Justine

Justine Marquês de Sade


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Justine


Ou os tormentos da virtude




Foucault observou, em vá­ri­as ocasiões, que Justine está para a modernidade como Dom Quixote para o barroco. Ao ler as relações entre o mundo e a linguagem à maneira do século XVI, isto é, pelo viés da semelhança, Quixote vê castelos nas estalagens e damas nas campo­ne­sas. Aprisiona-se, incons­cientemente, no mundo da pura representação; mas, como essa representação só tem por lei a similitude, a equação reveste a forma irrisória do delírio, tornando o herói uma simples personagem de um livro que não leu e cujo destino lhe é imposto, na galhofa, pelos outros. Em Justine assistimos ao momento de declínio desse mesmo movimento. Não se trata mais do triunfo irônico da representação sobre a semelhança, mas da violência do desejo, quebrando os limites da representação. Justine é um libelo contra os philosophes. Não defende nem o livre exame nem a liberdade de costumes, mas a servidão da razão aos desejos, ou seja, ao poder. Ao elaborar uma teoria da libertinagem, Sade é consciente de que os homens não são livres mas dependem do desejo (de um desejo). Como tal, o marquês tende uma ponte com a linha devassa e quebrada de Goya, graças à qual descobre-se o vazio do irrisório. Por isso, certamente, Lacan via, em Sade, o complemento de Kant. Aí onde o filósofo mandava abstrair o corpo e tomar o outro sempre como meio e nunca como fim, o moralista, pelo contrário, escolhia o outro sempre como objeto e jamais como fim altruísta. Talvez nessa crítica da Estética, como ciência universal do belo, se insinue uma reivindicação da Poética, como livre domínio da linguagem e dos afetos, uma questão absolutamente contemporânea.

Raul Antelo

Literatura Estrangeira

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on 7/11/11


Justine tem a fama de ser um livro sobre fetichismo, mas isso é apenas o marquês usa como fio narrativo para seu verdadeiro foco: moral e ética. Sade, filósofo e militante do mais alto grau de humanismo, destrincha na história da órfã Justine todas as hipocrisias sociais, políticas e religiosas que permeavam a França iluminista. Dono de uma retórica impressionante, o marquês conduz no livro um manifesto de repúdio a todas as convenções e se utiliza do raciocínio lógico em contraste ... leia mais

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Adriana Scarpin
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