"O Mundo" é desses raros livros que se equilibram perfeitamente entre a autobiografia, a ficção e a poesia. Os olhos do menino Juanjo que descobrem o mundo se confundem com os do escritor maduro, que carrega consigo reminiscências de uma infância em que o universo era construído entre a rua e a casa, os amigos e os parentes. Mais do que a história de uma vida, este livro apresenta um mundo que, embora possa parecer de ponta-cabeça para muitos, faz a delícia dos que se deixam levar por ele. Um convite delicado e prazeroso para construir e viver seu próprio mundo.
O Mundo -
Juan José Millás
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Ver maisO Mundo – Juan José Millás Somente percebi que o livro O Mundo tinha alguma coisa de especial quando li de forma tranquila e muito calma entre duas provas, na verdade antes de sair para a faculdade tinha lido as dez primeiras páginas, o livro que passa a falsa sensação de ser leve mas ele me puxou desde a primeira página, de um modo tão completo que li quase um terço do seu conteúdo no primeiro dia que o peguei para ler. Tenho dificuldade de dizer exatamente a que gênero que ele pertence, em alguns momentos parece biografia, já em outros poderia dizer que ele é o que hoje chamamos de autoficção. Os capítulos partem sempre de acontecimentos da infância e vão prosseguindo até chegar ao tempo presente, onde o autor esta a construir o livro, este efeito de pegar um fato da infância e levá-lo as suas consequências no presente seja este fato da infância uma rejeição de uma garota de que ele gostava que lhe diz: você não é interessante para mim, ou suas lembranças do pai e da mãe que surgem quando ele joga as cinzas de ambos no mar, o último desejo deles. Mas de uma forma geral as lembranças sempre surgem de fatos ruins que o marcaram de uma forma negativa. Isso é natural se considerarmos que uma facada (por exemplo) deixa marca mais profundas do que um abraço. Vão se mesclar no livro vários acontecimentos que podem ser visto e divididos entre líricos ou insólitos, como em geral são muitas das coisas pensadas e narradas por crianças: um bairro exclusivo para os mortos onde quem morre passa a morar lá, ou a rua onde ele mora que ele vê em um cômodo que é abaixo do nível da casa do seu amigo. Assim ele passa a ver com uma visão diferente da que tem quando está no nível normal. Até mesmo sua família será observada sempre, durante todo o livro, por uma linguagem poética que esconde observações agudas sobre o mundo ao redor do narrador. Em muitos aspectos o Mundo parece ser uma ode feita a acontecimentos do passado que insistem em reaparecer no futuro, mas também parece um exercício de rasurar conceitos que o narrador tinha como definitivos em sua infância, como a garota do seu bairro que era considerada bonita, mas posteriormente ao se encontrar com o narrador está sem um dente e rebola de forma esquisita; ou a garota que irá marcar a vida dele quando diz: você não é interessante. Esta será percebida como uma pretensa intelectual de esquerda. O Mundo é uma destas histórias maravilhosas sobre a literatura como tábua de salvação, é através de imaginação, que ele irá alterar fatos de sua vida e criar um mundo particular, se deslocando e sempre criando para si a sensação de ser um estranho no mundo onde vive. Esta sensação servirá de motivo e justificativa para seu desajuste perante suas dificuldades pelo caminho do amadurecimento. Acho que a frase que melhor define o livro é onde o pai dele fala de um bisturi elétrico que cauteriza a ferida no momento em que a produz. Assim também é a escrita de Millás, ele produz a ferida no começo dos capítulos e depois as cauteriza mostrando que tudo na vida é incerto e pode dar voltas.
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