Asterios Polyp

Asterios Polyp David Mazzucchelli




Resenhas - Asterios Polyp


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Tauana Mariana 31/01/2014

Amor, fontes e formas <3
Uma HQ linda e sensível.

Asterios Polyp é um renomado professor de arquitetura, conhecido como "arquiteto de papel" já que, apesar de ganhar diversos prêmios e publicar livros sobre o assunto, nenhum desenho seu saiu do papel. Tem uma visão de mundo bem definida, que aplica tanto em seu trabalho quanto em sua vida. Ele acredita nas dualidades.

Asterios se vê sozinho, na chuva, vendo o seu apartamento pagar fogo no dia em que completava 50 anos. Pegou o dinheiro que tinha na carteira e resolveu comprar uma passagem de ônibus até onde aquele dinheiro o levasse. Acabou chegando em um oficina que precisava de um mecânico. Ganhou o emprego e alugou o quarto vago na casa do proprietário da oficina.

A história é um eterno vai e vem entre o presente de Asterios e o seu passado. Um passado glorioso, onde ele era reconhecido no mundo acadêmico. Um passado em que ele era casado com Hanna (que ele chamava de Margarida). Os dois eram completamente diferentes, mas juntaram suas vidas com nenhum atrito.

Hanna é meiga, tímida, gosta de gatos e de sempre ver o lado bom das pessoas. Asterios é soberbo, reto, acha-se o dono da verdade. E esse jeito de ser (de ambos) acabou quebrando o casamento dos dois. Aliás, a forma tão dura e reta de encarar o mundo acaba levando Asterios à solidão e ao fracasso. Mas após passar um tempo vivendo como mecânico, ele decido procurar Hanna, e os dois acabam a história um ao lado do outro, em silêncio.

Incrível como a HQ conseguiu reproduzir a complexidade e a beleza de um relacionamento a dois. Somos diferentes mas nos amamos, e é isso o que nos une. Mas quando confiança, amor e respeito não se fazem mais presentes, o casamento quebra. A rotina não é o que destrói uma relação, a lembrança de cada fragmento diário ao lado do outro é que constrói a nossa memória, a melhor forma de parar o tempo e voltarmos a viver o momento que desejamos (ao menos em parte). Através dos desenhos, compreendemos que podemos nos tornar semelhantes e também tão diferentes. Aproximamo-nos e distanciamo-nos conforme nossas formas e fontes vão mudando.

Os desenhos e formas são simplesmente sensacionais. O contraste entre o azul e o rosa, o reto e o curvilíneo torna a HQ de uma beleza incrível. Também achei sensacional como cada personagem tem uma fonte para as suas falas, como se a escolha destas também entregasse como é a personalidade de cada um deles.

site: http://tauanaecoisasafins.blogspot.com.br/2014/01/asterios-polyp.html
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Lucas Ed. 15/02/2012

O melhor álbum de quadrinhos de 2011
* A resenha abaixo foi publicada, com pequenas alterações, no blog melhoresdomundo.net *

Asterios Polyp é um renomado arquiteto... de papel. Isso quer dizer que, apesar dos vários trabalhos premiados, da cadeira na faculdade e da fama, nenhum de seus projetos alguma vez saiu do papel. Entretanto, ele está na pior quando um raio cai e coloca fogo em seu apartamento, com toda a sua vida dentro - tudo o que ele se preocupa e consegue salvar são um velho relógio de pulso, um isqueiro tipo zippo que foi de seu pai e um canivete suíço. Com todo seu passado destruído, Asterios parte para onde o dinheiro que tem no bolso pode lhe levar... e a trama começa.

Eu não sei porque, mas no exato momento em que foi lançado no Brasil, Asterios Polyp, o álbum, não me chamou atenção quase nenhuma. Veja bem, era um trabalho autoral de um artista fantástico, David Mazzucchelli (que dispensa apresentações. Mas se você não sabe quem é, ele foi quem ilustrou Batman: Ano Um), mas, sei lá, não me chamou atenção. Acho que foi culpa da capa, meio experimentalista, com aquele protagonista estranho, de uma cabeça simples e angulosa, estranhamente encaixada num corpo mais arredondado, quase orgânico.

Mas o Festival Internacional de Quadrinhos 2011 me abriu os olhos. Vira e mexe alguém comentava o álbum, perguntava dele para outro alguém qualquer, queria discutir a história. Se não comprei lá mesmo, foi só em função do preço - o receio era quase vestigial e mais nada.

Passou o evento, a esperança venceu o medo e eu comprei o álbum. E entre o momento que coloquei as mãos no álbum no correio até o virar da última página não se passaram muitas horas. Sorte total ter sido num sábado, senão...

Asterios é um álbum denso. Esqueça Batman Ano Um, esqueça o Demolidor, nada aqui lembrará o Mazzucchelli que você está acostumado. Bem da verdade, nada no álbum lembrará algo com o qual você já esteja acostumado. Inclusive, Mazzucchelli usa a arte para comunicar como poucos - a imagem diz, sussurra, diferencia. É engraçado observar a diferença dos balões de cada personagem e das fontes que são usadas para cada um. Oras, quem discordaria que o jeito de falar também diz muito da pessoa que fala? Mazzucca (é meu chegado) leva isso às "vias de fato", e cada um de seus personagens terá uma voz diferente. E não, não pense que só um "mero detalhe" como este faz tanta diferença assim, as (outras) sutilezas no desenho de um ou de outro personagem também serão embasbacantes - desde que você tenha olhos para vê-las e entendê-las.

A jornada do personagem Asterios, destituído de tudo que um dia foi sua vida, sua identidade, é incrível. Um dos narradores, completamente inesperado (mas revelado logo de cara) traz uma tônica de leitura completamente nova - de quem mesmo é a história que estou lendo? Vou ver mesmo a vida de Asterios ou será de outra pessoa, de uma sombra que o acompanha? E isso, meu amigo, isso é sensacional.

Confesso a vocês que não há muito que se possa dizer de Asterios Polyp além de que muito provavelmente é uma obra completamente diferente de tudo o que você já viu, e da maneira mais positiva e forte que puder. Ficar falando dela, da obra, seria como tentar descrever (guardadas as devidas proporções de forma) a Sistina de Michelangelo ou um grande clássico do cinema como Cidadão Kane. Você pode escolher uma linha geral e acompanhá-la para contar daquela experiência a alguém, mas fatalmente MUITA coisa ficará de fora, e quem ouvir o seu relato vai pensar que não se trata de nada demais. Nenhuma descrição será fiel a Asterios Polyp - descrever a forma deixará de lado o conteúdo, descrever o conteúdo deixará de lado a forma - e serão ambas as descrições criminosas. Isso porque a descrição, por exemplo, deixaria escapar os sonhos de Asterios que permeiam a trama - e que são tão carregados de conteúdo simbólico que parecem que foram de fato sonhados por alguém. Liber Paz, lá no Universo HQ, disse que nada em Asterios Polyp sobra. Eu não poderia concordar mais com ele: trata-se de um álbum como poucos que já tive o prazer de ler na vida (que droga!) onde tudo tem e está exatamente no seu preciso lugar, e o resultado é uma obra de arte linda. E que como toda obra de arte, precisa ser revisitada de tempos em tempos para, a cada nova leitura, ganharmos um pouquinho mais.

Antes de terminar esta resenha, não posso deixar de, mais uma vez, tirar o chapéu para a Companhia das Letras e seu selo Quadrinhos na Cia. O trabalho deles, não só de editoração e cuidado, mas de seleção de material, tem sido incrível. Rendam graças a São Kirby, Eisner e Harvey pelo mercado brasileiro ter se aquecido (e crescido) a ponto de permitir que uma editora assim tão séria e cuidadosa topasse trabalhar com HQ.
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Andreia Santana 30/10/2011

Romance em linhas e curvas
Econômico nos traços e nas palavras, David Mazzucchelli consegue dizer muito da condição humana com a sua novela gráfica de estreia, Asterios Polyp, lançada no Brasil pela Quadrinhos na Cia (divisão da Companhia das Letras). Trata-se de uma história de amor e autodescoberta sem arestas aparadas, em linhas retas e firmes, deslizando em curvas ocasionais que se insinuam nas entrelinhas. Profundo, sem ser arrogante, simples, sem conceder espaço às simplificações banais, Asterios conquista pela beleza plástica e por uma narrativa concisa e criativa.

Diria que é ao mesmo tempo ácido e delicado, realista e também romântico. A arquitetura usada como metáfora para a vida e para discutir desde o casamento até a amizade e a sociedade contemporânea parece um lugar comum, mas a vida em seus lugares comuns pode surpreender.

O texto e as imagens se complementam em simbiose perfeita, um dando sentido ao outro e às vezes, um dispensando o outro. Mas a entrelinha está ali, cheia de significados.

A história - Asterios Polyp conta a história de um renomado professor universitário – homônimo ao livro - e autor de projetos arquitetônicos visionários, mas que nunca saíram do papel. De temperamento irascível, tirado a Don Juan, preconceituoso, arrogante, ranzinza, racional e pragmático ao excesso, Asterios tem sua vida narrada pelo gêmeo Ignazio, natimorto, e que funciona como um duplo fantasma, em um fascinante jogo de espelhos.

O ponto de partida é um incêndio que consome toda a vida já decadente de Asterios, e do qual ele salva apenas a roupa do corpo e alguns poucos pertences, aparentemente insignificantes, mas que ao longo da trama vão se revelando vitais em determinadas fases da vida do personagem. Após a tragédia, ele parte em uma jornada em busca de si mesmo e de um sentido novo para a própria vida. O ex-acadêmico passa a morar com uma família típica média do interior dos Estados Unidos e vê a própria existência em perspectiva, repensando desde a infância até o casamento que parecia perfeito, mas fracassa.

É uma obra de arte que celebra a vida e o amor, embora traga aquele travo de ironia e desencanto dos tempos modernos, cheia de referências filosóficas e existencialistas, mas que não deixa de transbordar aquela humanidade encontrada ao dobrar de uma esquina. Trabalho de mestre, sem dúvida, para deleite dos amantes de quadrinhos. Mas é ainda uma saborosa descoberta para quem se aventura nesses mares pela primeira vez.

O autor – David Mazzucchelli é mais conhecido por seus trabalhos em Demolidor – o homem sem medo e Batman: ano 1. Contemporâneo de Frank Miller, Alan Moore e Neil Gaiman, ele nasceu nos EUA, em 1960. Asterios Polyp é sua primeira graphic novel e uma estreia altamente promissora na seara dos trabalhos autorais. Antes, além de trabalhar com Moore na série Demolidor, ele havia adaptado Cidade de vidro, de Paul Auster (Leviatã, Noite do Oráculo), para os quadrinhos.
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Zelenski 10/09/2012

Surpreendente e envolvente
De cara, o que chama a atenção em Asterios Polyp são os traços. No plural, pois são vários. Cada personagem tem o seu, assim como tem uma tipografia própria nas falas também, e que, muitas vezes acaba intereferindo no ambiente que se passa a cena. Os traços também são dinâmicos nas mudanças de tempo e espaços, presente e passado, sonho e realidade.

Tudo isso com uma trama envolvente, com personagens ótimos e únicos, que só fazem querer largar a HQ quando chegar ao fim (que, diga-se de passagem, é de arrepiar).
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Daru 24/08/2012

Polyp
Os próprios quadros e formas, dizem muitas vezes mais que a escrita. Cada personagem tem o próprio estilo de balão de fala na forma correspondente a sua personalidade, o mesmo acontece com as fontes das letras, achei isso genial. Asterios muitas vezes te cativa pela sua simplicidade em sua vida atual e te faz ter raiva, por querer mostrar que sabe de tudo e de todos, parte apresentada como o passado de sua vida.
Adorei. Final inesperado! Fiquei boquiaberto.
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Marc 23/12/2011

Mais que uma banal história de amor
Asterios é um arquiteto de grande sucesso acadêmico, dá aulas na universidade da cidade de Ithaca. Embora nunca tenha tido um projeto seu realizado, sua reputação é incontestável. Está seguro de seu papel e da maneira como entende o mundo. Visão de mundo que não apenas transmite a seus alunos, mas que serve de método de abordagem das pessoas em todas as relações que trava. E sua história começa a ser contada quando esse método o levou ao extremo da solidão e fracasso.

Ítaca é a terra natal de Odisseu, aquele mesmo que pensou que sua grande batalha era a Guerra de Tróia, mas descobriu que seu destino tinha muito mais reservado para ele. A verdadeira batalha de Odisseu é sua viagem de volta para casa e sua esposa. Não é uma história de amor, mesmo que no final (do qual francamente não me lembro e não tenho nenhum exemplar em casa para conferir) ele volte para sua esposa, que o aguardou resistindo às investidas de todos os pretendentes.

Acredito que mais do referências externas aos mitos gregos, essa história em particular é uma chave para leitura da HQ. Até porque o longo período de isolamento de sua esposa serve para que se compreenda, exatamente como um Odisseu moderno — e não posso deixar de lembrar que um sujeito irlandês ganhou notoriedade mundial quando fez o mesmo em literatura, mesmo que a história tenha sido reduzida a uma banalidade absurda. Mazzucchelli não estava preocupado em renovar a literatura, mas os quadrinhos — e também inova bastante na forma, trazendo referências de outros meios (arquitetura, por exemplo, mesmo que essas referências pareçam banais ao observador desatento, elas não estão lá para revolucionar a teoria, mas tentam inovar a linguagem que o autor afinal está trabalhando: os quadrinhos).

Creio que esse motivo pode fazer com que se tenha mais boa vontade com o álbum...

Mas eu gostaria de citar mais outros que fazem essa leitura ser uma das melhores nos últimos tempos em relação aos quadrinhos. Há a verdadeira obsessão de Asterios pela dualidade, afinal ele foi o gêmeo que sobreviveu e vive assombrado por isso — o irmão morto no nascimento é integrado à sua personalidade se tornando uma segunda natureza. Por alguma razão foi ele que sobreviveu, o mais forte. Isso é traço fundamental na maneira que vê o mundo, que entende a realidade e se expressa em sua produção intelectual. As dualidades como a própria realidade (e mais especificamente o factual e o fictício), aquilo que expressa o que é e aquilo que tenta se mascarar de alguma forma. Asterios jamais escondeu sua preferência pela funcionalidade — a verdade incontestável de acordo com ele. Apolo e não Dionísio, para lembrar que mesmo tão distantes ainda estamos próximos aos gregos.

E o mundo acadêmico adora a dualidade. Mesmo sendo um personagem fictício, acho que Asterios não teria muita dificuldade em conseguir destaque com essa maneira de pensar, porque a própria criação da academia de Platão (para falar de gregos novamente) trabalhava com uma dualidade: filósofos contra os sofistas — ou, saber real, amor ao saber contrário à aparência de saber, técnicas de debate que levavam a criar nos ouvintes paradoxos insolúveis. E Asterios, em sua longa viagem de aprendizado, vai justamente encontrar uma sofista, uma pessoa cujo modo de proceder não lhe impõem respeito. É essa descoberta do paradoxo essencial à vida que vai provocar a grande mudança. A descoberta de que o caos não significa bagunça (bagunça é sua vida antes que o raio caia em no apartamento e provoque sua viagem), mas antes, traz novas formas de organização que rompem com o padrão estabelecido.

As ilustrações de Mazzucchelli estão incríveis, e não custa lembrar que HQs são um meio que mistura texto e ilustração, não devemos apenas nos fixar em um deles. As cores são o elemento mais bonito de todos, sem dúvida, ajudando a contar a história. Ora predomina o monocromático de Asterios, ora o vermelho de Hana, o amarelo de Ignazio. Até que as cores se misturam e cada uma toma seu lugar, sem predomínio de nenhuma delas.

Acredito que a primeira leitura do livro seja um pouco decepcionante. Quando estava lá pelo meio cheguei a pensar que não passava de uma história banal contada com refinamentos visuais que nem chegavam a ser tão inovadores assim fora dos quadrinhos. Mas uma leitura mais cuidadosa revelou que é preciso sim ter em mente essas referências aos gregos; que o detalhamento visual não significa uma tentativa de revolução para a arquitetura nem para o design de modo geral, mas apenas (se assim podemos dizer) para os quadrinhos.

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Willians 31/07/2012

Uma fantástica leitura...
Um livro fantástico que utiliza as inúmeras variantes existente para contar uma história na forma de quadrinhos, sua paleta de cores foi devidamente utilizada para cada momento da vida de seu personagem, sem dúvida uma das melhores graphic novel já lançadas.
Uma excelente obra para o amante dos quadrinhos e uma boa escolha para quem quer conhecer o mundo da nona arte. O livro conta a história de um grandioso arquiteto que após um acidente em sua casa tem que recomeçar a sua vida. Vale a pena conferir!
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Gladston Mamede 12/11/2017

Surpresa
Nunca pensei que uma história em quadrinhos pudesse ser tão filosófica, tão humana, tão profunda, tão poética. Comecei a ler por que ganhei e, logo, estava mergulhado num texto que me remeteu aos meus estudos de filosofia e - por que não? - um texto que ecoava na minha vida: meu passado, meu presente, minhas esperanças e medos de futuro. Amei.
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Menezes 28/05/2011

A DUALIDADE DA VIDA
Em determinado ponto uma mulher brava (como todos nós conhecemos) interroga um homem distante sobre suas atitudes. “Porque vocês sempre pensa que tem razão?” ela indaga a este que é o intrépido herói dessa jornada. Podemos resumir como a jornada de um homem pelo cotidiano de sua vida, à la Leopold Bloom, ou como a jornada de um homem que perdeu tudo e tenta recomeçar e estariamos certos. Podemos dizer que Mazzuchelli faz o Woody Allen dos quadrinhos e também não estaríamos criando nenhuma heresia com tal informação, a quantidade de humor sutil em Asterios só falta uma trilha de jazz para encarnar o mais neurótico dos cineastas. Contudo o que mais chama atenção e que esta cena reflete é a complexidade visual e moderna que o quadrinista evoca nas 400 páginas da Graphic. é algo muito próximo do expressionismo e que está sempre em mutação dentro desta que é uma das mais visualmente inventivas histórias lançadas nos últimos anos.

David Mazzuchelli é um desenhista já sênior no ramo, nascido em 1960 participou efetivamente da recriação do Demolidor em meados da década de 80 juntamente com Frank Miller, contudo fora somente com Batman – Ano Um (Uma das três grandes histórias do Cavaleiro das Trevas) que ele ganhou notoriedade como desenhista. A história se centrava no Primeiro ano de guerra ao crime de um jovem Batman e de um pai e policial dedicado chamado Jim Gordon, a recriação moderna de Christopher Nolan se deve muito a história de Miller (novamente ele) e do tom sépia estilizado que Mazzuchelli imprimiu a história, tornando mais real e noir. Seu grande trabalho posterior foi a adaptação de um romance de Paul Auster, Cidade de Vidro, em que mostrava novamente a grande versatilidade do traço do desenhista, algo raro pois alterar traços e estilos de escrita é algo relativamente complicado, mas como seu livro “autoral” demonstra ele consegue se desvencilhar do traço normal dos super-heróis, de algo mais real com personalidade em Batman – Ano Um, ou minimalista em Cidade de Vidro, e ainda assim criar algo totalmente novo.

Quando digo que é algo autoral é porque essa é a primeira história também roteirizada por Mazzuchelli, a história gira em torno de Asterios Polyp em um plano mostrando sua vida como grande teórico arquiteto, sua esposa uma artista plástica muito simpática e as desventuras conjugais, da vida e do cotidiano que estes dois enfrentam. Aqui ele parece mais Woody Allen que nunca, o tom é um azul claro que domina e a narrativa e traz mais “cadência” as imagens. Contudo esta história é intercalada com um outro plano em que após um incêndio Asterios perde a casa e sua vida, se refugia no interior onde ajuda um mecânico em troca de abrigo. O tom é amarelo forte que contrasta com a outra história, pois aqui segundo meu ver é uma história de esclarecimento, em que o personagem após perder começa a recordar o que é mais importante na vida.

Mazzuchelli revisita um dos grandes temas da literatura universal que é a questão do duplo. desde o Médico e o monstro, passando por William Wilson até os dias atuais com por exemplo Dois Irmãos de Milton Hatoum, a questão daquele que é um espelho de você é fascinante e sempre produz grandes desdobramentos, entretanto a questão aqui não é somente, conforme a tradição, um outro que espelha o personagem principal Mazzuchelli faz o próprio Asterios ser o espelho de si mesmo, ele é o duplo de si. Em uma vida ele tem tudo, na outra ele perdeu tudo e precisa recomeçar, no final elas vão se juntar criando um panorama que chega perto da resolução mas um final surpresa mostra a dualidade da vida em grande estilo e, diga-se de passagem, bem cínico.

Esta questão da dualidade é explicitada a todo o momento na narrativa, de maneira mais direta com as teorias de Asterios sobre a existência de somente dois pontos de vista, a sua história intercalada, passando por seu narrador que é simplesmente o irmão gêmeo falecido no parto quem narra a história, o garante um distanciamento das problemáticas humanas similar ao autor-defunto de Machado e finalizando com o contraste não somente dos planos, mas das técnicas utilizadas. Em dado momento David utiliza planos bem naturalistas para mostrar o cotidiano:

(como não dá para colocar imagens aqui, peço que vejam os exemplos em http://espanadores.blogspot.com)

Nesse ponto (do conceito gráfico) a graphic em velocidade exponencial preenchendo cada buraco da página e contratando aquilo que é mostrado com o branco da página. Contudo não se assuste, ele não chega a ser tão complexo quanto Jimmy Corrigan, na verdade meu veredito é que no todo é uma história bem simples de se ler, e muito engraçada de um ponto de vista maldoso, pois a sensação que temos com a história de Asterios é que as complicações que parecem ter existido em sua vida que são a força motriz dos conflitos foram supérfluas, podiam ter sido contornadas ou nem existido bastando uma concessão dele próprio. Ou seja, como é difícil mudar de atitude: Não achar que está certo o tempo todo, ser menos quadrado, menos ligado a teoria da vida e viver mais. Ao final quando se descobre essa verdade da vida, o livro acaba de um jeito… inventivo e você fica imaginando coisas sobre a vida em si. Muito interessante, creio que algumas pessoas não vão gostar do final da história mas é difícil não ver a propaganda pró-vida de Mazzuchelli nessa obra profundamente humana.

Para que ficou interessado, na verdade a tradução da obra só sai daqui a dois meses pelo Quadrinhos na Cia., então isso é uma prévia. Contudo já posso garantir que esse é um dos grandes quadrinhos deste ano e último ganhador do Eisner. Vale muito a pena.
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Tuca. 24/08/2010

O leitor comum
Comento sobre o livro no link: http://oleitorcomum.blogspot.com/2010/08/retratos-de-artistas-nao-mais-jovens.html

O post trata ainda de IT'S A GOOD LIFE, IF YOU DON'T WEAKEN, de Seth; e de JABOC, de Otto Leopoldo Winck. Resenha bônus sobre EMILY THE STRANGE: SEEING IS DECEIVING, de Rob Reger, no primeiro comentário do link.
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Maraysa 23/01/2013

Polyp
Fantástico! Não vou dizer que ao término da leitura tudo ficou perfeitamente claro pra mim, teve uma passagem que me deixou com a pulga atrás da orelha, mas ainda assim, fiquei encantada com esta HQ!

As ilustrações, o jogo das cores, a técnica, tudo muito bem feito. E, claro, a estória em si é muito criativa e os personagens principais são bem cativantes (especialmente a Hana).
Recomendo fortemente!
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MENINA LY 06/05/2013

Belissimo
Quero dizer em primeiro lugar que a estoria não me agradou muito, mas os traços e o jogo de cores supera qualquer coisa que não tenha me agradado. Fiquei encantada com o jogo de cores ( conforme muda o humor,os sentimentos do protagonista e de todos os personagens as cores também alteravam de um quadrinho pro outro e até mesmo se misturavam). Traço perfeito, porém a estoria não me prendeu,talvez porque estava com uma expectativa muito alta em relação a este quadrinho. Mas recomendo mesmo assim (acho que a estoria não funcionou para mim, mas pode funcionar para você).
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Cilmara 12/08/2018

Levarei em minhas andanças...
Muito dessa obra, o quanto ela influenciou artistas e até mesmo vidas.
Tudo é real, logo de imediato eu sabia que em minhas mãos havia uma preciosidade.
Enquanto lia, já tinha o desejo de reler, com certeza é algo que carregarei em minhas andanças.
Asterios é um arquiteto e professor muito prestigiado por seus inúmeros eloquentes projetos, mas aos 50 anos sua percepção de si mesmo vai para outros rumos? Quem, realmente, é Asterios? O que ocorreu em sua vida?
Mazucchelli reinventa, com uma arte ousada e um roteiro perspicaz, tece sobre as vicissitudes da vida.
É um trabalho muito engenhoso e primoroso.
Esse campo aqui é limitado demais para mostrar ao menos 1/3 do quanto essa leitura foi significativa para mim.
Resumindo meu parecer:
Lemos tanta coisa e de repente nos deparamos com algo que supera a maioria, ou se não, todas as coisas que já leu.
Rebeka 12/08/2018minha estante
É uma pena esse livro estar esgotado. Queria muito ler, só boas críticas ele tem.


Cilmara 17/08/2018minha estante
É praticamente um crime não relançarem ele... \o/
Mas, vai acompanhando no skoob..sebos e mercado livre...foi assim que consegui e ainda por um bom preço.




sueli 01/11/2012

Asterios Polyp de David Mazzucchelli
Sinopse
Ao lado de nomes como Frank Miller, Alan Moore e Neil Gaiman, o artista David Mazzucchelli foi um dos grandes responsáveis pela revolução nos quadrinhos no fim da década de 1980. Seu trabalho em séries como Demolidor: O homem sem medo e Batman: Ano 1 até hoje é referência do que foi feito de melhor no campo dos super-heróis.
Depois de anos publicando apenas pequenas histórias autorais, Mazzucchelli voltou-se para esta que é a mais ambiciosa de suas histórias. Asterios Polyp é ao mesmo tempo um estudo sobre as possibilidades narrativas dos quadrinhos, um livro de design, estética, filosofia e, por que não, humor. Tudo isso sem sacrificar a trama, tão envolvente quanto os desenhos do autor. O Asterios do título é um arquiteto de cinquenta anos, cujo renome vem exclusivamente de seus trabalhos teóricos. Mulherengo, misógino e de uma arrogância quase inacreditável, ele vê seu passado se esfacelar após um incêndio que consome sua casa.


Este é um livro com 344 páginas, mas de fácil leitura. O colorido dele é bonito e suave. Gostei muito da história, tem uma escrita simples, clara, leve e de fácil compreensão.
O livro conta a história de Asterios Polyp. No dia de seu quinquagésimo aniversário, o professor tem sua casa destruída por um incêndio. Desnorteado e sem rumo, ele parte para um lugar distante na tentativa de recomeçar. Acaba tornando-se auxiliar de um mecânico, em uma pequena cidade. E lá começa a reconstruir sua vida, sua própria identidade e sua maneira de ver o mundo. Narra sua história de vida, seu passado, suas dúvidas, seus sonhos, crenças, desilusões, reflexões, sua tristeza, sua personalidade complicada, seus dissabores. No final quando parece que ele se encontra após vários reflexões e enfrentamentos... Ai o final, sempre inesperado...

Ótimo livro recomendo!
Viquinha 03/11/2012minha estante
Hmmm...estou gostando das suas escolhas de outubro. Pelo visto, mais um a constar na minha lista de desejos.




Café & Espadas 27/04/2015

Resenha Asterios Polyp
Asterios Polyp é um arquiteto. Desde pequeno ele se destacava dos demais por ter uma mente robusta. Isso lhe deu uma brilhante vida acadêmica bem como vários prêmios arquitetônicos, incluindo o maior deles, o Pritzker. Ser professor catedrático na universidade de Ithaca é outra de suas conquistas. Não é à toa que Hanna, também professora em Ithaca, e que viria a se tornar sua esposa, interessou-se por ele logo na primeira vez que o viu.

Asterios Polyp é um fracasso. Sua vida acadêmica desmoronou. Nenhum de seus projetos jamais foi construído, no entanto, seu ego nunca fora abalado por isso. Ao contrário, ele orgulhava-se em ser um arquiteto de papel. Ele perdeu sua cátedra em Ithaca. E mesmo no ensino médio, não teve sucesso como professor. Seu ego acabou o casamento com Hanna. Hoje ele é um homem de meia idade, fracassado, sozinho e assombrado pelo irmão gêmeo que morreu no parto.

Esta é a tensão que envolve a história de David Mazzucchelli, autor de Asterios Polyp.
Ele conta essa história em flashbacks. No presente, você vê o Asterios de meia idade, fracassado, no passado, o Asterios no auge de sua carreira, bem sucedido.

Mazzucchelli levou cerca de 10 anos para escrever essa HQ e isso pode ser observado nos vários detalhes que a compõem. Ele não fez uma história em quadrinhos semelhante a um storyboard, como é o comum, onde a página é separada, de maneira geral, em uma grade ou um conjunto de quadros. Cada página de Mazzucchelli é uma obra de design. Cada elemento desenhado, e a maneira com que é desenhado, conta um pouco a história.

Por exemplo, cada período de tempo, quer seja no presente, quer seja um flahsback, a tonalidade geral dos quadros muda. As cores também são utilizadas para diferencias os personagens. Sempre vemos a cor azul para Asterios, e o vermelho marca bastante Hanna, já o amarelo, Ignazio. Claro que isso também representa aspectos de suas personalidades, azul, racional, vermelho, paixão.

O traço também é um elemento fortíssimo nessa HQ. Não só o traço comum que define os personagens é relevante, mas a maneira como o autor diferencia as personalidades dos personagens através do traço. Quando o autor quer transcender a história contada e representar aspectos profundos de personalidade, ele usa um traço diferente. Na festa dos docentes, no início da revista, isso é bastante marcante. Mazzucchelli desenha todos que estão em quadro utilizando diferentes técnicas de desenhos. Há alguns pontilhados, outros esfumaçados, ainda alguns apenas sombreados, outros somente a silhueta.

Asterios é representado por formas geométricas firmes e bem definidas. Já Hanna é composta por uma hachura mais solta e bem menos exata. Uma bela maneira que Mazzucchelli encontrou de representar o interesse mútuo entre o casal foi desenhá-los mesclando as duas técnicas. Asterios, completamente reto e preciso, e Hanna, formada por linhas soltas, agora são ambos representados com linhas mais ou menos retas preenchidas com hachura.

Outro detalhe são os balões de diálogos. Cada personagem possui um formato de balão e um tipo (uma fonte de letra) diferente para representar sua fala. Tudo isso ajuda a construir os personagens.

Sem dúvida Asterios Polyp é uma excelente escolha para quem está buscando um quadrinho diferente e autoral.

site: http://cafeespadas.com/?p=2936
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