Com esse livro, Colette Soler traz a público sua própria posição de analisante: "o analista que tenta pensar a psicanálise, fazer a teoria da experiência, está necessariamente sob transferência - em outras palavras, analisando". Em sua análise, distingue a via régia do inconsciente freudiano - o sonho, como se sabe -, da via régia ao inconsciente lacaniano - o lapso -, em que "lalangue se revela numa mancada que testemunha de maneira pura o inconsciente real". O primeiro tempo de uma análise exige a desconstrução das identificações, o que se tece porque um significante sempre remete a outro significante e, portanto, não é idêntico a si mesmo. Com efeito, "O sujeito sintomático, aquele que supomos à cadeia decifrável de seus sintomas, esse sujeito, na medida em que fala, está em falta de identidade". Daí a pergunta da autora: como o processo analítico, sustentado na fala, pode levar à identidade? É num segundo tempo, com a construção do conceito de sintoma real, que Colette Soler tentará responder. É o "sintoma real, que dá ao sujeito sua identidade, a dele própria, o verdadeiro nome próprio que o distingue de qualquer outro", sintoma que é um "misto de materialidade e gozo, do verbo gozado, ou do gozo passado ao verbo", em lalangue - que o tradutor optou por traduzir como alíngua - como letra que, à diferença do significante, se caracteriza pela identidade consigo mesma, abrindo para a reinvenção do inconsciente que Lacan construiu no campo do gozo, o inconsciente real ao que leva a única grande política da psicanálise: a da revelação do inconsciente, cerne desse livro. Sonia Alberti