Nenhuma palavra inútil
Meditações cheias de beleza de quem construiu um império dentro de si. A pena almada de um grande escritor. Todas as anedotas são cheias de ternura. Como a dos beduínos que viram, pela primeira vez, uma cachoeira e ficaram a esperar a água acabar de cair. Ou a do piloto Guillaumet perdido nos Andes que achou forças para se erguer da neve quando lembrou que a esposa não receberia o seguro de vida de um “ausente”, era preciso que ao menos encontrassem o seu corpo. “Velho burocrata, meu companheiro aqui presente, ninguém nunca fez com que te evadisses, e não és responsável por isso. Construíste tua paz tapando com cimento, como fazem as térmitas, todas as saídas para a luz. Ficaste enroscado em tua segurança burguesa, em tuas rotinas, nos ritos sufocantes de tua vida provinciana; ergueste essa humilde proteção contra os ventos, e as marés, e as estrelas. Não queres te inquietar com os grandes problemas e fizeste um grande esforço para esquecer a tua condição de homem. Não és o habitante de um planeta errante e não lanças perguntas sem solução: és um pequeno-burguês de Toulouse. Ninguem te sacudiu pelos ombros quando ainda era tempo. Agora a argila de que és feito já secou, e endureceu, e nada mais poderá despertar em ti o músico adormecido, ou o poeta, ou o astrônomo que talvez te habitassem”.

