Sonetos de Camões
Camões foi um poeta de atuação em múltiplas frentes: escreveu peças de teatro, a monumental obra épica Os Lusíadas e mais de duas centenas de sonetos que, embora não lhe tenham trazido a merecida fama em vida, foram suficientes para torná-lo inesquecível muito além dela. O soneto é uma forma poética fixa, isto é, com regras definidas e que devem necessariamente ser seguidas por seus praticantes. Surgido na Itália, o modelo mais consagrado possui catorze versos, distribuídos em duas estrofes de quatro versos (quadras) seguidas de duas de três versos (tercetos). Era a forma praticada pelo italiano Francesco Petrarca (1304-1374), a grande inspiração de Camões, tanto pelo conteúdo lírico (elogio da amada e amor após a morte) quanto pela forma (duas quadras e dois tercetos). No soneto clássico, os versos eram decassílabos, a grande novidade formal do Classicismo renascentista (ou Quinhentismo). O eu lírico camoniano consegue ser, ao mesmo tempo, intimista (o suficiente para relatar ou referir um conjunto de experiências amorosas particulares) e universal (ao conferir a essas experiências um caráter de reflexão de valor mais amplo). LEMBRETE As principais características da poesia camoniana se ligam ao conjunto retórico que definia a arte clássica renascentista: equilíbrio, obediência a regras, racionalismo e universalismo. A base filosófica de sua poesia é o neoplatonismo, uma retomada das ideias de Platão (428-348 a.C.). O filósofo grego concebia dois planos distintos da experiência humana: o mundo sensível e o mundo inteligível (ou ideal), atingido após um processo de ascensão espiritual. O primeiro representaria uma prisão do homem à matéria, enquanto o segundo seria o mundo da perfeição. Assim, para Platão, a experiência sentimental ideal seria a do amor espiritualizado ? o amor platônico. Em Camões, a temática do amor espiritual convive com a do amor carnal. Essa coexistência, por vezes tensa, permite perceber o que há de barroco na poesia camoniana. Mas os conflitos encontram sua resolução nos limites da razão clássica.

