Eu fiz 28 marcações em passagens fortes desse livro, e queria traduzir todas aqui, quem sabe para servir de incentivo às pessoas que pretendem ler esse livro. Mas o objetivo aqui é exprimir os meus pensamentos, apesar de eles quase sempre ecoarem os da autora.
Comecemos pelo começo: Without You There's no Us (sem tradução para o Brasil) é um compilado de relatos escrito pela jornalista e professora Suki Kim. Suki nasceu em Seul mas sua família emigrou cedo para os EUA, passando a viver em Nova York. Desde cedo a história de seu país de origem a fascina: o período em que passaram sob domínio do Império Japonês, e a posterior divisão do país em duas Coreias, uma sob forte influência ocidental e outra incentivada pela URSS. Suki nos conta a história de sua mãe logo no começo do livro, nos explicando como ela junto com sua avó e seus tios fugiram para o sul do país quando a divisão foi imposta. Esse grande êxodo da população para o sul é um triste marco da história coreana, e Suki revela que um de seus tios ficou para trás na fuga, permanecendo preso na Coréia do Norte e sem poder contatar sua família. Suki imagina se seu tio ainda está vivo hoje e estabelece um grande interesse em saber como é a vida das pessoas acima do paralelo 38.
Em 2002 a autora viaja ao país pela primeira vez, como jornalista, para cobrir as festividades de aniversário do ditador Kim Jong-il, e posteriormente em 2008, em uma apresentação da Orquestra Filarmônica de Nova York em Pyongyang. Em ambos momentos Suki nos relata a tensão que existia no ar entre os estrangeiros que pisavam aquele país, tão fechado ao mundo, e sua curiosidade só aumentava. Finalmente em 2011 ela consegue o "disfarce" perfeito para ficar na Coreia do Norte por um bom tempo e ter uma visão única de seu povo. Uma sociedade evangélica dona de uma universidade na china, que pretendia abrir um campus em Pyongyang estava contratando professores.
O objetivo do grupo é introduzir a religião evangélica na sociedade norte-coreana de maneira sutil, começando por fornecer-lhes um espaço em que os filhos da elite estudariam, totalmente custeado pelos fiéis. Um grupo de professores missionários seria designado para ministrar as aulas de maneira voluntária e tudo seria arranjado como uma grande caridade da Igreja evangélica, apesar de eles não declararem isso abertamente pois religiões são um tabu na DPRK. O objetivo a longo prazo, é claro, era converter pessoas. Suki, apesar de não ser cristã logo aplica para uma vaga de professora de inglês, que só lhe seria concedida um ano depois, em 2012. Curiosamente nas entrevistas, ninguém lhe pergunta sobre suas crenças e o processo todo parece um tanto peculiar para Suki, que logo aprende as regras que comandariam sua vida pelos próximos meses: Ela deveria levar dinheiro, pois turistas frequentam ambientes separados dos locais, como mercados e hospitais. Seus pertences seriam vistoriados, a qualquer momento, inclusive seu computador. Toda a comunicação com o exterior e entre colegas seria observada e qualquer atitude suspeita poderia levar a deportação. É proibido sair do campus sem ser em uma visita turística em grupo ou em uma incursão semanal ao mercado. É proibido fazer referência à vida fora da Coreia do Norte além do estritamente necessário para o aprendizado de Inglês dos alunos.
Suki chega a Pyongyang, dessa vez para morar temporariamente, já neurótica com essas regras. Tudo o que ela falasse ou fizesse poderia ser usado contra ela e tal nível de vigilância a assustava. Porém não tanto quanto a motivação por trás dessas restrições: a alienação de um país inteiro. Suki sabia que a mentalidade da sociedade em que estava sendo inserida seria problemática, mas o que vive com seus alunos na PUST (Pyongyang University of Science and Technology) a surpreende em vários aspectos.
A PUST é uma universidade criada para meninos filhos das famílias mais poderosas, influentes e devotas ao partido do regime de Pyongyang. Esses garotos passariam o ano inteiro presos ao campus, toda a comunicação com suas famílias e amigos seria vetada, assim como saídas presenciais. O conhecimento tem um preço, afinal. Suki percebe em suas primeiras aulas o privilégio que seus alunos tinham: a maioria dos meninos de suas idades estavam suando em campos de trabalho forçado para "construir uma nação próspera e poderosa", enquanto a crème de la crème da juventude de Pyongyang estudava em turno integral (apesar de todos os dias eles fazerem trabalhos manuais como cortar a grama, limpar os prédios e manutenções em geral). Todos eram muito educados e cordiais, sempre atentos às aulas e dispostos a aprender inglês. O motivo parece irônico, já que não tinham a possibilidade de sair do país para usar o novo idioma...
Além da sala de aula Suki conversava com os meninos no refeitório durante as refeições: eles se revezavam para praticar seu inglês com ela. Uma das primeiras coisas que ela nota e que se repete ao longo do livro é a forma como eles defendem a DPRK e a exaltam a qualquer custo e em qualquer contexto. Isso vale para o ditador também. Várias vezes eles comparavam seus parques ou construções como sendo os maiores ou melhores do mundo, apesar de não saberem como é o mundo fora da DPRK. Suki escreve essa obsessão como sendo um tanto infantil, aos poucos palavras como "maior" e "melhor" foram perdendo o sentido.
A organização social "coletivista" do país estava entranhada na forma de pensar dos alunos: atividades que envolviam competição, como quizzes não davam muito certo porque times oponentes se ajudavam. O pronome "meu" os deixava confusos, já que sempre falavam "nossa Pyongyang" ou "nossa Coréia do Norte". O horário de atendimento individual foi mal visto no início pois implicava que quem comparecesse estava indo mal e precisava de reforço (e eles não queriam decepcionar seus pais ou seu país) - os alunos passaram a ir somente quando Suki lhes falou que era obrigatório.
Uma das coisas que mais chama a atenção é a tendência que os alunos tinham em mentir ou fingir que conheciam algum aspecto sobre o mundo exterior. Por exemplo, em uma aula quando perguntados se sabiam o que era esquiar, todos concordaram mas ficaram confusos quando souberam que podia-se esquiar em NY em lugares fechados. Ou em outros casos, os alunos falavam que tinham recusado ofertas para estudar no Japão ou na China por amarem a DPRK, apesar de Suki saber que tais bolsas não existiam e que eles não tinham essa possibilidade. Em determinado momento um aluno afirmou que "o lado ruim de perder o torneio de quiz era que eles haviam sido pegos trapaceando, e se soubessem teriam escondido melhor". Será que ninguém os havia ensinado que mentir é ruim? Ou como distinguir certo de errado?
Todos esses momentos de incredulidade eram balanceados por outros em que Suki e os alunos conversavam alegremente e eles lhe contavam sobre suas vidas, tornando-a sua amiga. Essa dualidade na relação deles logo começou a pesar para a professora: ela não podia confiar no que eles diziam, e corria o risco de ser delatada se falasse demais, mas ainda assim, gostava muito deles.
"Eu olhei para aqueles rostos travessos e senti tanto carinho por eles, me tornei sua confidente momentânea sobre fofocas de garotas e parabenizei um aluno encantador por seu 20º aniversário. Me senti realizada e relaxada, até meus olhos notarem os broches brilhantes em seus peitos. A eternamente presente face de seu Presidente Eterno, lá perto dos seus corações, marcando território"
Suki jogava pistas e referências do mundo exterior sempre que podia, como andar com seu MacBook e seu Kindle o tempo todo, despertando interesse dos alunos. Ela fora orientada a não revelar sobre internet e tecnologias estrangeiras (o que é bem irônico, já que seus alunos eram bacharéis em ciência e tecnologia) mas conforme foi ganhando confiança dos alunos, revelava mais sobre imprensa livre, empregos, democracia, figuras importantes e seus trabalhos... Entretanto isso a deixava em um dilema:
"Seria isso realmente prudente? Despertar meus alunos para o que não estivesse no programa selecionado pelo regime poderia significar a morte para eles e para quem amavam. Se eles acordassem e percebessem que o mundo exterior não estava de fato, ruindo, que era o país deles que corria risco de entrar em colapso e que tudo o que lhes foi ensinado sobre o Grande Líder era besteira, isso os faria felizes? Como eles viveriam então? Acordar é um luxo disponível apenas para quem vive em um mundo livre"
Eventualmente o grupo de professores fazia algumas visitas turísticas acompanhados pelos mediadores. Suki escreve que sempre tinha a impressão de que os lugares eram meio cenográficos e os discursos dados pelos guias sempre versavam "a grande generosidade do nosso Presidente". Apesar de ser estrangeira, Suki foi convidada para dois grandes eventos promovidos pelo partido, nos quais observou a maneira agressiva com que o idioma coreano era usado ao se tratar de americanos, usando até mesmo palavrões em discursos oficiais. Assistindo a uma performance de música, ela escreve:
"Enquanto escutávamos, se tornava claro que o objetivo daquela caçada era cortar as cabeças dos "Yankee nom", o que mais ou menos significa "Yankee desgraçado". O refrão repetia várias vezes "caçar noms americanos". A palavra que os cantores usavam para as cabeças dos americanos não era mauri, mas daegari, que é usada apenas para se referir a animais".
Além de refletir sobre o papel do regime na maneira de pensar do povo norte-coreano, Suki escreve sobre a crença de seus colegas evangélicos: tão fiéis que estiveram dispostos a ir tão longe para "evangelizar" a DPRK. Ela por vezes se sentia acuada pelos dois lados: pelo regime ditatorial em que vivia e por sua equipe religiosa, que pensava de maneira bem diferente que ela. Sua única companhia para não surtar eram os alunos.
"Rachel achava os alunos estranhamente crédulos, porém era ela que vagava pela vala ao redor do dormitório procurando pelo lugar em que o sino sagrado da primeira igreja de Pyongyang teria sido "acidentalmente" descoberto no campus da PUST. Nós acreditamos no que queremos acreditar. Se essas pobres pessoas querem tão desesperadamente apegar-se ao mito de que seu Grande Líder era o herdeiro legítimo ao Dangun, quem poderia culpá-los? A culpa realmente recai sobre aqueles que perpetuam essas histórias para controlar as massas"
Por um breve período Suki volta a NY para as férias, decidindo se voltaria ou não para lecionar no semestre de outono. Ela descreve esse tempo como extremamente confuso, já que subitamente ela tinha toda a liberdade do mundo mas sentia que deveria voltar. E assim o faz, ensinando Inglês por mais seis meses para aquele público que era tão estranho quanto era familiar. Nos últimos dias, Suki já se sentia mais livre para tentar fazer seus alunos pensarem por si mesmos. Nas refeições trazia à tona tópicos mais ousados da vida ocidental até que eles inevitavelmente percebessem o quanto eram deixados de lado das coisas boas do mundo. Frequentemente Suki ouvia declarações meio absurdas deles tentando defender seu país, como quando um aluno ao ouvir techno pela primeira vez afirmou que "a música tem uma batida parecida com uma velha música nossa sobre o Grande Líder, então estamos mais adiantados que os americanos".
Algumas das partes que mais me chamaram atenção foram as que a autora relata como foi ensinar redação para aqueles jovens. A própria estrutura de uma redação - com introdução, desenvolvimento incluindo argumentos e conclusão - era estranha. Ninguém precisava confirmar informações naquela sociedade, pois o regime as fornecia e bastava acreditar.
"Eu enfatizava a importância das redações, já que como cientistas, eles algum dia teriam que escrever artigos provando suas teorias. Mas na realidade, nada era realmente provado no mundo deles: tudo era feito seguindo os caprichos do Grande Líder. Suas habilidades de escrita eram tão atrofiadas quanto suas habilidades de pesquisa. Escrever consistia inevitavelmente em uma repetição dos feitos do Grande Líder, nenhum dos quais era verificado, já que eles não sabiam o conceito de comprovar seus argumentos com evidências"
"Os alunos pareciam gostar de computadores. Eles não os usavam para digitar suas redações, uma vez que não sabiam como datilografar e como não havia impressora, digitar era inútil de qualquer forma. Basicamente eles usavam os dicionários virtuais, embora os achassem difíceis e preferissem os dicionários coreanos. A visão dos melhores alunos de ciência e tecnologia do país encarando inexpressivamente os monitores era tão patética que eu subitamente sentia um mix de raiva e tristeza e tinha que sair da sala"
Os momentos mais emocionantes do livro ficam para o final, quando Suki lhes dá a tarefa de escreverem uma carta para qualquer pessoa que desejassem e muitos pela primeira vez deixam de mencionar os feitos do Grande Líder e revelam sentimentos como saudades de casa e dos amigos, confidenciam relacionamentos antigos a ela e falam como a rotina era tediosa no campus. Culpam eles mesmos por não entrarem em contato, quando na verdade era a PUST que não os deixava. Suki reflete que em grupo suas vozes de soldado entoavam lemas e canções patrióticas, enquanto naquelas cartas privadas o que eles realmente sentiam - solidão, saudade e tédio predominavam.
Vou finalizar essa já gigantesca resenha com uma das passagens mais interessantes para mim:
"Em novembro eu já estava corajosa e verdadeira, então contei a eles o número de países que já havia visitado, como as cidades europeias eram lindas e como eu gostaria que eles tivessem a chance de ver o mundo. [...] Após uma pausa um aluno me perguntou "E a nossa cidade, você a acha bonita?" A pergunta me fez pensar. Eu não achava Pyongyang bonita. Era monótona, desoladora, repleta de prédios de concreto e pessoas vestidas com trapos que pareciam morrer de fome. Mas não eram os atributos físicos de Pyongyang que me pareciam tão feios. Era o que eles representavam. Era a cidade mais horrível do mundo para mim, e toda vez que eu a olhava no horizonte pela janela da van eu me sentia desanimada. Pyongyang era a Xanadu da Coréia do Norte - a cidade que o país todo era escravizado para sustentar. Era um monstro ganancioso e egoísta e às vezes eu queria que ela evaporasse. Mas era também a cidade para que provavelmente meu tio foi levado, a cidade com que minha mãe sonhou até sua morte. Era a casa de meus alunos e a esperança para todos os norte-coreanos. Tudo o que queriam era viver lá, onde havia eletricidade, carros e trens e onde civilização poderia ser vista. Sentada em frente aos meus jovens alunos que me olhavam com expectativa esperando que eu dissesse que Pyongyang era de fato, a mais bonita, eu não tive escolha a não ser mentir um pouquinho. Eu disse "Bem, algumas partes". Eu sabia que era uma resposta decepcionante e isso partia meu coração, mas eu não via alternativa. Como sempre um dos alunos logo emendou: "Que tal trocarmos de assunto?""