Um dia na intimidade de um poeta
“De repente é noite” (Penalux, 2016) é uma novela ágil, com uma narrativa que prende o leitor. Seu tamanho pequeno (68 páginas) e a linguagem direta que o autor Maik Wanderson utiliza para contar um dia na vida de um poeta obscuro propiciam uma leitura rápida, mas com marcas fortes. As situações limites estão colocadas desde uma memória do poeta (o protagonista, assim como a maior parte das personagens, não tem nome), a respeito de seu pai. É justamente a lembrança de um dia em que se sentiu humilhado pelo seu velho. Coloca-se, desde então, o desafio existencial que é ter um pai, com suas qualidades e defeitos. Outra memória com o pai é terna: o poeta ainda é menino e anda na chuva de com ele. “Em pleno mês de maio caía uma chuva de fevereiro, e mais uma vez ele era menino, caminhando para a escola de mão dada com o pai. Sim, aquele pequeno que ele avistava da janela embaçada do ônibus não poderia ser outro senão ele mesmo, orgulhoso, de farda impecável, carregando a bolsa pesada com uma expressão infalível no rosto, expressão de criança, inocente, desconhecedora, resoluta.” Ao leitor cabe julgar se o relacionamento do poeta com o pai é que vai motivar todas as suas futuras ligações emocionais. Já na meia-idade, professor universitário e poeta relativamente conhecido, nosso protagonista aparece casado, numa longa e cansativa discussão com a mulher (“a esposa”), que conhece os seus romances com alunos adolescentes. Alguns desses casos amorosos começam com a admiração dos jovens pela lírica do poeta. O telefone toca. É Virgínia, a única personagem nomeada da obra, uma amiga brilhante e doente, entrevada. Ela é quem vai dar ao poeta, pouco antes do lançamento de um novo livro, uma notícia em que culmina o transbordamento amoroso do poeta horas depois. O estilo de Maik Wanderson nos faz sentir empatia pelo poeta. Pode-se imaginar até o tipo: relaxado, barriga de cerveja, talvez careca – o autor não descreve as características físicas das personagens. Mas, fazendo tal inferência, ainda assim um modelo decadente como o do protagonista faz dele um vencedor, pois, ao mais importante, que é sua carreira literária, une-se o vigor de fortes emoções. A novela deixa algumas coisas em suspenso: quem é a mãe do personagem? O que aconteceu com o pai, esse ser superpoderoso na vida do poeta? A obra de uma vida desse poeta tem ainda os impulsos juvenis de quando foi criticada por seu pai? Quem é a esposa? E Virgínia, por que tem um nome? Será porque morrerá em breve? Quem é exatamente a personagem misteriosa que volta ao final da novela e lhe assegura um clímax? São histórias que se ramificam, mas que o autor, fazendo uma narração consciente e consistente, opta por não esmiuçar, para não deixar perder a força do principal: o dia na vida do poeta. Um dia em que, de repente, é noite.

