Internos encantos
O desassossego nascente na manhã é um templo sem intento, guardião de delicadezas que se afeitam intimamente – no interno e eterno universo do coração. Os desígnios rompem-se no profundo mais fundo, retorcendo o amor que reside e se entorpece em idílicas nuances. “Internidades” [Ed. Penalux/2013] é esse espelhar que se desdobra esplêndido pelo íntimo de uma alma que se devassa em poesia, numa intensa querência. Um livro que replica encantos folheados com tinta dourada, repelidas por olhos que acordam e quietos, aguardam o debute. Cah Morandi se abraça pra nos abraçar, debruçada numa poética de raro dulçor, palavras afinadas no avesso de uma pele que medita sentimentos através de olhares reluzentes e sensíveis. São orações nutridas num desavisado coração que declina encanto nas inundadas aspirações, nos mais enfeitados sonhos, retratos de sentimentos que flutuam céleres no peito que ama – em um crasso anseio – e, por vezes, perde-se em seus próprios rumos, encontrando-se nos próprios sorrisos. Seu livro tem uma poesia estreitada por um paladar anestésico, que abranda os gritos mudos de uma alma lavrada em entregas, guarnecida por confissões de sentir transbordadas num intrínseco e humano receptáculo. Ela enfeita suas dores com cores, disseminando sua ternura, visceral, nas trilhas múltiplas que há, sem esquecer as rígidas colorações em que seus pés pisam e o coração sente. “Internidades” conta o mundo [pro]fundo, d’uma alma que abre voos em seu particular modo de se ancorar nas emoções, n’um desalojar que se acalenta no eterno e esperançoso desejo de amar. É um livro refletido pela fervura da paixão que se dilui na natureza, assimilando os dias e as noites, as transições em que viver exige, e que o amor persiste. Cah Morandi revisita suas moradas, num sopro que desajusta o lugar-comum e finda no íntimo mundo, numa muda internidade sem fim.

