Alguns livros acerca da 2ª Guerra Mundial tendem a romantizar algumas passagens desse conflito. Definitivamente, esse não é o caso de A Pele. Tendo recebido proibição moral pelo Conselho Comunal de Nápoles e a inclusão no Index dos livros proibidos pela Congregação do Santo Ofício, esse livro é visceral.
Não se trata de história de batalhas sangrentas, de episódios de conquistas territoriais. Aqui a batalha é de outro naipe.
Em 1943, os aliados chegam à Itália como libertadores. Mussolini, preso por ordem do Rei italiano marca a derrota italiana. Esse é o cenário que Malaparte usa para sua narrativa, onde é ao mesmo tempo autor e personagem. Em uma Nápoles devastada pela guerra, ele conta como a liberdade pode assumir outras faces.
A pobreza absoluta, a fome, as doenças, o medo, o desespero levam à prostituição desenfreada, à delação, ao comércio ilícito, tudo alimentado pela força de libertação americana. A situação é chamada de a peste.
Ao percorrer as ruas de Nápoles em companhia do Coronel Jack, americano do exército de ocupação, Malaparte se depara com a absoluta dissolução dos valores: mulheres negociando crianças, vendendo o corpo e tudo o que pode ser mercantilizado. Homens agindo na mesma forma. Antros onde tudo isso ocorre proliferam pela ancestral e bela cidade italiana.
Vemos ainda a decadência da juventude, a humilhação pela qual passam os ditos libertados. O contraente entre plebe e nobreza também é evidenciado neste livro necessário, cuja linguagem é melancólica e irônica.
A chegada à Roma e Florença também é descrita de forma intensa e, embora crua, poética.
Há diversos episódios dos quais não conseguimos nos decidir por sua veracidade. Todavia, isso é resolvido pela fala de Jack: Não há qualquer importância, disse Jack, se o que Malaparte conta é verdadeiro ou falso. A questão a ser posta é bem outra: se o que ele faz é arte ou não.
Kurt Erich Suckert, mais conhecido pelo pseudônimo Curzio Malaparte (Prato, 9 de junho de 1898 19 de julho de 1957) foi um escritor, jornalista, dramaturgo, cineasta, militar e diplomata italiano. O sobrenome de seu pseudônimo (por si usado desde 1925), significa em italiano "parte má", sendo um trocadilho com o nome de família de Napoleão Bonaparte - que significa, em italiano, "parte boa".