Uma grande história que exige fôlego
“Uma bela história, mas um pouco cansativa”: foi exatamente essa sensação ao fechar o livro. A narrativa constrói um paralelo ambicioso entre a epopeia de Juscelino Kubitschek na criação de Brasília e a travessia árdua dos retirantes nordestinos rumo à nova capital. O autor entrega, acima de tudo, Brasil em estado bruto: Bahia, Pará e Goiás surgem com força imagética, em descrições que percorrem sertão, Amazônia e cerrado como se cada bioma respirasse. A natureza é personagem, testemunha e cenário de um país que pulsa em grandeza e contradição. Os personagens encarnam a alma brasileira — coragem, resiliência, simplicidade, fraternidade. Há reviravoltas emocionantes e momentos de beleza narrativa. Mas um ponto me acompanhou do início ao fim: as mulheres quase não têm voz. É a velha centralidade masculina que narra, interpreta e ilumina a história. Às mulheres, sobra o lugar de sempre — cuidadoras, silenciosas, abnegadas, fundamentais, mas quase nunca protagonistas. E isso contrasta profundamente com as pioneiras reais de Brasília, que conhecemos hoje: mulheres que não apenas acompanharam a construção, mas eram a construção — empreendedoras, professoras, enfermeiras, líderes comunitárias, mulheres que fundaram escolas, ergueram lares, sustentaram famílias enquanto o país levantava a nova capital. Histórias que raramente ocupam o centro, mas que sustentaram a cidade desde o primeiro tijolo. Apesar da extensão e do ritmo mais lento, o livro recompensa quem se entrega à viagem. Uma leitura que vale pela história que conta — e também pela que deixa de contar.
