A passos lentos e tateando no escuro, resolvi entrar no mundo natural cercado por rios, campos, obsessões e ações nada convencionais do argentino Juan José Saer.
Em A ocasião, o leitor é envolto numa névoa de dúvida e angústia, elementos que circundam a vida de Bianco, um homem munido do poder de ler mentes e transformar a matéria de objetos. Com seus dons peculiares, ele passa a questionar convenções sociais e reflexões filosóficas que envolviam a sociedade europeia do século XIX.
Convidado pelos positivistas de Paris para uma demonstração dos seus poderes, Bianco se vê encurralado pela humilhação, sente seus poderes diminuírem e a sensação de pertencimento se esvair. Perdido, resolve ir embora para recuperar os poderes nas belíssimas planícies dos pampas argentinos. Num cenário de paz e infinitude, ele pretende dedicar seu tempo à abstração e à elaboração de um sistema que derrube os pensamentos dos positivistas.
Tomado por uma aparente guinada, testemunhamos como Bianco se afasta do seu objetivo inicial e mergulha num poço de ciúmes e obsessão por Gina, sua esposa, e na solidão do sentimento de ser estrangeiro e não pertencer mais a nenhum lugar.
Apesar de não ter me conectado com nenhum personagem em especial, concluí e gostei do livro por conta da incrível prosa de Saer. Sua capacidade de nos deslumbrar com descrições da natureza ? característica já conhecida de suas obras ?, capazes de nos fazer enxergar, sentir texturas e aromas e nos maravilhar com as cores e o infinito plano dos campos argentinos.
Saer escreve para leitores que questionam a aura supersticiosa da literatura. Aqui, nada é o que parece, mas, enquanto lemos, exploramos os caminhos da ficção e nos tornamos aferrados à realidade.
Nestes dias de janeiro as pessoas se sentem mais abandonadas, mais perdidas, mais irreais; se nos dias frescos a vida já parece irracional e vazia, nos meses de verão a condição dos homens e das coisas se fragiliza e tudo tende, levemente febril e exaurido, à aniquilação.