Decifro-te e devoro-me

Decifro-te e devoro-me Rodrigo Prado Santiago




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Poesias.

A busca constante do melhor caminho através das inúmeras veredas que conduzem ao autoconhecimento confunde-se a tal ponto com a busca da melhor vereda através dos inúmeros caminhos possíveis de serem percorridos entre o nascimento de uma idéia e o seu falecimento no exato instante em que ela se transforma em palavras escritas pelas mãos do poeta, que, ao imprimir nas folhas em branco da vida real as tintas negras das palavras - já natimortas - oriundas da fantasia da imaginação, ele chega à conclusão de que jamais descobrirá o melhor caminho e, logo, de que jamais atingirá o autoconhecimento, porquanto conhecer-se significa morrer-se junto com as palavras que acabou de matar ao condená-las perpetuamente a vir à realidade de outros olhos, de outros sonhos e de outros sentimentos, que não lhe pertencem e aos quais também não alcança perplexo, embora nunca canse de tentar, a cada dia, alcançar.

O encontro de um caminho significa o sacrifício de vários e o encontro do eu significa o genocídio de muitos eus, às vezes meus, às vezes não.Mas, os caminhos não caminhados também levam a conhecer-se porque podem ter pegadas alheias.E como ser alheio ao que nos é alheio?O alheio está todo o tempo no meio do meu caminho!

A poesia é a expressão da percepção da perplexidade do aprisionamento autoista na tentativa de conformação das idéias em palavras, causado pela dislexia, que culmina na procura por uma forma concreta, definida e inteligível para algo que, intrinsecamente, não poderia ser dotado de apenas uma única forma, pois seria morta.

As palavras, então, filhas da perplexidade incomunicável do eu - indeciso entre mil e uma idéias - são paridas em um parto distócico e doloroso, impregnando de sangue de tinta gráfica uma folha qualquer, respiram, ganham o mundo e libertam-no de sua prisão: o eu comunicou-se com o mundo, o autoista virou altruísta, e, quem sabe, artista?Mas, logo que respiram, as palavras matam o seu criador, infanticídio ao revés, mas matam de encantamento e matam de amor!

E assim, neste paradoxo sem fim, no momento em que a idéia ganha sua única forma, nasce uma outra perplexidade: a de constatar que esta forma, que deveria ser a final, não pôs fim àquilo que deu azo à primeira e originária perplexidade.Como escolher um só caminho sem conhecer e percorrer sem fim, sem si, os inúmeros outros caminhos e cotejar a sua com as demais pegadas?

Destarte, o eu somente encontra a sua forma quando volta a ficar perplexo novamente com o que lhe é alheio, induzindo-o a conhecer o outro como meio para se autoconhecer, a apropriar-se do outro como mecanismo de apropriar-se de si mesmo, sempre ficando em dúvidas se aquilo que pensa que é seria de fato o auto ou o outro.

O eu só chega ao autoconhecimento quando conhece que jamais será possível alcançar o autoconhecimento - e ainda assim jamais desiste ou desanima de tentar.





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