O curto-circuito estético de Michel Melamed, uma reflexão política e ética através da performance Michel Melamed, em 2004, estreou o espetáculo Regurgitofagia – baseado neste livro. Trata-se tanto de uma leitura quanto de experiência de pensamento através dos sentidos e da tecnologia, uma interface denominada “Pau-de-Arara”. Através dela, todas as reações sonoras da plateia (risos, aplausos, tosses, vaias, etc.) eram captadas por microfones e transformadas em descargas elétricas sobre o corpo do a(u)tor. De um lado, sua performance abraça e, ao mesmo tempo, se distancia de certos pressupostos modernistas; de outro, radicaliza determinadas práticas definidoras da arte contemporânea. Nessa edição, descobre-se não somente a origem do espetáculo, como também uma nova encarnação, na palavra sobre o papel. E, mais uma vez, a arte toma forma.
Regurgitofagia -
Michel Melamed
Edições (1)
Ver maisNostalgia Cinza
Regurgitofagia é um livro todo diferente, todo ousado, todo novo, todo inusitado. Uma das coisas que mais gosto na leitura de um livro é a experiência literária que ele me oferece. Gosto de explorar os livros que tenho em mãos como se estivesse explorando um mundo novo, porque é exatamente isso que eles trazem nas suas páginas. Regurgitofagia propõe exatamente isso: uma experiência completa. Para os que buscam um livro pra sair da zona de conforto, para refletir e para se aventurar, trago aqui uma boa pedida. Regurgitofagia é um livro extremamente visual. Seja por conta dos poemas datilografados nas páginas pares ou pelas brincadeiras estéticas com a poesia e os textos nas páginas ímpares, todo o livro procura proporcionar uma experiência para o leitor que o tem. Algumas imagens do espetáculo que dá voz ao livro são distribuídas ao longo das páginas quebrando a leitura duas vezes e ilustrando a intensidade que parece pingar das folhas. Além disso, outros aspectos também contribuem para que Regurgitofagia seja mais que um livro comum. No começo do livro o autor propõe alguns exercícios interativos de escrita para o leitor entender melhor a mensagem e interagir mais com livro. O livro inteiro é escrito em várias línguas além do português. Até mesmo a tradução de suas palavras é feita de forma única e particular. As páginas ímpares contêm os seus textos em português e são o cenário para a maior parte dos poemas “desenhados”, ou seja, dos poemas distribuídos na página de acordo com o objetivo estético do autor. Nas páginas pares temos as mesmas palavras traduzidas simultaneamente para o inglês e para o francês em forma de texto datilografado e sem uma distribuição elaborada pela página, pelo contrário, são concentrados no canto superior com um tamanho menor e cada frase é divida por barras (/) ao invés de parágrafos. Ao final, bem quando o leitor parece se acostumar com a forma com que corre o livro, o autor escreve alguns poucos textos em alemão quebrando qualquer padrão que ele havia estabelecido previamente. É um livro excepcionalmente fácil de ler por conta dos poemas, ilustrações e por conta da própria diagramação. Além disso, a escrita de Michel Melamed contribui com esse fator porque, em diversas partes de sua poesia ele abre mão dos pontos, das vírgulas, parágrafos e pausas. Ou seja, o ritmo de leitura fica mais acelerado e intenso à medida em que as palavras começam a corre desenfreadas pelas páginas. Particularmente não consegui entender um esquema lógico por trás da coletânea de poemas e textos do autor, mas talvez tenha sido essa a proposta do livro. Um caos organizado, um amontoado de pensamentos, sentimentos e críticas que, ao serem colocados juntos, criam um sentido próprio. Um ponto negativo é que a escrita do autor não é tão facilmente digerida pelo leitor comum. Não é aquele livro gostosinho de ler, aquele que você indica para qualquer um. É preciso gostar de tentar decifrar o sentido por trás daquelas palavras, gostar de refletir a respeito do texto que tem em mãos, gostar de ler e reler a mesma frase várias vezes para absorver mais perfeitamente aquilo que o autor está dizendo. Por conta disso a leitura pode não agradar a todos e acabar se tornando um pouco tediosa, mas isso vai variar de acordo com o perfil de quem lê a obra. Parece um livro de vanguarda, vem querendo quebrar paradigmas e cuspir ideias. É uma urgência constante que tenta acompanhar o ritmo frenético do mundo de hoje e, ao mesmo tempo, trazer o leitor para o aqui e o agora por meio das palavras. Outro aspecto peculiar do autor é o seu modo de brincar com palavras, dar significados novos àquelas que já conhecemos e inventar novas de acordo com a mensagem que ele busca passar. Michel Melamed mostra sua competência em tirar sensações de frases que jamais imaginaríamos juntas. Regurgitofagia é uma daquelas brincadeiras com fundo de verdade. "Regurgitar: expelir, fazer sair, o que em uma cavidade está em excesso, principalmente no estômago. Fagia: comer." O autor faz uma crítica ao consumo excessivo de estereótipos e produtos que, ao final das contas, não acrescentam em nada. A fagia seria, ao meu ver, uma forma de filtrar aquilo que é realmente necessário ou que tenha conteúdo e, ao mesmo tempo, nos fazer perceber, através do grotesco, o que realmente existe por trás de tudo que não nos acrescenta.
Estatísticas
Avaliações
4.5 / 11- 5 estrelas64%
- 4 estrelas27%
- 3 estrelas9%
- 2 estrelas0%
- 1 estrelas0%

