Caminhar
verbo \\ka-mi-ˈɲar\\
deslocar-se colocando um pé diante do outro, cada um tocando o chão antes de levantar o próximo; mover-se de forma contínua e ritmada, seja para passear sem pressa ou simplesmente experimentar o ato de avançar.
No geral, Caminhando é um livro ótimo para quem deseja iniciar os estudos sobre Thoreau, ou sobre seu estilo de vida desperto.
Henry David Thoreau é um desses autores que mudam nossa forma de enxergar a vida. Em 2023, gravei seu nome depois de ler uma resenha de Walden. A história do homem que decidiu se retirar para uma cabana à beira do lago, vivendo por três anos com pouco mais que uma cama, uma cadeira e uma chaleira, é no mínimo digna de uma noite em claro.
Seus dias, afastados da civilização moderna, eram preenchidos por longas caminhadas nos bosques, florestas e campos arados dos Estados Unidos, ainda intocados pelas fumaças das indústrias. Em seus "diários de bordo", Henry documentava cada por do sol, cada farfalhar das folhas, e os extraordinários sentimentos de conexão que estes o induziam a sentir. Para ele, caminhar era vital. Tão vital quanto o ato de respirar, comer e dormir.
"Deixem-me viver onde quiser, deste lado está a cidade, do outro, a vastidão, e estou deixando a cidade cada vez mais e me retirando para o ermo."
Em Caminhando, embora menos denso que Walden, Thoreau critica o avanço da propriedade privada e seu choque com a natureza. A paisagem, dizia ele, não tem dono. Mas previa que chegaria o dia em que caminhar sobre a terra de Deus equivaleria a invadir as terras de algum cavalheiro. Curiosamente, em 1993, quase um século depois, uma empresa tentou erguer um prédio comercial nas redondezas do lago Walden (felizmente impedida {PELO VOCALISTA DO EAGLES, ALIÁS}, mas não sem ironia).
"As nações civilizadas — Grécia, Roma, Inglaterra — foram sustentadas pelas florestas primitivas que antigamente apodreciam onde estavam fincadas. Elas sobrevivem enquanto o solo não for exaurido. Pobre da cultura humana! Não há muito a se esperar de uma nação quando sua cobertura vegetal chega ao fim, e ela se vê obrigada a fazer estrume dos ossos de seus antepassados."
No dia que me aprofundei na vida de Thoreau, foi quando descobri a beleza de estar na natureza. Naquele mesmo dia, foi a primeira vez que entrei em um bosque sem saber para onde iria, nem por que, como se tentasse "comprovar" a ideia dele empiricamente. Enfim, me peguei embasbacada com a beldade do mundo enquanto os raios esguios do entardecer tingiam o mundo de ouro. Daquele dia em diante, trilhar se tornou quase um hábito, fez o medo do desconhecido se esvair. Sempre que tinha um tempo, saía sozinha pra ouvir os passarinhos em uma mata qualquer, pra ouvir o barulho da água corrente de uma cascata na distância. O sentimento imbatível de vagar pelo mundo sem direção, sem razão, sem passado ou futuro; foi o resultado de cair de cabeça na literatura desse gigante. Diria, inclusive, que é dificílimo entender a razão por trás das palavras do autor, sem primeiro ter experienciado a serenidade da solitude, quando envolto pelo verde.
"Acima de tudo, não podemos nos permitir deixar de viver no presente. Abençoado sobre todos os mortais seja aquele que não perde um momento sequer da vida que passa lembrando-se do passado."
Mas não poderia finalizar essa resenha sem citar essa comparação que tive durante a leitura: Henry David Thoreau é o Gonçalves Dias dos Estados Unidos. Acredito que ele foi essencial para a construção do ideal de Liberdade e nacionalismo que hoje é difundida nos Estados Unidos. Mas, sem sombra de dúvidas, a percepção dele é completamente diferente da que temos hoje em dia, lá pro Norte do nosso grande continente. A Liberdade, antes vista como uma terra fértil para a nova vida, para o cultivo da mente e do espírito, para o "reiniciar" da civilização doente, agora se tornou um reflexo daquilo que ela prometeu se curar. Quando pensamos nos EUA hoje em dia, a primeira coisa que nos vem a mente é McDonalds, Wallstreet e... bem... acho que é isso. Dinheiro e comida processada. E, ironicamente, é o país que mais "cria estrume a partir dos ossos de seus antepassados" do mundo.
Inclusive, um século depois, suas ideias ativistas inspirariam Gandhi, Nelson Mandela e Martin Luther King Jr. a idealizarem um futuro em que a liberdade finalmente sairia do dicionário moderno e iluminaria o cotidiano para todos os seres humanos, alastrando-se pelas gerações, para todo o sempre.
"Quando refletimos que este [o por do sol] não era um fenômeno solitário, que nunca aconteceria de novo, mas que aconteceria para todo o sempre e por um número infinito de tardes."