Quando refletimos sobre o período posterior à ditadura militar, tendemos a reforçar a ausência da implantação de políticas de memória por parte do Estado brasileiro.
A artista Giselle Beiguelman, embora não tome exatamente esse período histórico como objeto de análise, inverte a célebre questão: há uma ausência de políticas de memória ou temos políticas deliberadas de esquecimento?
À primeira vista, tal inversão pode parecer um simples detalhe. No entanto, quando buscamos compreender a história brasileira recente a partir dessa chave de leitura, a diferença é enorme. As políticas de apagamento do passado e, portanto, a criação de amnésias estão intrinsecamente ligadas à história brasileira, o que acaba permitindo - além da invenção de passados idílicos que nunca aconteceram - escaparmos de enfrentar nossos traumas e frustrações.
No caso específico da ditadura militar, já está bastante claro que a transição para nossa ainda frágil democracia foi extremamente controlada pelos militares, que atuaram energicamente para manter seus próprios privilégios e - ainda mais grave - para evitar que fossem punidos pelos crimes que cometeram ao longo do regime de exceção. Toda essa dinâmica, sem dúvida, foi feita com base na institucionalização de políticas de esquecimento, cujo exemplo mais notório é a inescrupulosa Lei de Anistia de 1979.