De "ser, tão zinho" para ser tão grande
Arthur Ribeiro Cruz , em seu "Semanário do Corpo" (Patuá, 2015), alcança os recônditos do ser humano com beleza e honestidade, seja no poema mais longo, em que enaltece sua cidade, Sertãozinho, como nos poemas-pílulas que surgem discretamente em meados da leitura. O livro é dividido nos dias da semana, tendo uma ilustração para cada dia. A arte é de Leonardo MAthias. Vale a pena destacar um poema ou fragmento a cada dia, começando pelo primeiro dia, "Domingo", a partir do primeiro poema do livro, "Dos princípios": "Não faça poesia com o corpo. Faça de poesia um corpo. Conceba-o, poema, além do espírito, pomba, parto maculado, posto que fruto de palavras, sêmen. O papel emprenhe com dor e gozo fingidos até que esteja maduro o verbo: carne, verdade e caos, filho da discórdia entre os nomes." Tal abertura já demonstra que o corpo do "Semanário" é a própria palavra, o fazer poético, ou ainda, talvez melhor dizendo, o olhar poético, que é um raro dom encontrável em bons escritores e poetas. O verbo está presente também no poema "Gravitação" ("Segunda"): "pelas paredes/ deste escritório de inutilidades/ escalam palavras", alcança o poeta. Mas o poema mais bonito do livro é o mais longo e também o mais simples, "Lira Sertanezina", na "Terça", em que Cruz, filho de Sertãozinho, interior de São Paulo, narra e observa ao mesmo tempo o desenvolvimento de sua cidade desde sua infância, mais ou menos como um voyer que observa tudo de sua casa, a ampliação dos canaviais, a chegada dos migrantes e suas boias-frias, "Os gomos de cana que eu admirav a de tão torneados e tão/ matemáticos" etc. "Meu Sertão, Sertãozinho/ Só quem conviveu anos de vinhaça/ Sabe o que é ser também garapão", irrompe o eu-lírico, que se confunde com a cidade: "Meu ser, tão zinho, ser tão". Na "Quarta", é bela a série de quatro poemas com o título de "Quarta-feira de cinzas". Antes de prosseguir pela jornada dos dias da semana, vale dizer que o livro de Cruz é investido de diversas influências, de Cabral a T. S. Eliot, numa quase-provocação constante. Ainda na "Quarta", temos os tais poemas curtos acima citados, como: "Minha gata estressada Tem olhar bola de gude Quando olha meio de lado Falo: "Felícia, be good"" Na quinta, volta a questão da palavra em um poema sem título: "Dormi sem escrever aquele verso -/ convém guardá-lo à margem do concreto?" Destaca-se na "Sexta" o divertido "Pós-póstudo", em que cabeças cruzam linhas imaginárias em busca de novidades. E no último dia, sábado, é tocante o poema "Guia para nadar os dias": "Descasca a semana com teu nado. Tira-lhe a barrigada, mas deixa as escamas. Não há animal que resista a labutar a carne em turnos d'água surda. Tu serás mil peles, cobrindo a espinha macia e mole. Embora as horas sejam turvas, tu és imaculado. Quem, portanto, impedirá um curso azul do movimento? Pois, multiplica-te. Alimenta o meio-dia com a barbárie de tuas barbatanas. Sê peixe arredio ao voo das horas. Nada, nada silente em veredas de fogo-fátuo. É o terror. É o terror. Que jorrem eles... Tu cumprirás a foz. Certo de que as margens nuas sempre se abrem ao ritmo de tuas brânquias. E então bolhas de neve escorrerão pelos ossos do oceano. Por isso nada, que a ironia de sete mil léguas é toda tua." Este é certamente o poema mais refinado em termos de metáforas de todo o "Semanário", uma folhinha em que os dias passam poeticamente, cheios de beleza e ironia. Um livro para ser lido num átimo, para ser relido com calma e para ser consultado de acordo com o dia da semana. Afinal, como disse Vinicius: "Porque hoje é sábado".
