a máquina de fazer espanhóis

a máquina de fazer espanhóis Valter Hugo Mãe




Resenhas - A Máquina de Fazer Espanhóis


232 encontrados | exibindo 1 a 16
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |


Arsenio Meira 20/04/2013

O protagonista deste romance genial é António Jorge da Silva. Com 84 anos de idade, Silva perde sua mulher, Laura, e eis que a engrenagem lírica que norteia o livro surge em sua plenitude.

A morte não era esperada, apesar da idade avançada de sau companheira, e para aumentar ainda mais tristeza, Silva pensava ou assim desejava não precisar ter que viver um dia sequer sem a esposa depois de passarem juntos 48 anos, terem dois filhos, terem sobrevivido tranquilamente os dias em que Portugal vivia sob a ditadura salazarian. Juntos, haviam sobrevivido, e juntos, pensava o nosso querido Silva, haveriam de morrer.

A perda foi dolorosa, sentida com indignação, e em meio a essa melancolia toda, o velho é internado em um lar de idosos em Portugal.

Silva pouco se esforça para se adaptar à rotina do lar e conhecer os outros internos, muito menos abandonar a amargura sentida pela morte da esposa. Falta-lhe disposição para passar a velhice a rememorar bons momentos da vida ou criar novos sem Laura, que esteve com ele por toda a vida, nada mais tinha importância.

No lugar da sabedoria e do respeito que se aplica aos idosos, Silva enxerga o declínio da saúde e a perda das faculdades mentais à noite, ele imagina corvos e outros pássaros negros a atacarem-lhe na cama, atormentando-o. Mas aos poucos, ele passa a construir amizades com alguns dos outros internos, como o senhor pereira, e com médicos e enfermeiros, como Américo e doutor Bernardo.

Os dias no lar se passam assim, observando uns aos outros, adivinhando-lhes as histórias e lembrando as suas próprias, analisando a condição de velho, esperando em um local específico a morte iminente. Mas silva, jamais esquecido da dor causada pela morte de laura, desfia páginas e mais páginas não de lamentação, mas de consciência da perda e da injustiça de ter que se manter vivo quando preferiria não estar:


com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutria pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder.


Dentro da feliz idade, silva e seus companheiros conhecem também o Esteves, o mais velho do asilo, prestes a completar 100 anos e personagem de um momento histórico da literatura de Portugal. Diz-se, e eles acreditam, que Esteves é o homem sem metafísica do genial poema de Fernando Pessoa (TABACARIA), causando admiração dos demais por ter convivido na mesma época, e por algumas vezes no mesmo lugar, que o consagrado poeta português frequentava.

A presença destes homens no asilo leva-os a um caminho de reflexões sobre a velhice, o que lhes resta no fim da vida e o que viveram nos tempos críticos da política portuguesa. Embora todo o livro tenha uma carga melancólica marcada pela morte e o medo de morrer tanto no presente quanto no passado narrado por silva -, as conversas desses velhos são animadas, repletas de risos, como se fossem jovens rapazes a praticar traquinagens escondidos. Riam-se da Dona Leopoldina e Dona Marta, duas velhas medrosas e malcriadas do asilo, dos médicos e enfermeiros, da fé de alguns na igreja que silva deixou de ter quando seu primeiro filho morreu no parto e de si mesmos.

"A máquina de fazer espanhóis" é uma leitura emocionante, e uma das suas virtudes é não arrancar do leitor lágrimas ou pena; o enredo jamais parte para o caminho piegas do sentimentalismo useiro e vezeiro em situações do mesmo naipe. É uma emoção fincada na razão, na lucidez com que Silva detalha a sua inconformidade com a morte de laura e sua permanência na memória, como lida com a obrigação de continuar vivo e superar a perda e um passado que lhe marcou como cidadão.

E toda a técnica narrativa de Valter Hugo Mãe só tem a contribuir para a experiência de leitura, a falta de exclamações e interrogações, por exemplo, levam o leitor a se conectar ainda mais com o narrador para compreender a intensidade daquilo que ele narra. Quem virou fã do autor tem sua admiração justificada, pois o romance vale mais do que 5 estrelas.
Daniel 14/05/2013minha estante
Um livro de fato extraordinário. E tantas boas resenhas por aqui que desisti de escrever a minha, seria redundante. Só gostaria de destacar (também já fizeram isso) a caprichada edição da Cosac Naif: os abutres que tanto assombram a consciência do narrador encontraram forma estilizada na capa pelas mãos de Lourenço Mutarelli, que também assina a excelente sinopse na "orelha" da capa.


Arsenio Meira 14/05/2013minha estante
É isso aí, Daniel. A Cosac Naif capricha mesmo. Salvo engano, até comentei a respeito de uma determinada observação que você fez; acho que foi sobre a Rocco, que - não raro - "entrega" a essência dos livros que publica nas "orelhas", repletas de spoilers e etc. Ao contrário disso, como vc bem notou, a Cosac Naif imprime arte à obra de arte, neste caso literária.


sonia 31/10/2013minha estante
Bem, graças ao comentário do Daniel notei que a capa é feita de abutres estilizados - o que eu estava vendo nela eram naurônios...acreditem ou não!


Arsenio Meira 31/10/2013minha estante
Oi Sonia,
Acredito. Eu também não havia notado, rsrs... Mas o Daniel não só captou, como revelou a autoria, do Lourenço Mutarelli, cuja obra literária ainda não conheço, mas pretendo conhecer.


Sonia.Marques 24/10/2019minha estante
o que é velhice para o senhor Silva?
Qual personagem fala que Portugal é uma maquina de fazer espanhois? e por que ele falou isso?
Por que para alguns personagens, ainda era melhor Portugal estar subordinado a Espanha?





Book.ster por Pedro Pacifico 01/03/2020

A máquina de fazer espanhóis, Valter Hugo Mãe – Nota 10/10 🔝🔝🔝
Arrisco dizer que esse é um dos meus livros favoritos! A escrita de Valter Hugo Mãe é sempre brilhante, extremamente poética, como se cada palavra tivesse sido pensada e repensada antes de ser incluída no texto. Nessa obra, o autor aborda de forma muito sensível – e com certo toque de humor – a velhice do ser humano. Tamanha é a profundidade com que a narrativa é construída, que o leitor se sente como se estivesse “dentro” da cabeça do protagonista, partilhando com ele a solidão, os anseios, a impaciência e as angústias trazidas pelo acúmulo dos anos. Um verdadeiro ensaio sobre a velhice! Leiam!

site: https://www.instagram.com/book.ster
comentários(0)comente



Luciana.Tolentino 29/03/2021

Um livro sobre o fim.
Esse é o segundo livro de Valter Hugo Mãe que leio e fico maravilhada!
Livro inteiro impecável. Ler Valter Hugo Mãe é uma das coisas mais prazerosas que fiz esse ano.
O livro conta a história de seu Silva que foi para um asilo após a perda de sua esposa.
comentários(0)comente



leila.goncalves 13/10/2020

O Bom Fascista
de autoria do português valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis encerra a tetralogia das minúsculas que tem como proposta abordar os ciclos da vida, isto é, infância, juventude, maturidade e velhice. para quem ainda não a conhece, os outros livros são respectivamente nosso reino, o remorso de baltazar serapião e o apocalipse dos trabalhadores.

aliás, o peculiar título da tetralogia refere-se a exclusão de todas as letras maiúsculas dos textos, assim como exclamações, interrogações e outros sinais de pontuação com exceção do ponto, da vírgula e do hífen. Segundo o autor, ?essa escolha atenta para a natureza oral das histórias e reconduz a literatura à liberdade primeira do pensamento. as minúsculas também aludem a uma humildade gráfica ou utopia de igualdade, isto é, uma certa democracia que, ao equiparar as palavras, deixa ao leitor definir o que deve ou não sobressair?.

resumidamente, a máquina de fazer espanhóis narra a história de antônio jorge da silva, um barbeiro bastante idoso que depois de enviuvar, vai morar num asilo conforme decisão da filha. sozinho, ele é obrigado a reconsiderar a vida e descobrir novos interesses para o tempo que lhe resta.

com um pé na poesia e pouca ação mas recheado de metáforas e reflexões metafísicas e políticas, a narrativa é inspirada no poema tabacaria, de fernando pessoa, e surpreende ao abordar a morte, o luto e a velhice com suas limitações. surpreende, pois o romance foi lançado em 2010, quando valter hugo mãe completou 39 anos e apenas entrava na meia idade. são preciosas as considerações do protagonista, em especial, sobre a complexa convivência longe da esposa, amor de uma vida inteira, e sua dificuldade de permanecer ateu no final da vida.

outro enfoque curioso é o do ?bom fascista? e como essa questão se relaciona com antônio e demais personagens. em linhas gerais, ao contrário das pessoas que lutaram contra a ditadura salazarista, o bom fascista aplica-se aos portugueses que se omitiram ou até mesmo ajudaram ao regime em nome da sobrevivência pessoal e da família.

finalmente, seria inaceitável concluir o comentário, sem mencionar a instigante máquina de fazer espanhóis. ela reporta a perda identitária e surge durante uma conversa entre os moradores do asilo: ?portugal ainda é uma máquina de fazer espanhóis. é verdade, quem de nós, ao menos uma vez na vida, não lamentou já o facto de sermos independentes. quem, mais do que isso até, não desejou que a espanha nos reconquistasse, desta vez para sempre e para salários melhores?.

não sou nada.
nunca serei nada.
não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim
todos os sonhos do mundo...
(tabacaria, fernando pessoa)

nota: nova edição com interessante prefácio de caetano veloso. não deixe para trás.
comentários(0)comente



FM 28/02/2020

Incomodo
Não digo que este tenha sido o melhor ou o pior livro que eu tenha lido até hoje.
Mas eu não consigo me recordar de algo que tenha me causado tanto incomodo, angustia e melancolia, como a obra de Valter Hugo Mãe. Talvez , Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, a sensação de incomodo que o livro provoca.
É fácil indentificar nos diálogos , in
ternos, do Sr Silva, que provavelmente já vivemos em nosso âmago, tudo gira em torno do tempo, e assim como cada um dos indivíduos desse mundo, os indivíduos de A máquina de Fazer Espanhóis, buscam aquilo que seja plausível "a o seu tempo", e não mais aquilo que os fez chegar até aqui ou aquilo que vira depois.
Compreender essa mensagem, é algo que depende do que se viveu até o presente momento da vida, não apenas dos personagens, mas também de cada um dos leitores.
Bia França 05/01/2021minha estante
Obrigada pelo comentário, vou lê-lo em outra oportunidade. Não é o momento, em plena quarentena, de mergulhar em algo tão incomodo.




Bárbara 31/12/2020

Um poema sobre a solidão
Inicio esta resenha destacando o título do livro e o nome do autor, ambos grafados em letras minúsculas, por opção mesmo do autor, numa ideia magistral de aproximar a escrita da oralidade, compondo a "tetralogia das minúsculas". Durante toda a obra, não há uma letra maiúscula. Confuso? Um pouco, para quem não esperava encontrar tal forma de escrita. Todavia, com o avançar das primeiras páginas, a leitura passa a ser dinâmica e, sinceramente, isso não me atrapalhou. Isso será assunto de um post em breve, fiquem de olho!

Logo no início, conhecemos o Antonio Silva, um senhor de 84 anos que passa pela triste situação de perder sua esposa, com quem era casado há quase 50 anos. De uma hora para outra, além da dor da perda do amor de toda uma vida, foi levado (diga-se, deixado) num asilo, o "Lar da Feliz Idade", munido apenas de uma sacolinha e suas memórias.

O texto é um verdadeiro poema do início ao fim. Melancolia, tristeza, revolta, luto são temas recorrentes na escrita, com diálogos espetaculares que nos levam a inúmeras reflexões sobre a vida. Instalado num quarto com grades na janela, a teimosia de não querer ter mais alegrias na vida que lhe resta (pois lhe falta Laura, e isso é muita coisa) faz com que esse senhor seja visto como chato ou, como o próprio autor chama, "casmurro". Todavia, a convivência com pessoas da mesma idade - com histórias de vida diferentes e tortuosas quanto a dele - levam o senhor Silva a ter amizade com alguns personagens, como o senhor Pereira, o Silva da Europa, o centenário Esteves, entre outros.

É uma obra tocante, que trata de temas como abandono, morte, memória, solidão, nossas próprias omissões, mas também amizades e amor. Fala também do período da ditadura de Salazar (que vigorou em Portugal de 1932 a 1974), e de como o país foi afetado. É um livro reflexivo, em que a maior lição talvez seja a de que nunca deixamos de aprender, por mais velhos que sejamos, a vida sempre ensina, e que sempre vale a pena ser vivida. E, ainda que com o coração repleto de saudades, há sempre espaço para o novo, para o aprender.

site: http://www.instagram.com/leiturasdebarbara
comentários(0)comente



Paty 28/01/2014

Em toda a narrativa o que mais me emocionou foi a língua. Foi o brincar com as palavras, foram os sons das palavras, a maneira de escrever como se fala, como ouvimos, como a gente da rua se expressa, cheia de poesia embutida nas sílabas cantadas. Este sim foi, acima de tudo, o meu maior prazer nessa leitura.
Igor Jota 28/01/2014minha estante
Você descreveu suas impressões de uma forma tão cativante que somente me resta colocar na pilha de futuras aquisições!


Arsenio Meira 28/01/2014minha estante
Perfeito. E eu, que gastei sei lá quantos parágrafos, e não consegui dizer o essencial, kkkk. É sério. És a nossa Graciliano Ramos das resenhas, Leminski, e por aí vai. (Graciliano dizia em dois parágrafos o que milhares de escritores só conseguem dizer com duas páginas.)




day t 26/04/2021

Forte, bonito, denso, triste
Acho que essas quatro palavras resumem bem tudo o que senti lendo A máquina de fazer espanhóis. Um livro que fala sobre velhice, abandono, amizade, sociabilidade, medo, remorsos, família, posicionamento político diante da vida... valter hugo mãe tem um poder muito massa de fazer a gente sentir o que o personagem narrador sente. Há angústia, a raiva, mas também um poderoso reconhecimento de que a vida não para, e que há sempre a oportunidade de descobrir coisas novas, amizades novas. Fazer uma limonada com os limões da vida. O autor conseguiu me teletransportar pra um asilo, pro ritmo, pra vivência de idosos que tem essa experiência. Foi assim com este livro e tb com O paraíso são os outros, onde consegui ver pelo olhar de uma menina de 7 anos.
Me vieram várias reflexões sobre vida, morte, adoecimento, envelhecimento... pensei muito sobre minha mãe que está entrando nessa jornada da vida. Não foi um livro de fácil leitura, apesar da fluidez. É um livro denso, sensível, desses que a gente precisa de um tempo pra respirar e digerir.
Sobre a escrita: ser uma leitora e fã de Saramago fez com que o terreno estivesse mais plano, hahaha mas num primeiro contato talvez outras pessoas estranhem.
Enfim, livro ótimo. Curti demais e recomendo!!!
comentários(0)comente



babi 16/03/2021

escrita gostosa
já acabei há 2 dias e esqueci de atualizar aqui. foi meu primeiro contato com vhm e já comprei mais 3 livros, ansiosa!
natalianvn 16/03/2021minha estante
???????




Anica 09/07/2011

a máquina de fazer espanhóis (valter hugo mãe)
Você já se apaixonou à primeira página? Comigo isso não acontece muito frequentemente, sou chata e preciso lá de umas 20 páginas para esse tipo de coisa. Mas eis que tinha em mãos a máquina de fazer espanhóis do português valter hugo mãe (é gente, é tudo assim em minúsculas mesmo), e aconteceu. Lendo as primeiras frases, fui completamente tragada pela correnteza de seus longos parágrafos, com o coração até batendo mais forte ao passar em alguns períodos (e isso não é figura de linguagem). “Há alguém por aí que pensa algumas coisas que eu também penso, mas consegue colocar em palavras com uma genialidade sem igual”, passa por minha cabeça enquanto vou virando as páginas. Pronto, me apaixonei.

Já tinha ouvido falar em valter hugo mãe, apontado como um dos grandes nomes da literatura portuguesa do momento. Mas eu realmente não fazia ideia de que sua prosa teria tanta força, tanto esteticamente quando do ponto de vista dos temas que aborda (e como o faz). A comparação com José Saramago (outro lusitano) é inevitável, mas há de se fazê-la considerando como algo positivo. Não trata-se de autor sem talento querendo copiar um grande mestre. valter hugo mãe tem influência clara, mas estilo próprio.

O enredo em si é bastante simples. Somos apresentados a um senhor de seus 80 e poucos anos, um silva como qualquer outro. No início da narrativa, temos essa personagem enfrentando um dos momentos mais trágicos de sua vida, a perda da esposa, laura. Com isso, ele é levado a um asilo, onde passa a se relacionar com outros silvas e senhores de idade, vivendo dia após dia uma vida sem laura. A beleza do argumento de hugo mãe reside numa espécie de não-ação do protagonista, que em grande parte da narrativa está apenas a relatar conversas com médico e colegas.

Mas é nessas conversas que a obra ganha a atenção do leitor. Tudo é debatido ali, mesclado a falas e pensamentos, e de certa forma sempre tende à política. Mas especificamente à Portugal, como se Portugal fosse um velhinho em um asilo, em parte resignado com a ideia de que nada mudará em sua condição, por outro lado ansiando e esperando por algo novo nessa. O que é bem ilustrado por este trecho:

somos um país de cidadãos não praticantes. ainda somos um país de gente que se abstém. como os que dizem que são católicos mas não fazem nada do que um católico tem para fazer, não comungam, não rezam e não param de pecar.

E o curioso é o quanto disso se aplica ao nosso país, ao Brasil. E talvez por conta disso não seja necessário ser um especialista em história de Portugal para acompanhar o raciocínio que hugo mãe desenvolve, especialmente quando aborda o período do Estado Novo (mas fica o aviso: dá muita vontade de pesquisar sobre isso após a leitura do livro) ou quando mostra o sentimento de inferioridade que o português tem se comparado com os espanhóis, que de certa forma é o que dá título para o livro. Por conta dessas semelhanças, a base da crítica de hugo mãe serve para nós também, e acaba inclusive levantando uma questão para o leitor brasileiro, a de como somos parecidos quando nos achamos tão diferentes.

Sobre a obra confesso que fiquei com a dúvida do motivo pelo qual um único capítulo (por acaso, o que leva o mesmo título do romance) sai do esquema de minúsculas do autor e aparece com maiúsculas. Não sei se é algo da diagramação do texto, se no original é assim, e consigo pensar menos ainda em um sentido pelo qual isso acontece nesse momento. Não que isso afete qualquer coisa na obra, mas quando você se apaixona, todo detalhe conta, observamos o texto como sob uma lupa tentando extrair o máximo possível dele, por isso fica o mistério.

De qualquer modo, é simplesmente genial e imperdível, especialmente para aqueles de espírito questionador (e vá lá, para quem ficou meio órfão de Saramago). É sempre reconfortante saber que ainda existem grandes obras por vir, que ainda há muita coisa pela qual se encantar. valter hugo mãe com a máquina de fazer espanhóis entrou sem dúvidas na lista dos favoritos.

Em tempo: ilustração da capa e introdução por Lourenço Mutarelli.
Silvio 13/07/2011minha estante
Anica,
Gostei da resenha.
Também fiquei intrigado com as letras maiúsculas neste capítulo (na verdade há letras maiúsculas em 02 capítulos, pelo menos na versão portuguesa que eu li: são os dois capítulos em que aparecem os dois policiais).
Estou reproduzindo abaixo trecho de uma entrevista feita com o valter durante a FLIP:
P:"E por que um único capítulo de a máquina de fazer espanhois é escrito em maiúsculas e com narrador em terceira pessoa?
R:"Eu roubei dois personagens de Francisco Xavier Viegas, dois policiais. E naquela situação do livro, com aqueles diálogos, vi que deveria usar o jeito comum. Mas no meu próximo romance vou usar letra maiúscula, meu nome estará em maiúscula, vocês vão achar que eu virei um escritor normal."


Anica 13/07/2011minha estante
Puxa, Sarruda, obrigada por colocar aqui a explicação que você encontrou. E obrigada pelo elogio ;D


Naiana Carvalho 19/12/2012minha estante
Acabei de comprar às cegas. Sua resenha me incentivou muito. Já estava cheia de curiosidade, agora entao...


Goretti 17/07/2019minha estante
Sim, as maiúsculas aparecem em capítulos onde aparecem 'autoridades' como policiais e a ditadura. Ele falou sobre isso na FliAraxá.




Bebela 26/01/2021

Tocante
Valter Hugo Mãe e sua sensibilidade nos mostra o universo de um asilo. A forma que ele descreve as vidas e as relações ali criadas nos fazem pensar.

Me emocionei muito nessa parte: ?Precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia?


Sempre vale muito a pena ler Valter Hugo Mãe.
comentários(0)comente



Vaz 27/10/2020

Confesso que este foi um dos livros que comprei pela capa, a bela imagem distorcida dos pássaros funestos.
Acompanhamos senhor silva lidando com a perda de sua amada esposa laura, sua raiva e dor, enquanto é obrigado a acostumar-se com sua nova vida em um lar para idosos onde não pediu para estar.
Os residentes do Feliz Idade têm em comum o passado vivido na ditadura de Salazar, e agora vivem novamente uma anulação de sua individualidade neste ambiente opressor altamente ordenado e controlado – impedidos de manter muitos de seus objetos pessoais, parte de sua memória afetiva, além de cessados do contato com o mundo e pessoas que antes viam diariamente –, onde as mortes também são superficialmente investigadas e logo esquecida ao ocupar da vaga por novo inquilino; apesar, sua convivência ouvindo uns aos outros os permite buscar sentido para continuar sua existência no presente.
O protagonista autoproclama-se um “bom homem”, defensor de um humanismo despolitizado que para proteção de sua família adota uma passividade não questionadora contra o Estado Novo (regime fascista de Salazar). Mas ao relembrar sua vida percebe o discurso contraditório, pois sua conivência fez dele na verdade um “bom fascista” com a noção de que os indivíduos não se percebem como autores do que ocorre em sociedade, bem como de suas próprias ações; sendo assim assombrado por fantasmas de culpa achando-se covarde na época, agora angustiado desejando esquecer tudo.

A obra vem por meio de alegorias relembrar um período da história portuguesa. Ao compartilhar suas memórias os moradores do Feliz Idade discutem subjetivamente a memória coletiva de Portugal do período do regime salazarista; a existência de muitos desejando subordinação à Espanha, em vista da situação precária e caótica pós-Salazar, desejando ser espanhóis pelas melhores condições do país vizinho; seu deslocamento dentro do bloco europeu.
À parte da aula de história Valter Hugo Mãe – que apresenta suas personagens sem inicial maiúscula, expressando inferioridade – mostra a figura do idoso apartado da sociedade, seu ponto de vista; mantendo a obra relevante e interessante por uma segunda ótica.
comentários(0)comente



Arthur 27/01/2021

Envelhecimento e identidade
Primeiro de tudo, a escrita de Valter Hugo Mãe é muito boa! Já tinha tido essa impressão em "As mais belas coisas do mundo", e agora, com um texto maior, isso se confirmou.
De certa forma, o que identifico como a principal temática de "A máquina de fazer espanhóis" também está presente em "As mais belas coisas do mundo": a construção da identidade e o envelhecimento. Claro, em perspectivas diferentes.
Na trajetória já de fim de vida do protagonista Silva, constatamos como aquela pessoa foi "forjada", através de quais experiências ela foi obtendo a sua identidade - tanto no âmbito pessoal, quanto a sua identidade nacional - e como a velhice também é fase de construção, e não apenas de memórias. Essa identidade passa desde experiências bem pessoais, a eventos políticos, reforçados por referências diretas à cultura nacional portuguesa - que chegam, em alguns casos, a interagir com os personagens.
Sobre o título do livro, acho que só lendo a obra para entendê-lo.
Gostei!
comentários(0)comente



Vanessa.Benko 17/05/2020

Carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas
Um livro que te coloca numa realidade única e sincera: velhice e consequências da solidão. Com certeza é uma leitura que agrega demais, apesar de achar cansativa - daquelas que não flui muito. Eu acredito que esse único ponto negativo se deve, no meu caso, pela forma de escrita: visualmente me cansou pela estética de não possuir letras maiúsculas e sem a pontuação que estamos acostumados para diálogos. Isso torna a leitura confusa e pesada.
Mas nada disso tirou o brilho que foi me transportar para a consciência de um idoso, misturando passado e presente, já sem se preocupar com o futuro. Um choque de realidade.
Fiquei encantada com o sentimento sincero de amor. Assustada com os delírios e seus significados. Alegre com as ironias e piadas. Triste com as dores das perdas. Impactada com as decisões repentinas. Reconfortada com a ideia de que não importa a idade, se formos nós mesmos podemos conquistar amigos leais em qualquer situação.
O personagem vai do presente ao passado em 3 segundos de memória - é aí que percebemos como nossa mente pode ser confusa e ao mesmo tempo que não é errado mudar de ideia. Erros do passado já não são mais erros. A consciência pode nos julgar, mas também pode nos libertar.
Por diversas vezes me peguei com um sorriso bobo estampado no rosto a medida que ia lendo. Aprendi que não há limite de idade para ser feliz, mesmo que você tenha que resignificar o conceito de felicidade.
comentários(0)comente



Fer Paimel 13/05/2021

Muito bom!
Valter Hugo Mãe e sua escrita incrível! Esse autor transmite tanta empatia... ele descreve emoções de um jeito muito belo, bem acessível e emocionante.
Nas suas narrativas, ele geralmente descreve personagens ainda crianças, mas neste livro, sua atenção recaiu sobre os idosos e sobre as diferentes formas de envelhecer.
Gostei muito, super recomendo!
comentários(0)comente



232 encontrados | exibindo 1 a 16
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |