No chão da fábrica - contos e novelas reúne histórias que têm como temática principal a classe operária. São relatos sobre o trabalho e a vida de brasileiros que escolheram o mundo urbano de São Paulo para realizar o sonho de ter uma vida melhor. Fernando Bonassi, escritor e roteirista, destaca na apresentação- São narrativas sobre a inutilidade do esforço, a destruição dos laços afetivos e a mutilação dos corpos pelas necessidades materiais. Tramas sombrias que, à luz do que vivemos, permanecem atuais. Bonassi conclui- O leitor tem nas mãos um livro fundador daquilo que somos e fizemos de nós mesmos. A reunião de contos e novelas traz ainda avaliações críticas assinadas por professores e jornalistas ligados à literatura. Nesse livro, vê-se nitidamente o trabalho literário, o cuidado com a linguagem, com sua organização, buscando efeitos que transcendam o mundo meramente objectual. É trabalho literário que se reencontra com o trabalho material de seus sofridos personagens. E isso é Literatura, com maiúscula!, diz Enid Yatsuda Frederico, professora aposentada do Departamento de Teoria Literária da Unicamp. Um livro fundador Evento estético e político fundamental das últimas décadas em nosso país foi a entrada da eriferia das grandes cidades na paisagem da cultura. Hoje não se discute a força que tem esse território, mas durante muito tempo esta espécie de não-lugar permanecia sem voz que a expressasse... Até aparecer Sabor de química, em 1976; nele se operavam maravilhas-primeiro, o talento do autor ao dar forma artística a uma realidade que ainda se processava. Vivia-se o fluxo migratório dos anos 70, e os brasileiros que chegavam para construir a cidade grande terminavam pelos arrabaldes baratos, como estoque de mão de obra da indústria. Roniwalter Jatobá decidiu olhar para isso, e o espanto em seu texto era a ousadia de penetrar o mais profundo da alma dessa escória, traduzir a angústia e a loucura da miséria por dentro, e não apenas como elemento sociológico de um plano intelectual. Havia também a justaposição das duas partes do livro, com histórias do sertão e da cidade-ao acompanhar o deslocamento de um personagem mais típico de uma certa cultura rural, Roniwalter registrava, para além de seu próprio campo e tempo histórico, a transição do regional para o urbano, que acontecia no imaginário brasileiro. Em 1978 vem as Crônicas da vida operária, em que o inferno do trabalho se junta à atmosfera da ditatura e produzem um poderoso painel de nossa experiência recente. São narrativas sobre a inutilidade do esforço, a destruição dos laços afetivos e a mutilação dos corpos pelas necessidades materiais, o homem virado em número e valor de produção; tramas sombrias que, à luz do que vivemos, permanecem atuais. Tiziu, novela na terceira parte deste livro, apareceu em 1994 e conclui o projeto literário. Na trajetória de Agostinho, que volta derrotado à sua cidade de origem, ecoam todas as vozes de Roniwalter - as que têm nomes e as anônimas, as que gritam seu desespero e as que contemplam o fracasso em silêncio - todas elas tecidas com enorme vitalidade poética. O leitor tem nas mãos um livro fundador daquilo que somos e fizemos de nós mesmos. Fernando Bonassi é escritor e roteirista.
No Chão da Fábrica. Sabor de Química, Crônicas da Vida Operária, Tiziu
Roniwalter Jatobá
Nova Alexandria
2016
452 páginas
15h 4m
ISBN-13: 9788574924120
Português Brasileiro
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