Nada Acontece -

    Carina Gonçalves

    Editora Urutau
    2018
    70 páginas
    2h 20m
    ISBN-13: 9788571050389
    Português Brasileiro

    Começo a escrever essa orelha dentro do trem, termino essa orelha dentro de casa. No passeio de alguns dias, leio o livro de Carina Gonçalves como o enxergo: em trânsito. Passo pelas horas com suas frases ecoando em minha cabeça e me cobrando devagar, como em um de seus poemas, porque há prazos (sempre eles), as coisas por fazer e deslizo assim com o livro, com essa orelha ecoando em pequenas frases. O nada acontece e de repente me choco com os primeiros versos que atravessam o marasmo da vida, “os figurantes das minhas férias/ se repetem por erro/ de continuidade ou por baixo/ orçamento ou apenas para/ me mostrar o quão pequena/ é a cidade”. Olho ao redor e, agora, depois de acontecer o choque, penso nos figurantes da vida, na pequenez das cidades, no erro de continuidade. E sigo carregando comigo o livro da Carina Gonçalves, sempre em trânsito, e enquanto o nada acontece, já dentro de casa, escolho uma trilha sonora e me lembro dos risos contidos de frente para os figurantes do trem. O chacoalhar do dia acontece e cá estou olhando para as páginas impressas em minha mão e pensando em tirar uma foto, quem sabe mandar esse poema para alguém, criar uma nova espécie de trânsito. Melhor, vou comentar com a Carina, não, vou fazer uma propaganda, pagar alguns anúncios, isso sim deveria ser uma orelha. Tudo porque mais um verso vem e confesso que precisei pesquisar quem seria sua Sylvia, quem é Chay Suede? E agora quem sou eu de frente para esse nada que Carina coloca em cima da mesa e “passa o guardanapo?”, no maior estilo panis et circenses. Estamos tão ocupados e Carina ali, registrando, ela é uma mulher e seu caderno e seus talheres e sua bicicleta. Os objetos atravessam nosso olhar através das palavras de Carina. Enquanto ela registra, me lembro de Virginia Woolf: “sentindo na imaginação a pressão da mudez, o acúmulo da vida sem registro” e logo em seguida me lembro de que esse mergulho nos versos que leio são para esta orelha, essa mesma que vai ouvir e falar sobre todos os tilintares que Carina registra (ainda bem) nesse livro que você tem nas mãos agora, querida pessoa que ainda lê orelhas em livrarias (ainda bem). Chego até aqui para dizer que tudo o que você precisa saber, no fim das contas, é que o aviso está gravado no título deste livro. É preciso atenção, eu mesma não me dei conta. Carina avisa, mas no vício da linguagem, acreditei mesmo que nada iria se passar aqui. Mas o nada acontece em privadas japonesas, em cimento e ardósia, em calças furadas, no asfalto, na sala, no deserto e, muito provavelmente, em você também. Estela Rosa

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    Alexandre Kovacs16/03/2019Resenhou um livro
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    Carina S. Gonçalves - Nada Acontece

    Nada Acontece - Editora Urutau - 70 Páginas - Lançamento: 01/12/2018. Tem vezes que nada acontece na minha vida e aposto como é assim também com você, caro leitor. Nem sempre os nossos dias são feitos de grandes vitórias ou mesmo estrondosas derrotas, guinadas do destino ou epifanias surpreendentes. Para dizer a verdade, quase nunca é assim, na maior parte do tempo permanecemos encalhados em atividades repetitivas, lutando contra prazos ou postergando decisões. Contudo, quem sabe a vida aconteça justamente em torno desse vazio, nas miudezas do cotidiano, enquanto estamos distraídos sonhando com entrevistas imaginárias que daremos quando, finalmente, publicarmos aquele livro importante e genial que escreveremos em algum outro dia, quando não estivermos tão ocupados. Nada Acontece é uma coletânea de poemas que estavam escondidos nos locais menos prováveis: na calça com um furo na bunda, no buraco da parede ou no cachorro vira-lata, sozinho na rua. Cuidado leitor, a poesia de Carina Gonçalves parece simples, mas isso porque é feita de silêncios e sugestões, sempre com um humor sutil que se transforma em refinada ironia. Um livro para ler com atenção, sentir e pensar. O almoço, por exemplo, atividade tão banalizada é representada no poema por ações não exercidas por pessoas, mas sim por objetos que desaparecem aos poucos, ficando apenas a música dos verbos, quem nunca vivenciou uma cena assim, comum como é toda família. Concerto para almoço ordinário de família ordinária 4'33'' o telejornal chia garfo tilinta no prato de porcelana boca assopra jarra enche o copo suco de laranja desce pela garganta copo vazio toca a mesa tosse passa o guardanapo? faca serra o pão faca serra o pernil garfo tilinta no prato suco desce pela garganta copo metade vazio toca a mesa saleiro chacoalha arroz cru e sal colherinha de alumínio topa o vidro do copo cheio de suco pra que tanto açúcar? cadeira arranha o chão de porcelanato suco desce pela garganta garfo tilinta faca serra cadeira arranha o chão suco desce copo enche colherinha topa cadeira arranha tosse arranha desce tilinta serra chacoalha arranha desce enche topa arranha tosse chia Na imaginação da poeta, até mesmo aquela desagradável e involuntária baba que escorre de nossa boca enquanto dormimos (e nada acontece) pode virar matéria-prima para mais um poema. É interessante como, mesmo com versos curtos, existe sempre uma propriedade narrativa e visual nos textos, uma característica do trabalho em prosa, aqui a serviço da poesia. reserva mineral o mundo se acaba e eu deitada babando de bruços de pernas de braços esticados de olhos semiabertos em cima do globo à deriva minha baba desenha uma ilha O meu poema preferido é o que empresta o título ao livro e onde, definitivamente, o teor narrativo domina a construção, quase um texto em prosa; e algo terrível acontece, ou não? Nada é que parece neste livro, ele nos surpreende com lindas divagações: "tudo é novidade / em um cão / que não tem raça" ou "não há nada / mais fictício do que / nomes reais". nada acontece você tem um plano sair do trabalho pegar o ônibus o tempo cronometrado chegar em casa alimentar sua cachorra passear com ela estar no aniversário às oito vai dar certo no caminho você pensa o quanto a sua vida é ordinária nada acontece e fantasia um dia dar entrevistas como escritora chega até a imaginar as perguntas como as de política vai dizer para o apresentador que pergunta reducionista! e que você é sempre a favor das minorias o ônibus está a dois pontos antes do final o seu destino e você pensa em escrever uma epifania se desanima porque nunca vai conseguir tem raiva de si por ter achado que um dia seria poeta desce do ônibus o mesmo trajeto passa na frente do bar atravessa a rua a intuição suspeita em cima da hora que é um assalto um rapaz de boné puxa sua bolsa e pela primeira vez você vê uma arma apontada para si fecha os olhos como em um carro caindo de um penhasco para não morrer com os olhos abertos e sente a bala nas suas costas perfurando o poste de luz o muro de concreto as colagens na parede os vasos de suculenta as fotos imantadas na geladeira você volta para casa abraça a cachorra que espera ser alimentada só existem você e aquele animal que também chora sufocado pelos seus braços você escreve para ver se passa nada acontece Carina Gonçalves nasceu e vive em Belo Horizonte. É formada em Publicidade e Propaganda, pós-graduada em Processos da Imagem e da Palavra na PUC-MG. Trabalha como redatora free-lancer e ministra oficinas de escrita criativa. É coautora (com Luciana Santos Gonçalves) do livro Seu Vicente não existe, publicado pelo selo Leme, em 2017. Este é seu livro de estreia na poesia, lançado no final de 2018 pela Editora Urutau.

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