Um corpo divisível -

    Paulo Abe

    Editora Penalux
    2019
    106 páginas
    3h 32m
    ISBN-13: 9788558335188
    Português Brasileiro

    Resenha: A dupla linguagem do literário em Um corpo divisível, de Paulo Abe Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ) No livro de contos Um corpo divisível, de Paulo Abe (Penalux, 2019), encontramos a temática dos irmãos gêmeos que se densifica na própria relação ambígua do literário, que ora aponta para o real, como seu duplo, o ficcional. O processo de geminação da escrita desdobra cada conto como duplo de outro conto a se espiralar barrocamente até o infinito, fazendo-nos lembrar da biblioteca infinita de Jorge Luís Borges. Paulo Abe diz: “Esta história está entre a ficção e a biografia; a ilusão e a realidade. Tal encontro se poderia chamar de um estudo dicotômico, um paradoxo que em seu pendular interno procura contradizer-se”. A escolha da simbologia dos gêmeos aponta para uma metáfora. Os irmãos, Paulo e Marcos, são a metáfora mesma da tessitura do texto literário que reúne a ambiguidade de sentidos. O narrador principal Paulo, o irmão gêmeo mais velho e que é o mesmo nome do autor nos revela os matizes que quebram as fronteiras entre o real e seu duplo, a literariedade. Numa estruturação antinatural, indo da velhice dos gêmeos à sua infância até desembocar no final no útero da mãe, o livro nos aponta para uma involução e gradação decrescente inusitadas. Num retorno à origem, Paulo Abe, consegue de forma impressionante, partir da morte ao nascimento, do caos à ordem placentária que direciona os dois seres à união e desunião dos sentidos e afetos. A “irmandade” é quebrada pelas diferenças, em que ambos se separam justamente pela negação do uno para se atingir o dual ou o múltiplo. O livro é regido pelos esquemas das analogias e semelhanças. É como se cada conto desencadeasse o posterior num desdobramento das vírgulas às reticências e reentrâncias da escrita. O espelho, símbolo mesmo desta duplicidade reflete-se no final numa casa de vidro, um labirinto, em que perder-se é ganhar sua verdadeira identidade e o processo de individuação. Se Dionísio é o Caos, Apolo, por outro lado, os leva à separação e ordenação dos mundos individuais, levando-os à conscientização do ego. Retiram-se as máscaras e o que resta são as verdadeiras personas em todo o seu teor simbólico e inaugural. Uma realidade vista pela primeira vez é esboçada e contorna os rostos idênticos das palavras que ganham diferenciações múltiplas a partir do jogo metafórico com que Paulo Abe descortina a realidade. Além desse processo genial de nos revelar a ambivalência do literário, o narrador vai explicando as razões da narrativa, seu constructo literário, numa conversa inventiva com seu “caro leitor”. Cada conto é irmão gêmeo do anterior com suas diferenciações e desarticulações. A escrita revela seus duplos. Com a lei da repetição e da diferença com ritmo e, ao mesmo tempo, com desarticulação. Os contos se encaixam tão profundamente como se fossem um romance, com seus prolongamentos e distinções. E, ao mesmo tempo, o livro se estrutura como a vida deles, a experiência. Como dizia o pré-socrático Heráclito, temos uma “harmonia dos contrários”, pois o que é duplo se divide e se soma ao mesmo tempo, produzindo-se, assim, suas fagulhas de introspecção e extrospecção. O importante no livro é descobrir a identidade de cada um em meio ao mosaico de coisas unas. O mundo dos sonhos e da realidade se cinde e se reúne num mesmo respiro. O que ocorre nos sonhos do narrador-personagem se reflete no real, fundindo as camadas opostas num mesmo vislumbre. Nesse duplo, novamente, temos as imagens do ficcional e do factual num trabalho de autoficcção perfeito. A morte e a vida se conjugam. Aniquilar o ego é fugir deste estigma de ser irmão gêmeo? O um é separado. O que era unido se separa, se cinde, formando “um corpo divisível”, como o próprio título do livro aponta. Fugindo da lógica matemática, o narrador-personagem procura um momento de imprecisão. Aquilo que possa ferir a racionalidade de morte súbita como num relâmpago. Eles são, ao mesmo tempo, inteiros e metades, o individual e a outridade, fora da matematização do universo, eis o paradoxo. A estrutura da narrativa é mesmo um paradoxo, uma anomalia, pois hibridiza polaridades, sendo um romance-conto. Os irmãos trocam de papéis, usando máscaras dramáticas, sendo que o narrador-personagem utiliza-se do lugar de fala de seu irmão gêmeo Marcos e até de seu pai, ao falar do nascimento. Paulo se põe no lugar de Marcos, de seu pai e até de irmãs gêmeas que polarizam com os dois, Paulo e Marcos. Se a escrita de Paulo Abe se reutiliza de outros elementos anteriores, a invenção do novo aparece a partir da utilização de neologismos. Essa estrutura narrativa geminada revela a indistinção dos dois irmãos, pois uma das amigas de um deles diz: “Você é você ou você é seu irmão”. Outros duplos comparecem nas suas belíssimas histórias que têm um encanto todo novo. O nós, o maior e o duplo recorrem ao eu, ao menor e o único. As geminações vão se ampliando, outros eus, outros duplos. E a crítica à família nos mostra os tentáculos com que ela os cobre para que seus filhos sejam extensões de outros seres, os pais. Aí temos uma camada da violência familiar que acomete tantos gêmeos nas histórias, como as irmãs em que a família quer que sejam cantoras. A duplicidade aqui também se faz presente, mas aqui, com seu viés perverso. Nesses dez contos de Paulo Abe, encontramos num deles, uma singularidade e uma diferença. O quinto conto se chama “O corpo divisível”, distinguindo-se pelo artigo, do título do livro. Enquanto o título representa a indefinição, o conto representa a definição através de um artigo definido. Esses matizes nos fazem pensar sobre a ambiguidade desse corpo divisível, que ora aponta para a indistinção caótica, ora nos mostra a busca de uma identidade, uma divisão sensata em meio à massa indistinta da realidade. Paulo Abe se distingue e se confunde com seu irmão e ambos morrem na aurora latente dos sentidos. Além das analogias já apontadas, no quinto conto, Paulo Abe nos apresenta analogias em conhecimentos marcadamente distintos em nossa sociedade, geminando-os, a ciência e a religião. Essas semelhanças ao longo do livro são fantásticas, mostrando que há pontes entre desníveis de áreas diferenciadas, mas que pela nudez do literário, retiram suas máscaras. O narrador-personagem mostra um anel, um círculo, com seu fim e início, mas os rasgam a partir do símbolo do infinito que aponta para várias direções. O oito deitado representa dois círculos que expandem o círculo inicial para algo em sua amplidão e descomedimento. O pensador Clément Rosset no seu livro O real e seu duplo, já nos apontava esta duplicidade na vida dos homens, que segundo Diderot, caracterizaria o ator em cena: “vir a ser todos sem ser ninguém”. Tomando o lugar do outro, Paulo quer se expandir através do literário, querendo ultrapassar a geminação e atingir sua própria individualidade. Nas variações de um mesmo tema, Paulo Abe encontra seus duplos linguísticos. A troca de identidades, a fala do outro, é um processo narrativo de ficcionalização do ser. Buscando os significados dos gêmeos na mitologia, temos as figuras de Castor e Pólux, que segundo Macaulay em seus “Cantos da Roma Antiga”: “Tão semelhantes eram, que os mortais/Um do outro jamais distinguiriam”. E no Dicionário de símbolos, Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, assim mencionam sobre o verbete “gêmeos”: “Quando eles simbolizam, assim, as oposições internas do homem e o combate que ele tem de travar para superá-las, revestem significado sacrifical: a necessidade de uma abnegação, da destruição ou da submissão, do abandono de uma parte de si mesma, para o triunfo da outra”. Portanto, este livro de contos excepcional de Paulo Abe encontra a medida certa para falar dos paradoxos da vida e da linguagem. Permeado pelos encontros e desencontros, atração e repulsão, silêncio e palavra, esquecimento e memória, o livro vem enfatizar a ambiguidade do literário que se espelha na metáfora dos “gêmeos”. Uma obra envolvente que vem falar da experiência de vida desses seres tão especiais que conquistam sua individuação pela ambiguidade da escrita que não quer se calar. O silêncio em sua selvageria encontra a palavra, essa reflete o real que não fracassa perante sua captura no texto escrito que nos mostra o poder de diversificar as formas através de um mesmo conteúdo. Que seu livro conquiste cada vez mais leitores. E que eles busquem a força da palavra enigmática de Paulo Abe.

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    BIANCA LUZ21/08/2019Resenhou um livro
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    Original!

    Eu amo livro de contos. ? ? Dito isso, preciso dizer que, ao me deparar com a sinopse do livro, achei que se tratava de um livro apenas filosófico. Qual foi a minha surpresa ao constatar que a obra de Paulo traz ao leitor repletos contos de autoficcção. E o que seria autoficcção? Autofficção combina dois estilos: a de autobiografia e ficção. Um autor pode decidir contar sua vida na terceira pessoa, para modificar os detalhes significativos ou "personagens", utilizando a ficção a serviço de uma busca por auto. Bom, voltando à obra, Paulo nos traz contos originalíssimos. Primeiro, por se tratar de uma biografia, e, segundo, pela temática de cada conto narrado: a experiência de possuir um duplo, ou seja, um irmão gêmeo. Além disso, podemos refletir em temas sobre convivência familiar, relação abusiva entre pais e filhos, a morte, o sentido da individualidade. Eu nunca havia lido nada igual. Achei as histórias interessantes e maravilhosamente escritas. No livro, podemos entender um pouco mais da vida de uma pessoa que possui um gêmeo, seu prós e contras, suas dificuldades e fatos em comum. O autor combina suas histórias com uma narrativa filosófica, porém de fácil entendimento, o que me agradou muito. Não é daqueles livros que a gente lê e não entende. Ao final de alguns contos, fiquei extasiada e pensando por horas. É um livro curto, possível de ler em poucas horas. Me envolvi tanto com a escrita que não conseguia largar o livro. Por fim, ressalto que essa obra é originalíssima e envolvente, e traz ao leitor muitas reflexões. ? ? Indico para todos que curtem contos inteligentes. Instagram: @luz.literaria

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