“O BURACO NA PAREDE” (Atmosfera Literária)

“O buraco na parede nos permite espiar o que está escondido, o que é vergonhoso ou pecaminoso. O buraco na parede é o furo na muralha do outro, o ponto fraco da armadura.”

“Atmosfera Literária com Fabio Shiva” é um quadro do programa ATMOSFERA 102, da Rádio 102.7 FM (Além Paraíba – MG), todo sábado de 12h às 14h, com apoio da VERLIDELAS EDITORA. Apresentação: Fernando Bamboo. Técnico de Som: Venilton Ribeiro.
https://www.verlidelas.com/r%C3%A1dio

https://www.radios.com.br/aovivo/radio-1027-fm/17615


O BURACO NA PAREDE – Rubem Fonseca

Boa tarde, queridas e queridos da Atmosfera 102! Olá amigos Fernando Bamboo e Venilton Ribeiro!

Hoje quero homenagear um grande escritor brasileiro, recentemente desencarnado: Rubem Fonseca, autor de obras-primas de nossa literatura.

Os livros de Rubem Fonseca estão entre os raros que não passo adiante depois de ler, pois sempre guardo para ler novamente outro dia. E não à toa: li a maioria dos que tenho aqui duas ou três vezes. E a cada vez que leio de novo, mais aprendo e mais fico fascinado pela força da prosa de Rubem Fonseca. Ele foi o meu escritor favorito durante um período muito especial de minha vida, quando eu estava escrevendo meu primeiro livro, “O Sincronicídio”, lançado há exatamente sete anos, em outubro de 2013, pela Caligo Editora.

Ao saber de seu recente desencarne, em 15 de abril de 2020, senti uma saudade fininha e quis voltar uma vez mais a esse mundo tão conhecido e querido. Escolhi, quase que aleatoriamente, “O buraco na parede”, livro de contos que li apenas duas vezes. Nessa terceira leitura, me diverti elaborando uma breve lista das constantes (ou quase-constantes) da prosa de Rubem Fonseca:

Em primeiro lugar: A maldição do macho irresistível!
Os heróis de Rubem Fonseca geralmente fazem um tremendo sucesso com as mulheres, e o mais curioso é que eles quase sempre consideram essa condição como uma espécie de fardo: a “maldição do priapismo”. Um dos melhores exemplos disso está no conto “O anão”, onde o herói é disputado acirradamente por duas mulheres, em consequência de um estado de tesão constante, que o transforma em uma verdadeira máquina de sexo! Segundo o herói do conto, o que provoca esse estado de excitação irrefreável são os anos que ele passou como bancário, “pegando em dinheiro dos outros o dia inteiro”. Isso me lembra a peça modernista “O Rei da Vela”, do igualmente genial Oswald de Andrade, onde somos apresentados ao personagem Abelardo, que louva a coragem do bancário, por conseguir resistir à sedução e ao “apelo da nota”! Agora imaginem se Rubem e Oswald estão certos, e que bulir no dinheiro dos outros é afrodisíaco! Isso explicaria muita coisa em nossa política brasileira...

Voltando às constantes, ou quase-constantes, da prosa de Rubem Fonseca, em segundo lugar eu destaco: O tempero bizarro!
As desventuras amorosas do herói geralmente trazem como pano de fundo (ou mesmo como primeiro plano) alguma situação bizarra, do tipo que só encontramos nas histórias de Rubem Fonseca. Um ótimo exemplo é o conto “Placebo”, que retrata a sofrida saga do protagonista para encontrar um feto de três meses, que será utilizado para preparar um feitiço capaz de curá-lo de uma sinistra doença degenerativa. Aqui temos o elemento da escatologia, uma das famosas “obsessões” de Rubem Fonseca, com referências eruditas a secreções e excreções, a carne, sangue e tripas, pontuadas por um humor mórbido e sombrio.

E por último, mas não menos importante, temos: A narrativa seca na primeira pessoa!
Essa é uma combinação espetacular: o protagonista conta ele mesmo, em uma linguagem seca e concisa, suas peripécias de tesão incurável, sendo assediado por beldades em meio a situações para lá de bizarras. O resultado é inconfundível: a marca da prosa única de Rubem Fonseca!

O BURACO NA PAREDE traz oito contos, cada um deles uma variação nesse universo tão bizarro e tão querido que podemos chamar de o Estranho Mundo de Rubem Fonseca.

E o melhor exemplo disso é justamente o conto que dá título ao livro, “O Buraco na Parede”. Aqui Rubem Fonseca faz uma homenagem absolutamente genial ao filme “Psicose”, de Alfred Hitchcock. Lembram que em “Psicose” também tinha um buraco na parede?

Pois é! O buraco na parede nos permite espiar o que está escondido, o que é vergonhoso ou pecaminoso. O buraco na parede é o furo na muralha do outro, o ponto fraco da armadura.

E todos os louvores a esse misterioso e fascinante poder da Literatura, que nos permite espiar através desse buraco metafórico e enxergar um pouco mais a respeito de nós mesmos.

Viva Rubem Fonseca! E viva a Literatura Brasileira!
Convido você, que está me ouvindo agora, a conhecer meu livro FAVELA GÓTICA, cujo PDF foi liberado gratuitamente no site da Verlidelas Editora: www.verlidelas.com

Gratidão e até a próxima!