Uma poética livre, leve e solta...
Uma poética livre, leve e solta... Tudo é Beija-flor da poeta Lázara Papandrea (Editora Penalux, Guaratinguetá, 2016, 92p.), constitui-se num belo presente para os leitores, sobretudo para aqueles que têm visto nas Redes Sociais aqui e ali, ontem e hoje, os poemas da autora mineira. Dispostos dessa forma fragmentados no tempo/espaço, tais poemas me causavam aquela fina curiosidade de saber mais. Agora cai-me às mãos afinal um livro que é onde se corporifica a literatura. Beija-flor. Esta a senha para perceber a poesia de Lázara. Aquela que não traindo os sentimentos a ponto de os destruir, sugere mais, e tão completamente quanto possível. Onde podemos notar uma poética na qual todas as fibras entram em vibração para propiciar o transporte das verdades do mundo interior – colhidas na natureza polivalente e indiscriminada da vivência -, capazes de transmitir o “eu-profundo”, que ultrapassa o plano da consciência e da inteligência discursiva, para mergulhar no caótico, no vago, onde se depositam justamente as vivências decorrentes do contato com o mundo exterior, transfiguradas pela imaginação. A poeta caminha seguindo um domínio de especialidade em lavrar flagrantes, ou seja, surpreende o instante em que o humano se olha, se consulta, se recorda ou se redime. Versos da poesia Hortelã. “Este desejo de saber mais do vento, da paisagem verde, da sede que me descortina o sabor. Esta chaleira que fumega na memória a casa antiga e seu alpendre e, lentamente, vai inundando a minha vida de agora”. Ou no poema Atemporal: “Aqui me tenho neste tempo onde invento de me saber e não me sei.” Embora a poesia de Lázara não se prenda a uma linearidade temática, ou mesmo formal, pois a própria autora acredita (como afirma no prefácio da obra), nas colagens, nos reflexos, nas sobreposições, nas costuras mais improváveis, nos pedaços mais ínfimos, soltos, ventados e atemporais, chama-nos a atenção o alto grau de compromisso com o social que transborda em poemas com Contrastes e O homem da rua ao lado. Versos do primeiro: “Que inverno é este no rosto deste povo Quando o calor já se faz grande estorvo? Que perpétuo é este que impede o riso E abre asas de corvo na face De toda gente?” Neste poema, um verso em particular traduz o doloroso desalento que vivemos neste Brasil grotesco da atualidade: “Ninguém que saiba desconstruir a armadilha”. Repito. Beija-flor. Nesta palavra a metáfora, o símbolo da expressão do “eu” da autora com todos seus pesos e camadas de significação. Beija-flor no sentido daquilo que em seu mundo interior é permanente movimento. A sequencia de movimentos com que o pássaro fecunda flores. Movimentos de uma poesia que germina sentidos e sentimentos, que sobrevoa superfícies aparentemente plácidas e, de súbito, mergulha e bica. Traz-nos dessa rápida imersão, verdades estonteantes que ferem nossa sensibilidade com as asas de um verso luminosamente esvoaçante. As asas deste beija-flor de Lázara Papandrea, neste mundo abafado em que transformamos o planeta, produzem em nossas faces brisas de ar puro. Que se transformem em ventos sobre todos os quadrantes.

