De carona com Deus e o Diabo: Rum para Rondônia! Há alguns anos, numa primorosa amostra de seu trabalho, nosso cantor e compositor, o Guapo, se referia a uma lenda muito conhecida. O que enchia minha imaginação, no entanto, era a forma como ele a contava e a tornava viva. Hoje, a partir daquela história, imbuída de certa nostalgia, falarei de outras coisas. Essa lenda diz ter à meia-noite um espaço de tempo em que o ontem ainda não foi embora e o hoje ainda não chegou. Como os homens não têm como apreender esse momento, Deus e o Diabo aproveitam para se reunir, fazer um balanço do dia que passou e programar o dia que vem. Esse tempo mítico em que as forças do bem e as do mal se confluem em prol da humanidade seria a intersecção possível da criação e da destruição. Imagine-se um deus que, para aguçar a criatividade na hora de criar o mundo, fizesse tantas concessões ao diabo e tomasse tantos porres quanto o narrador de Rum para Rondônia (Siciliano, 352 páginas, 1991), de Luiz Roncari. O resultado é um livro meio ‘zonzo” que, nascido da gestação de sete dias de viagem, é a personificação do caos em oposição ao mundo harmônico de Deus, segundo o mito bíblico da criação. Mas o narrador de Rum... tem tanto o poder demiúrgico da palavra quanto a sua negação e seu poder corrosivo e destruidor. Esse narrador-pinguço é um ser em trânsito: sempre fazendo a passagem de uma situação à outra ele sabe da frágil fronteira que divisa as coisas e os seres. Ele bebe durante o tempo inteiro transformando o livro numa viagem completa pelo mergulho em Dioniso. Deus e o Diabo são personagens nesse trânsito, no limite de seus poderes e forças, confundindo-se um com o outro como a fotografia que “era a fronteira estreita e frágil entre mim e o outro (...) e nos tocávamos na película fina do papel”, “... como se o dentro e o fora fossem um a extensão do outro.” Memória e realidade se neblinam quando o narrador resolve “mergulhar inteiro nas lembranças da pele” e cria uma escrita movediça na multiplicidade de histórias que conta e que leva o caminhoneiro – seu interlocutor – a dizer: “sua conversa é um areião”. O ritmo da narrativa acompanha o do caminhão em seu percurso de São Paulo a Porto Velho. O motorista que diz “se ando a cinqüenta, conte a cinqüenta” faz o narrador perceber a sintonia que suas histórias precisam ter com o tempo para serem contadas. Depois o narrador conclui que andou no “ritmo do caminhão como se tivesse engolido o velocímetro.” Rum para Rondônia é uma estrada que se bifurca numa narrativa escrita (os capítulos) e noutra oral (os dias de viagem). Mas as histórias se confundem, são as mesmas, “é o contrário de estar num lugar, e quanto mais andasse e se afastasse dele, mais dentro dele entrasse.” O livro é a confluência da palavra oral e da palavra escrita em que o registro gráfico vence a fala, embora marcas da oralidade permaneçam. O romance pode ser lido como uma viagem no mundo da linguagem. Cada capítulo e cada dia de viagem são um ponto na página em branco que embarca na aventura da escrita: a lembrança “na boca vem de um jeito e na mão vem de outro.” O humor e o grotesco nascem de situações singulares que são levadas ao extremo de suas possibilidades, gerando um cenário e cenas surrealistas, como a pedra de diamante que brilha no sexo da sedutora, enfim, convertendo tudo na palavra escrita: as anotações do caderninho, reminiscências, as conversas com o caminhoneiro. A escrita é o saldo, por assim dizer, positivo, de todas as experiências vividas, vistas e imaginadas pelo narrador, “é só o barulho do silêncio.” Entretanto, essas histórias seriam tão falsas como Eva ter umbigo, não fosse a habilidade do narrador em incluir nelas as dúvidas que levanta sobre suas próprias invencionices. O caminhoneiro é o “termômetro” da sua imaginação e chega, em certas passagens, a perder a paciência com o cinismo e a falta de preocupação desse narrador com a verossimilhança das histórias. Nesse romance, o caminhoneiro reconhece no narrador, professor de literatura, uma capacidade que ele, caminhoneiro, não tem. Mas nem por isso se deixa levar pelos delírios do narrador: “se me diz que são de verdade, acredito de um jeito; mas se me diz que são só histórias, então é diferente, não preciso ficar pensando se está querendo me enganar ou não.” O livro pode ser lido também como a relação do contador de histórias com o ouvinte-leitor, na nossa sociedade mecanizada que perdeu o vínculo com o gesto de contar, daquele tempo de cadeiras nas calçadas com “guapos” contando as histórias incríveis da cultura popular ou das fadas e princesas maravilhosas. O livro merece ser lido pela sua alta capacidade de nos fazer rir numa superfície aparente, ao mesmo tempo em que é um momento de profundas reflexões sobre a arte literária, sem confundir suas camadas de significação nesses planos. Rum para Rondônia, nesse percurso inusitado de rodovias bem brasileiras, pode ser sintetizado na epígrafe da última parte do livro, o Epílogo: “... as sensações de um dia de um velho...”. A frase, uma ilha cercada de histórias por todos os lados, inicia e termina com reticências, indicando uma viagem que não terminou no território dessa obra. Mas que o leitor, reunido com Deus e o Diabo à meia-noite, na hora da indefinição, pode continuá-la. Rum para Roncari!!! * VERA MAQUÊA é professora de literatura, Pró-reitora de Ensino e Extensão da UNEMAT.


