Goldenberg destaca, por diversos momentos da obra, que o estabelecimento dos seminários lacanianos feito por Miller não é uma transcrição fidedigna do que Lacan disse, mas uma interpretação que produziu outro sentido ao ensino do psicanalista francês. Não se trata de condenar o genro de Lacan por essa tarefa, mas de criticá-lo por não explicitar que não se tratava de elucidar Lacan, mas de criar um outro Lacan. Ou seja, o problema está em pensarmos ler Lacan, quando, na verdade, estamos lendo Miller.
Desler Lacan é um trabalho de produção de um outro sentido do que foi estabelecido no campo lacaniano. Isso não é uma tarefa fácil, já que questionar as fórmulas cristalizadas do campo é quase uma blasfêmia. Goldenberg consegue fazer isso de maneira rigorosa, mesmo usando um estilo de escrita um pouco adolescente.
O autor entende que o estabelecimento de Miller criou uma tradição empirista no campo lacaniano, o que seria o avesso do intento de Lacan. Goldenberg também contrapõe o entendimento de que Lacan seria um freudiano, apenas um sucessor fiel do projeto do psicanalista vienense.
Além disso, o autor argentino entende que o afã empirista do campo produziu o entendimento de que uma análise produz um analista. Ou seja, a formação do analista dependeria quase que exclusivamente da análise pessoal; sendo assim, o estudo teórico fica em segundo plano. Como contraponto a esse entendimento corrente, Goldenberg é decisivo ao dizer que uma análise não garante a formação do analista, ou seja, a formação do analista não passa por uma prática intuitiva, mas por uma teoria consistente. Encontramos aqui uma boa justificativa para o motivo de Lacan insistir tanto nos matemas. Não se tratava de construir fórmulas matemáticas psicanalíticas, mas de encontrar um rigor formal para a transmissão. Esse é outro ponto de ruptura entre Freud e Lacan.
Por entender que o projeto lacaniano fracassou e os analistas lacanianos ainda estarem presos ao paradigma teórico-epistemológico freudiano, o campo lacaniano trabalha muito pouco com a topologia, o significante, os matemas. Quando são trabalhados, servem apenas para adornar alguma fala que tem como fundamento a intuição empirista freudiana.
As críticas do autor sobre o conceito de gênero e sobre o feminismo são confusas e decepcionantes; por vezes, bastante sexistas e preconceituosas. Ele basicamente reduz todo movimento feminista ao feminismo radical - que de fato merece ser criticado, já que é extremamente transfóbico. Segundo ele, o conceito de gênero é uma categoria cretina, no entanto não explicita o porquê.