Quando se trata de escrever sobre um gênio já consagrado, é muito fácil cairmos no "Efeito Matheus" (em sociedade quanto mais se tem, mais lhe será dado; quanto menos se tem, mais lhe será tirado) conceito do sociólogo Robert Merton para explicar a reprodução social, publicando um discurso laudatório que mais nos elogia do que diz sobre o que se deve dizer. Portanto direi duma vez: não achei esses poemas grande coisa.
Michelangelo (1475-1564) produziu entre 250 e 300 poemas durante sua longa vida, e essa antologia é um edição muito bonita, como todos os livros dessa editora, de 50 poemas dele. Não achei grande coisa porque parece-me que faltou musicalidade, melhor, falta ritmo nesses poemas. Mas por não ler em italiano, não sei dizer se é devido à qualidade em si mesma da tradução, à opção do tradutor por um vocabulário do português quinhentista (o português d'Os Lusíadas) para reproduzir o contexto da época ou se é uma característica do estilo do próprio poeta, que se via como Escultor (com maiúscula mesmo) que também pintava, arquitetava, escrevia poemas etc. Como leitor não profissional de poesias arrisco porém a última hipótese: a do poeta e seu estilo (ou falta de).
E como Escultor que era e como se via, é alguém cujo material de trabalho são coisas 'duras' como mármore, ferro, pedra..., ainda que seja para lhes dar forma e leveza, tal 'dureza' é perceptível em muitos dos poemas, como se víssemos uma pessoa rígida de corpo, sem malemolência, dançando em meio a bailarinos profissionais. Às vezes acerta o passo, mas na maior parte do tempo falta-lhe ritmo para alcançar aquela Beleza e Fruição que nós, mortais espectadores, tanto desejamos. Parafraseando um meme famoso: falta 'rusbé!' em sua poesia.