Estopim -

    Carla Dias

    [sic]
    2012
    219 páginas
    7h 18m
    ISBN-13: 9788562556029
    Português Brasileiro
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    Tramela Web30/04/2013Resenhou um livro
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    Estopim - Carla Dias

    * Publicado por Fernanda Pinho no Combo Cultural, em 11/02/13. 2012 foi, definitivamente, o ano em que eu amarguei meu mais baixo índice de leituras, desde que fui alfabetizada. Custei a me organizar dentro das tantas mudanças que ocorreram na minha vida, de modo que minha grande paixão foi deixada de lado. Uma das metas para 2013 era recuperar as leituras perdidas e dei início por aqueles livros que eu havia ganhado ou comprado no ano passado. Um deles foi o Estopim, da escritora paulista Carla Dias, que ganhei de presente da própria. Confesso que eu estava com um pouco de medo de ler este livro e explico. O último livro que li da Carla foi o Jardim de Agnes, em 2010. Até hoje me lembro das emoções que eu senti ao ler aquele livro, de como a protagonista, Agnes, me tocou profundamente e de como este livro furou uma fila imensa e foi de cara figurar entre os livros que mais gostei na vida. Ou seja, eu tinha uma expectativa muito alta em relação ao Estopim e, como todo mundo sabe, expectativa anda de mãos dadas com o medo da decepção. Mas era preciso me desapegar de Agnes e me deixar envolver por Olavo, o narrador-personagem de Estopim. Quem é Olavo? Olavo é apenas mais um entre os milhões de habitantes da cidade de São Paulo e não faz a menor questão de ser qualquer coisa além disso. Vive sem planos ou pretensões com seu salário de operador de telemarekting - embora seja formado em História. Empurra a vida com o peso de alguém que foi abandonado algumas vezes. Primeiro pelo pai, que fugiu quando ele ainda era criança. Depois pelo irmão, que mudou-se para a Europa quando descobriu ser filho de outro pai. Abandonos deliberados. Depois pela mãe que morreu vítima de uma doença. Depois pela primeira namorada, que morreu vítima de bala perdida. Abandonos involuntários. E com essa premissa, poderíamos supor que se trata de um livro sobre abandono. Mas então o irmão que foi embora decide voltar, agora um astrônomo famoso. Na monotonia do seu trabalho, Olavo se vê envolvido com Julia, a acrobata, uma cliente de quem só conhece a voz, mas mudará a sua vida. E numa ida à locadora - por sugestão de Julia - conhece Gilda. E desses encontros, tramas surpreendentes se desenrolam, sugando Olavo de sua existência retilínea para um universo no qual se vê obrigado a lidar com crimes, paixões e reencontros inesperados. E então o leitor descobre que não é um romance sobre abandono, mas exatamente o contrário disso. Não vou falar mais sobre o livro porque, de verdade, gostaria que todo mundo tivesse a oportunidade de lê-lo. Meu medo de me decepcionar foi para as cucuias pois já nos primeiros capítulos percebi que era a mesma Carla do Jardim de Agnes: com uma capacidade incrível de criar personagens absolutamente humanos e profundos. Nos livros da Carla, não existem figurantes. Todos os personagens estão ali por algum motivo, com história, presente e futuro. Tudo embalado pelo ritmo gostoso da Carla que escreve um livro inteiro, como se fosse uma poesia. "Chove a cântaros e há encantos. Ela sabe muito bem o que eu quero e eu quero muito bem ao que ela sabe. Há entre nós essa sincronia abandonada pelo desvelo e nos negamos a reconhecê-la - bordas, brio, descabimento - , pois teríamos de reavaliar cada segundo e cada sentimento já desfiado com um certo alheamento". Para quem quiser conhecer um pouco da escrita da Carla, ela escreve toda quarta-feira no Crônica do Dia, o mesmo site para onde eu escreve quinzenalmente às quintas (sim, é uma grande responsabilidade escrever justamente depois dela). Os livros dela foram publicados graças à seleção da Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo, por meio do edital ProAC. Dá muito orgulho ver uma pessoa próxima escrevendo obras incríveis como essas e conseguindo apoio para a publicação. Porque, sabemos, não é fácil não... ---- * Publicado por Vera Menezes no blog Vertigem das Palavras, em 04/11/12. Levei um ano esperando o lançamento do mais recente livro de Carla Dias – Estopim. A ansiedade cultivada um ano inteiro é daquelas raras, das que você tem a garantia que será recompensada pela impaciência de ter que esperar. E não foi diferente: um genuíno deleite. Os bons livros são aqueles que ao final da leitura nos deixam uma sensação de abandono. Ou melhor, uma espécie de saudade por não dispormos mais da companhia dos personagens quando a finalidade que os levou a ser criados esgota-se na missão cumprida. E o curioso é que mesmo sabendo que esta sensação acontecerá, a avidez da leitura, pela excelência do conteúdo, não esmorece frente a essa curiosa impressão de que ficaremos mais solitários quando privados da “convivência” desses seres inventados que generosamente nos ofereceram a interpretação de suas vidas. E sempre a inevitável consequência de refletirmos sobre a nossa própria vida…. Sorte nossa que temos uma segunda chance de permanecer mais tempo usufruindo dos personagens de Estopim, a partir de uma trilha sonora, construída de canção em canção a cada capítulo. Estopim, a exemplo dos livros anteriores da autora (Os Estranhos e Jardim de Agnes) prima pela beleza de estilo. Uma especial e única habilidade de salpicar poesia na realidade, sem deixar nenhum rastro de delírio, nenhum vestígio de impossibilidade. Tenho cá para mim que esses fatores só são possíveis a partir de um incondicional respeito pelos caminhos nos quais arrastamos os nossos pés na vida. Em outras palavras, uma descarada consideração pela biografia de cada um. Aliás, biografia é uma palavra-mantra talhada na produção da autora. A excursão que nos conduz Estopim segue um itinerário angustiado dos abandonos que a vida nos oferece, ou às diferentes portas que tentamos abrir e fechar para sobreviver à coleção de abandonos que acumulamos. Mas abandonos nem sempre são registrados nos cartórios dos fatos, muitos, somos nós que assim os qualificamos a partir da matéria com que nos construímos enquanto indivíduos. Mas isso pouco importa, pois sejam eles reais ou idealizados, quem os sente não lida com esses filtros racionais. Sente e pronto! Sentir é o primeiro estágio na relação do indivíduo com a vida. Sentir é experimentar alegrias e decepções. Sentir é tocar na precariedade de tudo e assim mesmo estabelecer fórmulas – nem todas eficazes – para respirar a possibilidade de algum conforto. Abandonos são estopins discretamente camuflados, mas atentos à ocasião do fogo se estabelecer na proximidade. E quando acionados, os abandonos explodem e são as oportunidades que se apresentam à reconstrução da pessoa. E tudo isso regado ao sabor da poesia, descreve, sem mistérios, a arte de viver. Carla Dias está aí. Está no mundo. Há muito deixou de ser uma promessa. Já é uma constatação profissional cuja competência me obriga a novamente entrar num ciclo de extrema ansiedade esperando o próximo livro. Oxalá que seja breve!

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