ATENÇÃO: essa resenha possui palavras e enxertos preconceituosos que podem ocasionar em gatilhos tais como racismo, homofobia, psicofobia, gordofobia e outros; caso for sensível, por favor, não leia.
não vou começar essa resenha com o “me indicaram” ou “fiquei curiosa”, porque, sendo bem sincera, não me indicaram e eu também não estava curiosa para ler sobre os livros. mas como nem tudo são flores no país da literatura brasileira, e sempre existe um escritor disposto a dar dor de cabeça para os leitores por nada, aqui estou eu: lendo esse livro para que vocês, que estão lendo minha resenha, não precisem ler (de nada).
confesso que, assim como em outras resenhas minhas, não esperei muito dessa obra em particular porque não achei a sinopse apelativa — pra mim, foi bem clichê, na verdade. houveram tantas coisas que me deixaram desconfortável, e que me incomodaram que, de verdade, sinto que esta será uma das minhas maiores resenhas escritas aqui. sem delongas, vamos do início!
logo no primeiro capítulo, somos apresentados ao max (um dos protagonistas), e, bem, ele precisa passar a imagem do homem alfa, cisgênero, hétero, allosexual, branco e padrão — se morasse no brasil, seria bolsominion junto com todos os outros personagens, certeza —. a autora decide apresentar o max em uma cena de sexo bem explícita que eu, como leitora, não achei bem descrita ou bem feita; pareceu uma grande mistura de frases prontas (como a grande maioria do livro), os personagens são robóticos e sem personalidade alguma. o max, e seus dois irmãos gêmeos, por exemplo, só sabem falar sobre sexo e pau — igualmente a crianças da sétima série que estão atingindo a puberdade, mas eles, no caso, já têm seus 20 e poucos anos. isso, claro, sem falar sobre um trecho que me incomodou bastante que foi a forma como o tj ficou incomodado com a possibilidade do max ser homossexual, algo que ele deixa claro não ser, após dizer “pergunte para sua namorada, porra!”. enfim, desnecessário.
como eu disse, existem inúmeras problemáticas nesse livro, e outra delas é o termo racista “ovelha negra” usado no início do capítulo dois. tipo, sério? a autora fez toda uma comoção no instagram dela sobre como era difícil publicar um livro nacional, mas não se deu o trabalho de pesquisar o básico sobre RESPEITO? difícil é ser LEITOR no brasil, isso sim. difícil é você expor sua opinião sobre algo que você COMPROU, CONSUMIU e ver que a autora está te expondo na conta pessoal dela do instagram porque é “venenosa” e “não se pode dar notas baixas para livros nacionais”. sabe, é exatamente por isso que leitores têm medo de escritores nacionais; por causa dessa síndrome de estrela. Digo e repito: leitor algum é professor ou mãe/pai para pegar em mãozinha de escritor e ensinar as coisinhas, não adianta vir com a desculpa de “sou acessível”. ninguém se importa se você é ou deixa de ser acessível, quem faz correções de texto são revisores, leitores críticos e betas (que existem DE MONTES por aí!). se esconder na desculpa de que “ninguém apoia a literatura nacional” é tão ridículo quanto os quotes cafonas, senão tirados de um livro de coaching, que acabei de ler. eu sempre tentei não me envolver muito em casos assim porque, sinceramente (?) é uma perda de tempo. mas ver que a autora expôs as pessoas que deram notas baixas para o livro e debochou disso como se ela fosse “superior” realmente me irritou MUITO.
novamente, venho aqui dizer que ser escritor é mais do que possuir um plot e juntar algumas frases de efeito; é treino, é dedicação, é trabalho, esse livro é uma junção ruim de belo desastre e after (que já são livros HORRÍVEIS).
e que irmãos são esses aqui? que romantização de toxidade é essa? o tyson é o personagem mais TENEBROSO que já li: é completamente perigoso, e a que custo? fazê-lo explosivo, compreendo, mas um possível agressor? oi? ele literalmente jogou DUAS cadeiras e uma quase pegou na personagem principal; ele ficou SOCANDO a parede até as mãos SANGRAREM; ele QUEBROU uma GARRAFA DE VIDRO NA FRENTE DA KYRA E GRITOU COM ELA -- e não só ele porque TODO mundo nesse livro parece ter um tesão em gritar com essa mulher.
enquanto o traço de personalidade de um gêmeo é ser o "katsuki bakugo" de chernobyl, o do outro irmão é ser um nudista sem graça, controlador e CHATO. eu juro, ty e tj podiam dar as mãos e explodir, nunca fariam diferença na narrativa porque eles não têm NADA. eles só sabem falar sobre garotas, pau e transar, e isso me leva a outro ponto importantíssimo: TODAS as conversas da kyra com os meninos me deixaram absolutamente desconfortável. por quê? simples, eles todos são ESQUISITOS: tocam nela demais, só ficam com segundas intenções, pareceu que só viam a kyra como um objeto e, pior, eram TRIGÊMEOS. além de serem insuportáveis, sem sal, o suco do padrão e do preconceito (não vamos esquecer de todos os comentários desnecessários sobre o corpo da kyra, ou de qualquer outra mulher no decorrer do livro, né?), eram absolutamente IGUAIS na aparência e a personagem principal SÓ sabia ressaltar como OS TRÊS tinham paus enormes, como eram gostosos, como eram mulherengos, como transavam...? e o contexto? e a história? quase 400 páginas sobre alguém ressaltando genitália e masculinidade, e nada de conteúdo? nada de história? o plot é um lixo à parte, nem quero comentar sobre isso; não deixou a desejar porque não tinha NADA pra desejar, quando o único intuito do livro foi esfregar na cara do leitor "trigêmeos gostosos de pau grande" (🙄).
em um certo momento, a kyra comenta que ela “não é como as outras garotas” -- a típica frase clichê de uma personagem que qualquer leitor já sabe que não vai se apegar (ou gostar) -- e, pior ainda, ela diz que, basicamente, não quer que achem ela uma “antisocial louca”... sério? queria saber COMO alguém se propõe a escrever algo sem pesquisar o BÁSICO de RESPEITO porque, assim, sejamos sinceros: representatividade? não tem. não tem personagens de cor, não tem personagens LGBTQIA+, não tem personagens neurodiversos, não tem absolutamente NADA. é uma supremacia branca com os brancos padrões de sempre. um rápido adendo que, como uma pessoa gorda, eu tenho propriedade para falar sobre isso: usar tamanho 42 não significa que você seja gordo. sinto muitíssimo que a sociedade tenha feito com que você refletisse isso em suas personagens, mas o manequim 42 é um tamanho médio e “normal”. e a forma como vários personagens ficaram dando pitaco sobre o corpo da kyra me incomodou MUITO porque, sinceramente? ela é branca, loira, curvilínea. não vou entrar muito a fundo nesse assunto porque me deu vários gatilhos durante a própria leitura e realmente me deixou mal, então vamos para o próximo tópico que é gramática e organização.
o enredo inteiro é uma confusão do início ao fim. eu nunca li algo tão confuso e complicado na minha vida! fiquei completamente perdida várias vezes e nessas várias vezes precisei voltar e ler TUDO de novo, porque as coisas não faziam sentido algum. os parágrafos não têm fluidez, então não são muito gostosos de se ler; contudo, o que piorou ainda mais, foram todas aquelas vírgulas DESNECESSÁRIAS. eram tantas pausas, tantas vírgulas que TUDO ficava fora de contexto e você precisava voltar o parágrafo do início para entender de novo, de novo e de novo. simplesmente terrível. em uma página, era possível contar quantos pontos finais foram usados, o que me assustou bastante, e, outra coisinha, os diálogos também eram, em grande maioria, desnecessários! não acrescentavam em nada: ou era alguma piada ruim, ou algum comentário ofensivo/preconceituoso — senti falta de descrições melhores (?), todas me lembravam muito as da sarah j. maas (a corte de espinhos e rosas), focando sempre em músculo, masculinidade... enfim, foi uma experiência horrível. (não tão ruim quanto heaven, porém ambos estão bem ali, no mesmo nível de livro "péssimo")
como sempre, houveram comentários machistas -- tanto dos personagens masculinos, quanto da própria kyra -- houve rivalidade feminina... o próprio suco do romance tóxico de 2012/13 que hitou por um tempo, e pensam que ainda hoje gostam dessa baboseira de pau grande, transar toda hora, irritadinho socando a parede, “me vestindo como uma prostituta” e por aí vai. A época after/50 tons de cinza/belo desastre JÁ PASSOU. é preciso ter muito cuidado na hora de escrever um livro (e esse aqui é de 2019!); existem termos aqui que não deveriam mais ser usados há MUITO tempo. e a escrita em si não é apelativa, não é cativante, é monótona, bem tediosa e constantemente dentro de uma fórmula narrativa (e escrita não é fórmula!). você não se apega às personagens, nem às situações; inclusive, eu e amigas minhas pretendíamos fazer uma leitura coletiva, mas até agora, fui a única que consegui terminar o livro, porque todas as outras não passaram da metade de tão maçante e cansativo que fica. pela primeira vez aqui na minha conta, a nota que dou para “três vezes você” é 0. pois além de todas as problemáticas que comentei, acho completamente injusto como escritora e leitora ver outra escritora não saber aceitar críticas negativas sobre sua obra (e ainda por cima expor as resenhas para debochar e humilhar essas pessoas em uma rede pública!). Esse livro é um desserviço e não recomendo para NINGUÉM.