SALTAR VAZIO...
Há poetas que conseguem efetuar uma transfiguração e unificação do que sua sensibilidade capta do mundo de fora em matéria de realidade, com aquilo que sua imaginação transforma e amplia livremente. Põem em funcionamento seu complexo mecanismo mental para produzir um ato integral de criação, evidenciando as suas visões de mundo (cosmovisão) e as transferem ao leitor, em elevado grau de comunicação, de modo que é dado conhecer e compreender a realidade física e mental em que imerge todo o ser do escritor, não apenas uma de suas parcelas. Mais claramente: A cosmovisão que se desnuda nesses casos raros, engloba o ser que pensa, com todas as suas faculdades e representações e a série infinita de objetos e/ou situações pensadas, isto é, realidades situadas além do eu, ou do não-eu: de um lado, a ordenação do caos cósmico numa unidade coerente com a harmonia desejada pelo autor; de outro, a integração do eu numa ordem universal de que ele participa. Parece confuso? Não é. Vamos a um exemplo prático: O senhor Marcelo Adifa, acaba de publicar um excepcional livro de poesias sob o título de “Saltar vazio”. É obra que se divide em três capítulos: “Do que está na memória”, “de perder-se em pensamentos”, e finalmente, “Daquilo que nunca se teve”. Veja-se, por exemplo, o poema que dá título à obra: “Saltar vazio”, e observemos logo aí o modo como trata determinado tema (no caso específico a memória). Há um ângulo especial, uma “temperatura” no tratamento, uma densidade reveladora expressa no último verso: “A memória é o precipício da alma / é de onde surgem os argumentos / para o saltar vazio rumo ao nada E quando o que encontra-se é fragmento / temos a certeza do acaso, do inconstante / do acidente que é peso ou palavra Depende de como cada um escreve sua vida” E como cada um escreve sua vida implica sim no sentir a vida e no amor, uma de suas molas mestras. Veja-se o poeta que sente, e como sente o amor em “No encostar da pele”: “Há no encostar da pele / lábio assombro e desejo / a boca, no que é vermelha / no que é carne e exercita / o roçar em outra natureza / misturando-se nesta E quando ela se retira / fica um findar amargo / imprecisa semelhança / de lábio que só procura / pela parte que lhe falta” A parte que lhe falta transforma-se em saudade (vista pela verve do autor como algo mais além do que a mera presença/ausência física). Poema “Que é saudade”. “sabemos que é saudade quando a imagem / surge no virar de esquina sem esperarmos / e não é quem imaginamos ou queremos, não é / mas ali esteve na fração de tempo que levamos / para perceber o equívoco de outro momento e nas coisas pequenas, no compor de um riso / na voz que nos parece com frases e desejos / no piscar de luzes em ruas repletas de carros / tudo tem o cheiro do seu corpo, do beijo que foi / e desmanchou-se em noites repletas de ausência já não somos mais os erros que cometemos / nem eu o mesmo / e de mim, / metade que se reflete em pedaços / a outra parte sem rastros / ficou essa capa de homem sério / que se perdeu no passado”. Observe-se que a saudade se transforma junto com o ser saudoso. Aquilo que a poeta Clarissa Macedo identificou no poeta, e escreveu no Prefácio à obra: “Há um duelo que ora pende para a aflição, ora para a travessia”. É justamente esta travessia que o autor parece deixar como mensagem e que prevalece. Leiamos “Seria falar ao vento”, fica patente como, apesar de tudo, e tanto, a vida prevalece. “soubesse que os dias seriam cinzas / as noites lamentos em Deus / passaria à margem e deixaria / minhas impressões sobre a vida / na areia da praia ou neste pó / que me faz homem / herança de tantas gerações / que me arrastam em sangue / desde o deserto dos meus olhos Mas estou em pé / como a esfinge / que acenou em adeus para meu avô / quando percorremos / (pois ele nos trouxe em seus passos) / as dunas do nosso oriente / e nos fizemos fortes quase desisti / mas seria falar ao vento / que não o respeito / sua força movendo pedras e povos / impulsionando homens sobre águas estranhas / - e eu, / deitado em minhas frustrações quase desisti / mas ao ver lá fundo entre risos e ironias / alguém que acreditou em mim / voltei dos mortos / ainda que com o peso do mundo / sobre as costas” Realmente os poemas de Marcelo Adifa atingem, dentro da tocante simplicidade com que são escritos, um alto grau de empatia com o leitor. Difícil citar outros, todos muito bem realizados, mas finalmente voltamos àquela cosmovisão a que nos referimos, e que sempre se enraíza em uma concepção do real, entendendo-se por real não só os objetos materiais como os imateriais; não só as coisas e seres como também os conceitos: supõe a visão do mundo da natureza e do mundo do espírito: Em conseqüência, o conjunto ordenado de valores, impressões, sentimentos e concepções de natureza intuitiva, anteriores à reflexão do escritor, corresponde ao modo como interpreta suas relações com o universo, pois, como defende Geoges Lukács, tudo o que o homem pode ver no mundo é sempre a relação, a trama de sua vida com propriedades que não pode mudar. Empatia com o leitor repetimos, porque envolve os temas sobre os quais verseja (com todas as suas contradições dialéticas), num arranco que ambiciona conhecer, desvendar, e sintetizar em súmula expressiva. Vale muito este feito, ou ao menos a tentativa, porque traz para perto do leitor um universo complexo que ambos anseiam compreender. Isto é, a nosso ver, o que consagra uma obra pelo seu aspecto residual, aquilo que nos dá respostas (ou elementos para tanto, posto que as subjetividades de cada leitor também as engendram), às perguntas que cada geração formula de um modo novo acerca dos problemas de sempre: quem sou? Donde vim? Para onde vou? Como vou? Abordagens que ficam na memória do leitor como um núcleo a irradiar força. Positivamente, e sem favor, Marcelo Adifa é poeta para o qual devemos estar muito atentos. Mais um poema para refletir... “do pó ao homem de pó o homem e seu destino / feito no soprar a barro que nada é / além de poeira molhada à lágrima / e nunca muda, a estrada é só recorte / da mesma terra que aprisiona almas e quando bate o coração essa poeira / corre veias, serpenteia no sangue já arisco / inundando artérias, se moldando angústia perceba no homem a pele – cada escama / é uma cidade onde pôs pés mortos / sem que lhe tivessem notado vida / em cada passo antes percorrido / os olhos, açudes sem nada, choro seco / pois de água o corpo sente falta / não desperdiça no lacrimejar do agora quando descama em podre pele / revelando que seu sangue foge / pelo vento de algum deserto / é assim homem que se espalha / e vai ser outro na lembrança / dos que ficam e do tempo / dos que ficam e do tempo / que se perde”. Livro: “Saltar vazio” – Poesias, de Marcelo Adifa – Editora Penalux, Guaratinguetá - SP, 2018, 124 p. ISBN 978-85-5833-344-3 - OBS: LINK PARA COMPRA: http://editorapenalux.com.br/loja/saltar-vazio

