e, até mesmo, com relação aos crimes que comete. Normalmente Leo rouba de gente graúda, sem prejudicar ou ferir ninguém do povo. Ou seja, é o tipo de sujeito que logo de cara a gente torce. A trama do livro então leva Leo a se envolver com Amigo Velho, um policial corrupto, grande conhecedor da ala criminosa do Rio de Janeiro. Juntos, eles bolam um assalto, que será executado por Leo e sua turma, onde muita grana estará em jogo. Obviamente, como em toda obra do gênero, haverão traições e assassinatos por conta do butim. Entretanto, Louzeiro surpreende em colocar Leo numa situação terrivelmente perversa envolvendo tortura durante o regime militar. Tal acontecimento marcará o personagem durante o restante da obra e também deixará nós, leitores, principalmente os que defendem a democracia, com asco dos milicos.
Eu gostei de Em Carne Viva. É um romance policial/político honesto, com claro viés de esquerda, e concebido para ser uma obra de denúncia. O problema é a falta de foco do autor em diversos momentos. Por exemplo, ele da muito espaço para a ex-dondoca dona da casa onde Leo vive como inquilino (hóspede). Sei que a mulher é baseada na Zuzu Angel, que, de fato, foi assassinada pela ditadura, porém suas passagens no livro não tem nada a acrescentar e são bem arrastadas, para não dizer chatas mesmo. Outra coisa é a linguagem. Louzeiro usa um coloquialismo bastante estranho ao meu ver. Os diálogos não fluem de maneira natural, como, por exemplo, um Rubem Fonseca ou Marcos Rey fariam, e as palavras e adjetivos são muito peculiares. Entendo que o livro foi escrito nos anos setenta, mas desse período também li obras tanto do Fonseca quanto do Rey e a linguagem era quase como a nossa hoje em dia.
Enfim, tirando esses defeitos, Em Carne Viva é uma obra a ser apreciada e descoberta. Não só serve como uma boa história policial, como serve também de reflexão sobre um período tão sombrio da história do nosso país, que torçamos nunca mais volte a se repetir.