A filha do papa

    Dario Fo

    Dom Quixote
    2014
    224 páginas
    7h 28m
    ISBN-13: 9789722055741
    Português

    Filha de um papa, três casamentos, um marido assassinado, um filho ilegítimo… tudo em apenas trinta e nove anos, em pleno Renascimento. A vida de Lucrécia Borgia foi realmente incrível e merece, sem dúvida alguma, ser contada. Tentaram-no escritores, filósofos, historiadores, e, recentemente, foram-lhe dedicadas séries televisivas de sucesso, tanto em Itália como no estrangeiro. Agora, Dario Fo, Prémio Nobel, afastando-se das reconstituições escandalosas ou puramente históricas, revela-nos num romance magistral, o único escrito pelo autor, toda a humanidade de Lucrécia, libertando-a dos clichés de mulher dissoluta e incestuosa e inserindo-a no contexto histórico e na vida quotidiana da sua época. Assim, ante os nossos olhos desfila o fascínio das cortes renascentistas, com o papa Alexandre VI – o mais corrupto dos pontífices –, o diabólico irmão Cesare, os maridos de Lucrécia – perseguidos, mortos, humilhados – e os seus amantes, acima de todos Pietro Bembo, com o qual partilhava o amor pela arte e, em especial, pela poesia e pelo teatro. Todos peões dos impiedosos jogos de poder. Uma verdadeira academia do nepotismo e do obsceno, entre festas e orgias.»

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    Carla Parreira15/03/2026Resenhou um livro

    A filha do papa (Dario Fo). Dario Fo, dramaturgo e escritor italiano, publicou seu único romance, "A Filha do Papa", aos 88 anos, em 2014, buscando humanizar Lucrécia Borgia, filha do Papa Alexandre VI. A obra é marcada por um tom satírico e uma pesquisa histórica profunda, refletindo sobre questões sociais, políticas e religiosas. O autor, laureado com o Nobel de Literatura em 1997, é conhecido por questionar a autoridade e defender a dignidade dos marginalizados. No romance, Dario Fo tenta reverter a imagem negativa de Lucrécia, frequentemente vista como uma mulher venenosa e perigosa, apresentando-a como uma vítima das circunstâncias e das ações de seu pai e irmão, César Borgia. O contexto histórico do final do século XV e início do século XVI é crucial, com eventos significativos como a unificação da Espanha e as explorações de Colombo e Cabral, que moldaram a Europa e o mundo. O livro entrelaça personalidades da época, incluindo diálogos fictícios que, embora possam ser plausíveis, geram certa estranheza ao leitor. A narrativa começa com Rodrigo Borgia, futuro Papa Alexandre VI, que, após ser levado para a Itália, ascende na hierarquia da Igreja Católica, revelando-se um homem ambicioso e corrupto, que utiliza sua inteligência e charme para conquistar poder e influência, enquanto sua vida amorosa se torna um reflexo de sua busca incessante por controle e prestígio. A narrativa avança para o momento em que Lucrécia, após o assassinato de seu segundo marido, Afonso, se vê em um estado de desespero e indignação. Ela busca refúgio em um monastério, onde tenta encontrar paz e redenção, mas logo percebe que a oração e a penitência não são suficientes para apagar as marcas de sua vida tumultuada. O pai e o irmão, sempre manipuladores, logo arranjam um terceiro casamento para ela, um homem que não desejava se unir a Lucrécia, mas que se torna uma peça importante nas manobras políticas da família Borgia. A jovem, agora com apenas 21 anos, já carrega o peso de dois casamentos fracassados e é vista com desprezo pela sociedade, que a considera desonrada. Em contraste, César, seu irmão, é admirado e respeitado, apesar de suas ações violentas e corruptas. A hipocrisia social é evidente, pois enquanto Lucrécia é estigmatizada, César é visto como um conquistador, um homem de poder que, mesmo com suas atrocidades, é reverenciado. A obra de Dario Fo destaca essa dualidade, revelando como a sociedade julga as mulheres de maneira severa, enquanto os homens, mesmo em suas falhas, são frequentemente perdoados e exaltados. A vida de Lucrécia se torna um reflexo das injustiças e das dinâmicas de poder da época, onde as mulheres eram frequentemente usadas como instrumentos nas jogadas políticas dos homens ao seu redor. Lucrécia, apesar de suas dificuldades, não se apresenta apenas como uma vítima, mas como uma mulher que soube aproveitar as oportunidades que sua posição privilegiada lhe oferecia. Ela se destaca em meio a festas extravagantes e orgias, refletindo a decadência da época. O Papa Alexandre, em uma conversa, menciona que a Igreja Católica se desviou de seus princípios originais, o que levanta questionamentos sobre a veracidade dessa afirmação e se Dario Fo a incluiu para instigar a curiosidade do leitor. Um momento marcante é quando o Papa decide deixar Lucrécia no comando do Vaticano por um mês, uma decisão que provoca indignação entre bispos e cardeais, mas que revela a confiança que ele tinha em sua capacidade. Lucrécia, com sua educação em grego, latim e história da arte, demonstra inteligência e competência ao conduzir os assuntos do Vaticano, especialmente em um caso envolvendo monjas que se destaca na narrativa. Após seu casamento com o terceiro marido, Lucrécia ganha o respeito de seu sogro, que a nomeia para um cargo judiciário, permitindo que ela atue em questões sociais e jurídicas. Sua habilidade e dedicação a levam a fundar a primeira instituição de caridade de Ferrara e a construir conventos, mostrando seu desejo de impactar positivamente a sociedade. O livro também explora a vida amorosa de Lucrécia, incluindo seus relacionamentos com figuras importantes da história italiana, como Pietro, e um amante que tinha sífilis, com quem ela se envolveu mesmo sabendo do risco. A narrativa levanta questões sobre a saúde de seus filhos, que não apresentaram sequelas, o que gera curiosidade sobre a veracidade dos relatos. Embora o livro apresente uma visão interessante sobre a vida de Lucrécia e o contexto histórico da Itália renascentista, a falta de notas de rodapé e referências que comprovem as informações me deixou com um sentimento de insatisfação.

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