E lá se vai outro livro da Allende pra continha. Filha da Fortuna não tem o mesmo tom avassalador de A Casa dos Espíritos, mas a narrativa, apesar de ter um ritmo mais lento em alguns momentos, ainda é envolvente e composta de discussões interessantes. Para começar, mais uma vez a autora cria sua história com base em um contexto histórico bastante rico e detalhado. Enquanto conhecemos Eliza e a família de britânicos que a adotou, também vamos nos familiarizando com o cenário de colonização e a diversidade social. Eliza é uma criança chilena que é criada sobre os preceitos de Rose Sommers, jovem inglesa, com suas regras de etiqueta e dogmas sobre como ser mulher. Mas se de um lado Eliza tem uma educação firme e aristocrática, do outro convivendo com Mama Frésia, a cozinheira indígena da família, ela aprende a sabedoria culinária e a firmeza que vão ser necessárias para o que ela enfrenta no futuro. Na adolescência, Eliza sofre a sua primeira e avassaladora paixão, que vai moldar todo o seu destino. E entre as experiências da jovem e as lembranças de Rose, fica-se diante mais uma vez do poder ardoroso com que Isabel Allende escreve sobre o assunto. O poder da primeira paixão de Eliza é tão grande que a leva em uma enorme aventura por um desconhecido e temível novo mundo. É aqui que, apesar de haver mais descrições longas sem a presença de muitos diálogos, está toda a riqueza dessa obra. A autora pinta um retrato sobre a Corrida do ouro que ocorreu na Califórnia no século XIX. Não tive muito tempo para pesquisar, fui só ali no Wikipédia rapidinho, o que não é grande coisa, mas o que se pode fazer? Dessa pesquisa rápida pude ver que a Allende foi BASTANTE realista sobre o que aconteceu naquele lugar, naquele período. E quando você ler, imagina que realmente está presenciando aquele momento. A febre pelo ouro não só arrastou americanos até ali, mas toda uma gama de homens - e algumas poucas mulheres - de todas as nações e lugares, mesmo os mais distantes, como no caso dos chineses, que recebem um maior foco aqui. E isso se deve a um dos excelentes personagens da trama, Tao Chien. Tao é o que pode ser descrito como médico, ele acompanha Eliza nessa viagem por esse lugar selvagem e sem leis. Pela perspectiva dele e de Eliza vemos a xenofobia, a segregação e a violência contra as mulheres, esse último através da prostituição, que acontecia naquele lugar. Allende fala das mulheres que vão até a Califórnia para se prostituir e daquelas que são forçadas a isso, e estampa nas suas páginas como é mais seguro e fácil ser um homem, mesmo imigrante, do que ser uma mulher.
Concluindo, você não vai ler aqui uma história de amor, apesar do que inicialmente possa parecer. Essa é uma história sobre mulheres que utilizam sua força e sabedoria para enfrentar as diversidades e as normas. Com muita sensibilidade, serenidade e habilidade, a autora fala também sobre companheirismo e amor. A única coisa que não me agradou muito foi o final em aberto, mas já sabendo que tem um tipo de continuação, posso relevar mais isso. Allende atendeu às minhas expectativas e mais uma vez me deixou encantada com todo o seu brilhantismo. Já estou ansiosa pelo próximo.