"Não é possível levar conosco toda a nossa bagagem em todas as jornadas."
Nenhuma outra leitura que eu tenha feito de C.S.Lewis me preparou para essa. O Grande Abismo, um sonho é um livro extraordinário como os outros (ficção e não ficção do autor, misturo tudo em minha mente agora), mas ainda mais extraordinário que os outros. Li esse livro para uma leitura coletiva. É totalmente possível que o livro tenha sido tão impactante para mim justamente por esse detalhe. Compartilhar experiências de leitura, conversar sobre literatura, conversar sobre a vida a partir da literatura Estão entre as atividades mais prazerosas para qualquer leitor. Vamos ao enredo. Um homem (que não deixei de imaginar o tempo todo que fosse o próprio Lewis) chega a uma cidade, mais precisamente a um ponto de ônibus. O tipo de início de livro em que o primeiro parágrafo já é suficiente para imergir totalmente o leitor na narrativa pela familiaridade com o que é narrado. Uma cidade cinza, um ponto de ônibus, a fila. O que se segue é a observação do protagonista e portanto a nossa, das pessoas que estão ali. Lewis parte de algo simples, pequeno e pouco a pouco vai construindo algo bem maior e complexo. Importante ressaltar que já somos inseridos ao que veio essa alegoria no prefácio. O grande abismo entre o céu e o inferno, entre o bem e o mal. Nas palavras do autor: Não estamos vivendo em um mundo onde todas as estradas são raios de um círculo e onde todas, se seguidas suficientemente, acabarão por se aproximar gradualmente e terminar se encontrando no centro. Pelo contrário, estamos num mundo em que cada estrada, depois de alguns quilômetros, se divide em duas, e cada uma destas mais uma vez em duas, e em cada encruzilhada você tem de tomar uma decisão. [ ] Penso que se for escolhida a terra em vez do Céu, ela irá mostrar ter sido, todo o tempo, apenas uma região no Inferno: e a terra, se colocada em sujeição ao Céu, terá sido desde o início uma parte do próprio Céu. Não sendo difícil assim deduzir o significado da cidade, o destino do ônibus e tudo o mais que nos é apresentado. O capítulo 9 em minha opinião é o mais importante da obra, onde ouvimos muitas das opiniões do autor sobre os assuntos em questão. É o capítulo também onde aparece a figura do George Mac Donald [1] como personagem, responsável por diálogos incríveis. O que torna esse livro inesquecível é de fato cumprir o proposto: mostrar o grande divórcio, o grande abismo que há entre o céu e o inferno. Inclusive, coincidência ou não, essa semana enquanto rascunhava essa resenha fiquei sabendo do lançamento de uma nova edição dessa obra pela Thomas Nelson Brasil, no título O Grande Divórcio, uma tradução mais próxima do título original. O que Lewis fez aqui, é mostrar a grande e definitiva separação que há entre os dois destinos finais e mais, a separação entre os dois caminhos que começam aqui na terra: a jornada dos salvos e não salvos. Que em resumo nada mais é do que uma questão do coração. O que acontece é que alcançados pela Graça de Jesus Cristo, os salvos, progressivamente amam a Jesus acima da própria vida Não amaram a própria vida nem mesmo diante da morte. (Apocalipse 12:11) -, e qualquer coisa diferente disso é um amor progressivo e furioso por si mesmo, e esse muitas vezes, como demonstrado através de algumas personagens do livro, camuflado até pela própria religiosidade. Como já mencionei O Grande Abismo começa pequeno e termina imenso. A necessidade de releitura é imediata ao final da leitura. Um livro em minha opinião perfeito se não fosse a ideia do purgatório e outros pontos que pela polêmica não valem citar. Mas já que citei o purgatório Bem, sei que se trata de uma fantasia, e o próprio Lewis disse no prefácio: Peço aos leitores que lembrem tratar-se de uma fantasia Todavia é verdade, não deixou de me incomodar um pouco rs. É possível que eu tenha sido mais passional aqui que em outras resenhas, mas essa acaba sendo a graça de comentários sobre livros.

