Os estranhos -

    Odair Albuquerque

    Editora Penalux
    2016
    168 páginas
    5h 36m
    ISBN-13: 9788558330978
    Português Brasileiro

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    Krishnamurti Góes dos Anjos17/08/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    CONTOS DO DESESPERO - UM REPETECO DE RESENHA

    O absurdo instalou-se definitivamente no mundo. Vivemos a ausência de sentido das coisas (ou seu hipersentido negativo). A sociedade que criamos e estamos a vivenciar sofridamente em pleno século XXI é a da massificação do indivíduo, com o domínio do dinheiro, da erotização desenfreada, da violência generalizada e do todo poderoso “mercado”, em meio à uma queda dos mais elementares valores éticos e morais. Uma sociedade em que o indivíduo não tem importância alguma, senão como fragmento de uma massa amorfa e consumidora manipulada em todas as suas dimensões. O resultado mais imediato e sinistro de toda essa aventura na qual ninguém é responsável por nada (com redundância e tudo), tem gerado um descontrole existencial que se reflete nos mais dantescos quadros de dor e sofrimento. A vida vai deixando de ter valor, eis nosso momento extremamente crítico... É nesse contexto escatológico que nos chega às mãos o livro de estreia na literatura de Odair Albuquerque. “Os estranhos” reúne contos muito bem escritos e urdidos nos quais salta à vista a contundente experiência literária que o autor levou a efeito ao longo de suas ficções curtas. Boa parte das criaturas estão no limite estremo da existência, muitas delas presas à uma cama, doentes, moribundas, outras verdadeiramente desesperadas. E, no entanto, temem a morte. Estranhas criaturas vamos nos tornando. De fato. “A enfermeira” disseca um dilema de amor paterno e se passa em um quarto de hospital, “As últimas horas de Cipião” trata de um moribundo preso em seu leito de morte, com a família a disputar sua herança, “Lua cheia” descreve as desgraças de um menor de rua sem eira nem beira, “Na praia” uma garota de programa assassina os pais e sai mundo a fora para o que der e vier, e “A entrevista” conta a história de um assassino profissional. Esse o elenco de “Estranhos”. Ruínas humanas... Mas há também pequenas clareiras para débeis reações (como de fato ocorre na tal vida real, débeis reações). “Um pianista na estação” é exemplo em que se narra o desconforto do indivíduo vivendo livre e solitário entre multidões sem rosto e sentimentos, concentrado na consciência do existir e incapaz de resistir às imposições massificantes. Vale também referir “Os estranhos”, o conto-título, onde a desconfiança reinante de uns para com os outros, frutifica em medo vivo, e apodrece no pânico ante uma simples presença desconhecida ou olhar mais demorado de alguém próximo. O desespero é tão dilacerante e contaminador que o último texto do livro, “Quarto de despejo”, em apenas duas páginas trás a sugestão macabra despertada por três elementos: uma corda, uma escada, e uma viga no teto de um quarto! A desesperança existencial que exala da maioria dos vinte e um contos de Odair Albuquerque representam a busca do humano que ainda resta (ou que não acordou?) em nós, para além da heteronomia (sujeição à vontade de outrem / ausência de autonomia) de nossa sociedade enferma. Assim, o desequilíbrio contemporâneo retratado representa um valor positivo na medida em que desesperar-se e reagir, leva a marca do humano que persiste. Mensagem clara de esperança de redenção em um mundo resignado. Indício de que a literatura cumpre o seu papel de insurgir-se e berrar a plenos pulmões. Livro: “Os estranhos” – Contos de Odair Albuquerque. Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2016, 168p.

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