A Atualidade do Contestado - Edição do Centenário da Guerra Camponesa

    Milton Ivan Heller

    JM Editora
    2012
    273 páginas
    9h 6m
    ISBN-13: 9788580920222
    Português Brasileiro

    O centenário do maior conflito civil das Américas que envolveu camponeses e interesses políticos e econômicos na região do chamado Contestado é marcado pelo lançamento do livro do jornalista curitibano Milton Ivan Heller, cujo título é “A atualidade do Contestado”. Familiarizado com temas que representam verdadeiros tabus para a sociedade paranaense, Heller traz neste livro, lançado pela JM Editora, um importante arsenal de documentos que comprovam os absurdos cometidos pelo governo federal desde quando o Paraná emancipou-se de São Paulo, em 1853. Os interesses norte-americanos, capitaneados pelo então presidente dos EUA Teodoro Roosevelt e apoiado pelo empresário compatriota Percyval Farquhar, que controlava ferrovias em todo o Brasil, além de ações em diferentes estados, fazendas e indústrias estão entre os motivos para o conflito retratado no livro de Heller. A empresa Brazil Railway, em conjunto com a subsidiária Lumber, e com apoio do seu advogado Affonso Camargo, então vice-governador do Paraná, seria responsável pela sumária desapropriação de terras no entorno da linha férrea que ligou São Paulo ao Rio Grande do Sul. Aproveitando-se do desmatamento de 15 km de cada lado da linha, os empresários foram expulsando os moradores. A disputa de interesses econômicos fomentaria um preconceito contra os povos que habitavam a região. Taxados de fanáticos, bandidos e jagunços, os “sertanejos”, como chama Heller, na verdade, “viviam quase que ignorados pela administração do Paraná e de Santa Catarina. Trabalhavam em suas posses, ou então como peões de fazendeiros latifundiários, conhecidos como papa-terras. Eram também agregados das fazendas, tropeiros ou ex-tropeiros, negros e mulatos descendentes de antigos escravos foragidos para a região, descendentes de índios, caboclos, imigrantes e/ou filhos de imigrantes, etc.” Caracteriza a obra a relação de personagens que fizeram parte do episódio. Dentre eles o capitão João Teixeira de Matos Costa, o general Fernando Setembrino de Carvalho, e o capitão José Vieira da Rosa, responsáveis pelo massacre realizado contra civis camponeses em quatro anos de conflito. Em favor dos interesses econômicos, as ações dos presidentes Marechal Hermes da Fonseca e Wenceslau Brás, resultaram na morte de mais de 10 mil pessoas, entre soldados e camponeses.

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    ana souza08/09/2021Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    "Homens que não ameaçavam ninguém e não deveriam ser atacados e mortos"

    "O Contestado viverá para sempre como um elo entre o passado e o fim dos tempos. Tem alma e luz próprias, não pode ser esquecido ou silenciado. Suas origens remontam à infância da humanidade e ao comunismo primitivo quando todos eram irmãos e irmãs e viviam em harmonia, pois não havia riqueza nem pobreza, escravos e senhores, cobiça e rivalidades." (HELLER; Milton, 2012, p. 257) Uma recomendação feita pelo meu avô, um homem que aprecia a leitura em conjunto do conhecimento. Inicialmente, é dado um contexto primitivo que ultrapassa milênios, em que os homens passaram de coletores à produtores, e quem não passasse, seria considerado primitivo e, consequentemente, subjugado. O Contestado não foi uma guerra justa. De um lado, sertanejos que nada tinham para sobreviver, apoiavam-se no messianismo como forma de pertencer e ter algum propósito, de outro, latifundiários que pouco se importavam se nas terras que apossavam e plantavam tinha gente. Com a vinda de três messias, conflagrou-se um povo reunido em volta de um misticismo, esse que gerava temor aos governantes, latifundiários e Igreja. É um bom livro àqueles interessados em conhecer mais sobre, e entender o porquê da atualidade do Contestado. São fatos que nos deixam reflexivos quando comparados com a contemporaneidade. Alguns trechos que destaquei no histórico de leitura, mas gostaria de relembrar: "Os movimentos messiânicos, sempre caluniados ou mal compreendidos são apresentados como aberrações. Mas ao invés de constituírem crises de obscurantismo e fuga para o absurdo, estes movimentos provêm do conhecimento da realidade e agem sobre ela. Revelam uma tomada de consciência diante das injustiças e concretizam a ação para a reparação desses males." (Maria Isaura Pereira de Queiroz em “O Fanatismo no Brasil e no Mundo'', Ed. Alfa-Omega, 1970 SP, 2ª edição) "Limita-se a descrever as populações dizimadas a ferro e fogo como atrasadas, embrutecidas, supersticiosas e incapazes de se dedicarem ao trabalho honesto e produtivo. Há uma visível preocupação em taxar os pobres e abandonados habitantes dos confins deste país continente como fanáticos e bandidos, o inimigo interno que deve ser exterminado para o bem geral da nação. E substituído por imigrantes europeus, tidos como laboriosos e empreendedores progressistas. [...] Ou seja, davam-se aos imigrantes tudo o que os caboclos nossos patrícios nunca tiveram." (HELLER; Milton, 2012, p. 83) "O fanatismo religioso é uma reação, embora os seus protagonistas não tivessem esta compreensão, uma repulsa à sociedade que os faz perecer de fome e quando adoecem procuram um curandeiro que veneram como um salvador, um guia espiritual."(HELLER; Milton, 2012, p. 90) "Homens de mãos calejadas que logo seriam chamados de fanáticos e bandidos ou jagunços, caçados como bichos e sujeitos a morrer de fome ou de armas na mão." (HELLER; Milton, 2012, p. 91) "Os caboclos do Contestado eram considerados boçais, atrasados, supersticiosos e vagabundos pela sociedade em torno, mas, quando decidiram reagir contra as injustiças que sofriam passaram a ser taxados de fanáticos e bandidos ou jagunços, assim como os devotos do conselheiro eram acusados de monarquistas. Tudo para justificar as guerras de extermínio. E o monge José Maria seria apontado como sanguinário e devasso, uma espécie de Rasputin do sertão. Tinha simpatia pela Monarquia e suas pregações de certa forma eram um saudosismo deturpado. Mas incrivelmente semelhantes ao discurso do conselheiro nos confins da Bahia: a República é a lei do cão; a Monarquia é a lei do céu. E tanto lá como cá existia a utopia de criar uma sociedade livre onde todos seriam irmãos, e construir a cidade santa de Nova Jerusalém." (HELLER; Milton, 2012, p. 208-209) "Não foi só o soldado que venceu a jagunçada. Foi a fome, a doença, as febres." (Depoimento de um sobrevivente, Benedito Chato) "Todos sabiam que a Guerra do Contestado terminara pela exaustão dos combatentes que enfrentaram forças muito mais poderosas. Mas predominava ainda a mentalidade de que era preciso caçar e exterminar os sobreviventes, onde quer que estivessem. E isto seria feito com uma criminosa "operação limpeza" como nunca se viu em lugar algum do mundo." (HELLER; Milton, 2012, p. 241) "Parece-nos que é mais acertado situar o Contestado muito além da questão de limites entre dois Estados e da situação de miséria e abandono em que vivia a sua população, influenciada por monges e beatos e oprimida pelo poder ilimitado do latifúndio. Vítimas de violências com ou sem razões, humilhados e espoliados como os índios que ocupavam vastos territórios e foram escravizados ou dizimados aos milhares. Foragidos da justiça, ex-combatentes das revoluções gaúchas, desempregados da ferrovia, posseiros expulsos de suas terras e muito mais. Foram estes alguns dos fatores que resultaram na guerra camponesa e no sacrifício inútil e brutal de sertanejos laboriosos." (HELLER; Milton, 2012, p. 259)

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