O amor e o nojo em Edson Valente
"Pow-emas e outros jabs líricos": "pow" é uma onomatopeia que poderia ter sido tirada de um revista do Batman. É um enfrentamento. "ema" é uma ave pernalta que assiste a tudo, sem no entanto se distrair do seu objetivo principal: caçar peixes, caçar amor ou um afago, na versão humana. "Outros jabs líricos" são poemas em prosa e um olhar mais concentrado das diversas facetas que compõem esse livro, dividido justamente em dois. "Amores que se esbarram, mas nunca se encontram. Poemas desperdiçados. Desejo cuspido ao relento, enquanto a noite ergue paredes sóbrias (Chico?) para a ala dos perdidos. Quarenta palmos de silêncio, o Cruzeiro do Sul está morto. Disseram que o mundo vai-se acabar em pranto, mas há muito venho chorando" (jab intitulada "Apocalipse"). Esse livro de Edson Valente é feito de migalhas, amor e nojo. As migalhas, ele as observa e eventualmente descreve. São palavras que podem passar despercebidas -- aconselha-se uma releitura. O amor permeia todo o livro. "Viagem" é um comovente poema da primeira parte do livro, com as perdas das rodinhas de uma mala de amor, bem como "DR", um pouco surreal. "Novo testamento" é uma das facetas do nojo, bem como "Rios", "Post Coitum" e o contundente "Uma explicação", que trata de um pedófilo aliciando a própria filha. Ser um livro de amor e nojo faz lembrar os Tribalistas: "O amor é sujo/ Tem cheiro de mijo". Quando está enternecendo, repentinamente ele se volve contra o leitor, jogando um fato sórdido, ou um palavrão que seja, na sua cara. É preciso estar preparado e sem preconceitos para ler "Pow-emas e outros jabs líricos", empreendendo uma viagem que, sem dúvida, vale muito a pena.

