VERDADE NOTURNA é uma coletânea de mais de 240 poemas do poeta e compositor Dinho Fonseca, onde constam alguns temas musicados por seus ilustres parceiros (ver vídeos abaixo). O livro é uma leve mistura de lua com claves de sol. VERDADE NOTURNA Gente é mais sincera à noite. O sol nos franze a expressão e comprime nossa emoção. Você diz que a ama e ela parece sentir dor. Não há penumbra nem mistério e a bebida esquenta. O fogo na noite é mais aceso. Não que eu não goste do sol, importância vital, é que a noite premia as intenções do dia. E também não sou o dono da verdade. Mas para mim ela é noturna. COISAS BONITAS Eu queria lhe dizer palavras bonitas, amor. Dessas escritas, que não se dizem com dor. Poderia dizer das belezas da vida, louvor. Ou, quem sabe, das flores, alguns tons de cor. Queria tirar dessas palavras sofridas, ardor. Fazer dessas verdades não tidas, horror. Espremer de todas as mentiras mentidas, rancor. Do perfume eriçado da pele, odor. Eu queria dizer coisas minhas, me expor. Nas cifras contidas na brisa, compor. No frio da minha alma tremida, calor. Do riso da boca contida, humor. Eu queria levar o mar ao seu interior. Esquentar meu frio sem sentir o meu calor. Confessar as várias coisas escondidas, depor. Só queria dizer coisas bonitas, amor. ACONTECEU FOI DE VERDADE MESMO Sol a pino e o velho lá cavando terra. O suor já escorria feito minhoca nas rugas do rosto e pingava a terra seca, fazendo bolinhas de lama dura. Aconteceu que na quinta enxadada o velho se travou. A coluna cansada estalou dum jeito que passarinho ouviu. A mão direita no braço erguido ao céu mostrava a linha da vida encravada na palma ao Nosso Se-nhor lá de cima, um traço escuro que nem fenda de sombra no chão. O velho ficou foi todo duro igual pedra. Fechou os olhos de dor e ficou paradinho ali todo curvado. Ainda bem que tinha o cabo da enxada pra apoiar o sofrimento. Ninguém por perto ouviria seu pedido de socorro se a voz pouca conseguisse dar aviso. O velho foi tentando se erguer aos poucos... bocadinho em bocadinho até a coluna velha se acertar no prumo. Doeu mais que o lamento da morte! Parece que passaram dias... até que respirou mais calmo o sabor da fome na boca vazia, puxando e soltando a falta de vento... e o velho continuou enxadando a terra lentamente como se fosse a última coisa a fazer na vida. A dor da morte, ele pensou, como pensou no leite fresco, na companhia da parceira de tantos anos, dos olhinhos vivos dela, lágrima fez bolinha no chão também... mas enxadou a terra o quanto pôde, fez o que pôde, e fez um chãozinho de pedra por cima da cova. Naquele jeito sofrido, quase deixou o rabo de fora. A cruz! Quase que esquece dos paus cruzados, sím-bolo do seu padecer, de sua dedicação e fervor. Jurou amor eterno... exausto, bebera do seu leite e sofrera no seu leito. Mas já não adiantava mesmo mais nada a se fazer. E ficou lá o velho chorando a morte da bezerra. Dinho Fonseca

