A máquina de fazer espanhóis

A máquina de fazer espanhóis Valter Hugo Mãe
Valter Hugo Mãe




Resenhas - A Máquina de Fazer Espanhóis


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Arsenio Meira 20/04/2013

O protagonista deste romance genial é António Jorge da Silva. Com 84 anos de idade, Silva perde sua mulher, Laura, e eis que a engrenagem lírica que norteia o livro surge em sua plenitude.

A morte não era esperada, apesar da idade avançada de sau companheira, e para aumentar ainda mais tristeza, Silva pensava ou assim desejava não precisar ter que viver um dia sequer sem a esposa depois de passarem juntos 48 anos, terem dois filhos, terem sobrevivido tranquilamente os dias em que Portugal vivia sob a ditadura salazarian. Juntos, haviam sobrevivido, e juntos, pensava o nosso querido Silva, haveriam de morrer.

A perda foi dolorosa, sentida com indignação, e em meio a essa melancolia toda, o velho é internado em um lar de idosos em Portugal.

Silva pouco se esforça para se adaptar à rotina do lar e conhecer os outros internos, muito menos abandonar a amargura sentida pela morte da esposa. Falta-lhe disposição para passar a velhice a rememorar bons momentos da vida ou criar novos sem Laura, que esteve com ele por toda a vida, nada mais tinha importância.

No lugar da sabedoria e do respeito que se aplica aos idosos, Silva enxerga o declínio da saúde e a perda das faculdades mentais à noite, ele imagina corvos e outros pássaros negros a atacarem-lhe na cama, atormentando-o. Mas aos poucos, ele passa a construir amizades com alguns dos outros internos, como o senhor pereira, e com médicos e enfermeiros, como Américo e doutor Bernardo.

Os dias no lar se passam assim, observando uns aos outros, adivinhando-lhes as histórias e lembrando as suas próprias, analisando a condição de velho, esperando em um local específico a morte iminente. Mas silva, jamais esquecido da dor causada pela morte de laura, desfia páginas e mais páginas não de lamentação, mas de consciência da perda e da injustiça de ter que se manter vivo quando preferiria não estar:


com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutria pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder.


Dentro da feliz idade, silva e seus companheiros conhecem também o Esteves, o mais velho do asilo, prestes a completar 100 anos e personagem de um momento histórico da literatura de Portugal. Diz-se, e eles acreditam, que Esteves é o homem sem metafísica do genial poema de Fernando Pessoa (TABACARIA), causando admiração dos demais por ter convivido na mesma época, e por algumas vezes no mesmo lugar, que o consagrado poeta português frequentava.

A presença destes homens no asilo leva-os a um caminho de reflexões sobre a velhice, o que lhes resta no fim da vida e o que viveram nos tempos críticos da política portuguesa. Embora todo o livro tenha uma carga melancólica marcada pela morte e o medo de morrer tanto no presente quanto no passado narrado por silva -, as conversas desses velhos são animadas, repletas de risos, como se fossem jovens rapazes a praticar traquinagens escondidos. Riam-se da Dona Leopoldina e Dona Marta, duas velhas medrosas e malcriadas do asilo, dos médicos e enfermeiros, da fé de alguns na igreja que silva deixou de ter quando seu primeiro filho morreu no parto e de si mesmos.

"A máquina de fazer espanhóis" é uma leitura emocionante, e uma das suas virtudes é não arrancar do leitor lágrimas ou pena; o enredo jamais parte para o caminho piegas do sentimentalismo useiro e vezeiro em situações do mesmo naipe. É uma emoção fincada na razão, na lucidez com que Silva detalha a sua inconformidade com a morte de laura e sua permanência na memória, como lida com a obrigação de continuar vivo e superar a perda e um passado que lhe marcou como cidadão.

E toda a técnica narrativa de Valter Hugo Mãe só tem a contribuir para a experiência de leitura, a falta de exclamações e interrogações, por exemplo, levam o leitor a se conectar ainda mais com o narrador para compreender a intensidade daquilo que ele narra. Quem virou fã do autor tem sua admiração justificada, pois o romance vale mais do que 5 estrelas.
Daniel 14/05/2013minha estante
Um livro de fato extraordinário. E tantas boas resenhas por aqui que desisti de escrever a minha, seria redundante. Só gostaria de destacar (também já fizeram isso) a caprichada edição da Cosac Naif: os abutres que tanto assombram a consciência do narrador encontraram forma estilizada na capa pelas mãos de Lourenço Mutarelli, que também assina a excelente sinopse na "orelha" da capa.


Arsenio Meira 14/05/2013minha estante
É isso aí, Daniel. A Cosac Naif capricha mesmo. Salvo engano, até comentei a respeito de uma determinada observação que você fez; acho que foi sobre a Rocco, que - não raro - "entrega" a essência dos livros que publica nas "orelhas", repletas de spoilers e etc. Ao contrário disso, como vc bem notou, a Cosac Naif imprime arte à obra de arte, neste caso literária.


sonia 31/10/2013minha estante
Bem, graças ao comentário do Daniel notei que a capa é feita de abutres estilizados - o que eu estava vendo nela eram naurônios...acreditem ou não!


Arsenio Meira 31/10/2013minha estante
Oi Sonia,
Acredito. Eu também não havia notado, rsrs... Mas o Daniel não só captou, como revelou a autoria, do Lourenço Mutarelli, cuja obra literária ainda não conheço, mas pretendo conhecer.




Paty 28/01/2014

Em toda a narrativa o que mais me emocionou foi a língua. Foi o brincar com as palavras, foram os sons das palavras, a maneira de escrever como se fala, como ouvimos, como a gente da rua se expressa, cheia de poesia embutida nas sílabas cantadas. Este sim foi, acima de tudo, o meu maior prazer nessa leitura.
Igor Jota 28/01/2014minha estante
Você descreveu suas impressões de uma forma tão cativante que somente me resta colocar na pilha de futuras aquisições!


Arsenio Meira 28/01/2014minha estante
Perfeito. E eu, que gastei sei lá quantos parágrafos, e não consegui dizer o essencial, kkkk. É sério. És a nossa Graciliano Ramos das resenhas, Leminski, e por aí vai. (Graciliano dizia em dois parágrafos o que milhares de escritores só conseguem dizer com duas páginas.)




Anica 09/07/2011

a máquina de fazer espanhóis (valter hugo mãe)
Você já se apaixonou à primeira página? Comigo isso não acontece muito frequentemente, sou chata e preciso lá de umas 20 páginas para esse tipo de coisa. Mas eis que tinha em mãos a máquina de fazer espanhóis do português valter hugo mãe (é gente, é tudo assim em minúsculas mesmo), e aconteceu. Lendo as primeiras frases, fui completamente tragada pela correnteza de seus longos parágrafos, com o coração até batendo mais forte ao passar em alguns períodos (e isso não é figura de linguagem). “Há alguém por aí que pensa algumas coisas que eu também penso, mas consegue colocar em palavras com uma genialidade sem igual”, passa por minha cabeça enquanto vou virando as páginas. Pronto, me apaixonei.

Já tinha ouvido falar em valter hugo mãe, apontado como um dos grandes nomes da literatura portuguesa do momento. Mas eu realmente não fazia ideia de que sua prosa teria tanta força, tanto esteticamente quando do ponto de vista dos temas que aborda (e como o faz). A comparação com José Saramago (outro lusitano) é inevitável, mas há de se fazê-la considerando como algo positivo. Não trata-se de autor sem talento querendo copiar um grande mestre. valter hugo mãe tem influência clara, mas estilo próprio.

O enredo em si é bastante simples. Somos apresentados a um senhor de seus 80 e poucos anos, um silva como qualquer outro. No início da narrativa, temos essa personagem enfrentando um dos momentos mais trágicos de sua vida, a perda da esposa, laura. Com isso, ele é levado a um asilo, onde passa a se relacionar com outros silvas e senhores de idade, vivendo dia após dia uma vida sem laura. A beleza do argumento de hugo mãe reside numa espécie de não-ação do protagonista, que em grande parte da narrativa está apenas a relatar conversas com médico e colegas.

Mas é nessas conversas que a obra ganha a atenção do leitor. Tudo é debatido ali, mesclado a falas e pensamentos, e de certa forma sempre tende à política. Mas especificamente à Portugal, como se Portugal fosse um velhinho em um asilo, em parte resignado com a ideia de que nada mudará em sua condição, por outro lado ansiando e esperando por algo novo nessa. O que é bem ilustrado por este trecho:

somos um país de cidadãos não praticantes. ainda somos um país de gente que se abstém. como os que dizem que são católicos mas não fazem nada do que um católico tem para fazer, não comungam, não rezam e não param de pecar.

E o curioso é o quanto disso se aplica ao nosso país, ao Brasil. E talvez por conta disso não seja necessário ser um especialista em história de Portugal para acompanhar o raciocínio que hugo mãe desenvolve, especialmente quando aborda o período do Estado Novo (mas fica o aviso: dá muita vontade de pesquisar sobre isso após a leitura do livro) ou quando mostra o sentimento de inferioridade que o português tem se comparado com os espanhóis, que de certa forma é o que dá título para o livro. Por conta dessas semelhanças, a base da crítica de hugo mãe serve para nós também, e acaba inclusive levantando uma questão para o leitor brasileiro, a de como somos parecidos quando nos achamos tão diferentes.

Sobre a obra confesso que fiquei com a dúvida do motivo pelo qual um único capítulo (por acaso, o que leva o mesmo título do romance) sai do esquema de minúsculas do autor e aparece com maiúsculas. Não sei se é algo da diagramação do texto, se no original é assim, e consigo pensar menos ainda em um sentido pelo qual isso acontece nesse momento. Não que isso afete qualquer coisa na obra, mas quando você se apaixona, todo detalhe conta, observamos o texto como sob uma lupa tentando extrair o máximo possível dele, por isso fica o mistério.

De qualquer modo, é simplesmente genial e imperdível, especialmente para aqueles de espírito questionador (e vá lá, para quem ficou meio órfão de Saramago). É sempre reconfortante saber que ainda existem grandes obras por vir, que ainda há muita coisa pela qual se encantar. valter hugo mãe com a máquina de fazer espanhóis entrou sem dúvidas na lista dos favoritos.

Em tempo: ilustração da capa e introdução por Lourenço Mutarelli.
Silvio 13/07/2011minha estante
Anica,
Gostei da resenha.
Também fiquei intrigado com as letras maiúsculas neste capítulo (na verdade há letras maiúsculas em 02 capítulos, pelo menos na versão portuguesa que eu li: são os dois capítulos em que aparecem os dois policiais).
Estou reproduzindo abaixo trecho de uma entrevista feita com o valter durante a FLIP:
P:"E por que um único capítulo de a máquina de fazer espanhois é escrito em maiúsculas e com narrador em terceira pessoa?
R:"Eu roubei dois personagens de Francisco Xavier Viegas, dois policiais. E naquela situação do livro, com aqueles diálogos, vi que deveria usar o jeito comum. Mas no meu próximo romance vou usar letra maiúscula, meu nome estará em maiúscula, vocês vão achar que eu virei um escritor normal."


Anica 13/07/2011minha estante
Puxa, Sarruda, obrigada por colocar aqui a explicação que você encontrou. E obrigada pelo elogio ;D


Naiana 19/12/2012minha estante
Acabei de comprar às cegas. Sua resenha me incentivou muito. Já estava cheia de curiosidade, agora entao...


Goretti 17/07/2019minha estante
Sim, as maiúsculas aparecem em capítulos onde aparecem 'autoridades' como policiais e a ditadura. Ele falou sobre isso na FliAraxá.




Ladyce 08/01/2013

Música aos meus ouvidos
Dois preconceitos acabaram por retardar a minha leitura de A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS de Valter Hugo Mãe. O primeiro preconceito tem a ver com a falta de letras maiúsculas, uma complicação textual que continuo a achar desnecessária e um tanto marqueteira. Depois de ver uma entrevista com o autor, na época em que ele veio à FLIP, fiquei convencida de que era isso mesmo que se passava, e deixei o livro de lado. [Folgo em saber que Valter Hugo Mãe já deixou de lado este pequeno e esdrúxulo requisito para suas obras]. O outro preconceito é mais sutil e não menos importante: não me afino muito com leituras cujas narrativas pendem para fluxo de consciência. Sim, sim, sei que grandes obras da literatura moderna usam desse artífice para narrar, mas é uma questão de escolha pessoal minha, de afinidade.

Dito isso, venho reconhecer que A máquina de fazer espanhóis, que ganhou o prêmio José Saramago, em 2007, é um dos textos mais criativos com que me deparei nos últimos anos. Ostensivamente o assunto que provoca as ponderações -- sobre a vida, o país, a história, o Benfica, futebol, maneira de viver e de morrer e todos os demais questionamentos do dia a dia da vida de qualquer cabeça pensante -- é trazido para a arena de debate interno, do pensamento analítico, por um senhor de oitenta e tantos anos que acaba de ser internado num asilo para idosos. São poucos os livros que conheço que abordam o assunto da velhice, da memória, da decrepitude, com tanta energia, simpatia e realismo. Bernice Rubens, autora de um excelente romance sobre o tema -- The Waiting Game-- com o qual ganhou o Booker Prize em 1993, tem em comum com Valter Hugo Mãe o fino senso de humor. Já Leite Derramado, de Chico Buarque , que ganhou o prêmio Jabuti de 2010, que se desenvolve a partir de um tema semelhante, não consegue, a meu ver, narrativa tão sensível e emotiva quanto Valter Hugo Mãe atinge nos seus momentos mais poéticos.

A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS se impõe então no universo literário lusófono como uma bela homenagem aos nossos anciãos, onde a tão conhecida melancolia portuguesa é combinada de forma sutil e inesperada com uma boa dose de humor e de realismo. Valter Hugo Mãe alerta que nem todos os velhos são iguais. E mostra como todos são tratados como se fossem iguais, como crianças. Nosso mundo vê os velhos como tendo um pouco de poetas, de loucos, de fantasiosos, de irresponsáveis. A sociedade, a família, os profissionais de assistência social, enfermeiros, todos os tratam como se a caduquice fosse generalizada e talvez até contagiante. Com essa narrativa somos requisitados a pensar nos velhos que conhecemos: pais, mães, avós, tios. E temos que admitir que também nos comportamos de maneira análoga. Quantas vezes não nos pegamos em conversa jogada fora, na hora do cafezinho, dizendo que fulano que passou dos 80 ainda está bem, ainda pega ônibus, ainda toma conta de suas contas bancárias, ainda vota. Como se o normal fosse o contrário; como se a decrepitude se estabelecesse inevitavelmente em todos, a partir de uma certa data.

Surpreendente é a forma poética de apresentar as diferenças entre uns e outros no asilo. Às vezes é a ternura que embala certas situações: “a dona glória do linho parecia um ser delicado, toda candura e menina. tinha uma pouca experiência do amor e não aguentava a timidez de estar a ser cortejada por um garboso doutor em arte antiga. a dona glória do linho tinha estado no quarto do anísio dos olhos de luz e apequenara-se entre as estátuas importantes e bem pintadas que ele guardava. achava ela que estava dentro de um pedaço de museu, assim preciosa e maior do que o tempo de uma vida, porque era um pedaço de coisas que tinham de ficar para sempre como património de toda gente, mais preciosas do que toda gente.”

Surpreendente também é a crítica quando presenciamos a irreverência de quem não tem mais nada a perder: “ser religioso é desenvolver uma mariquice no espírito. um medo pelo que não se vê, como ter medo do escuro porque o bicho-papão pode estar à espreita para nos puxar os cabelos. esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua minisaia erótica tão desadequada à ingenuidade das crianças.”

O jogo entre a lucidez e a fantasia permite que Valter Hugo Mãe se embrenhe por referências políticas, pelos problemas do Portugal moderno, membro da Comunidade Europeia, sem que seu livro se torne um cansativo tratado sócio político. Pelo contrário, ele ilustra e relata fatos sem radicalismos nem pieguices doutrinárias. Seus velhinhos de asilo são ricos de características ímpares que num pulo da imaginação podem se tornar elementos para uma leitura mais alegórica do momento sócio-econômico pelo qual o país passa. Mas em toda a narrativa o que mais me emocionou foi a língua. Foi o português, o brincar com as palavras, foram os sons das palavras, a maneira de escrever como se fala, como ouvimos, como a gente da rua se expressa, cheia de poesia embutida nas sílabas cantadas. Este sim foi, acima de tudo, o meu maior prazer nessa leitura. Prazer que me fez parar e repetir parágrafos, marcar trechos, ler em voz alta. Mesmo com meu sotaque brasileiro o português cantou com Valter Hugo Mãe. Sim, com ele, a língua canta.
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Dirce 18/03/2013

De qualidade indiscutível, porém, mais politico
Fui previamente prevenida de que não iria gostar tanto do livro " A Máquina de Fazer Espanhóis”, como gostei de “O Filho de Mil Homens” (ambos do escritor Valter Hugo Mãe). De fato, embora reconheça ser "A Máquina de Fazer Espanhóis" superior em qualidade literária que "O Filho de Mil Homens”, minha preferência recai sobre o ultimo. O porquê da minha preferência? Porque, apesar de ambos os livros falarem sobre o amor, sobre carências humanas, sobre o abandono, sobre a solidão, achei o amor retratado no "O Filho de Mil Homens" mais agregador, mais abrangente, mais descompromissado.
O amor que transparece pela voz do narrador – o sr. Silva, um senhor de 84 anos, que por forças das circunstâncias, após perder a esposa , a quem ele dedicava um imenso amor, se vê obrigado a residir em uma casa para idosos - Lar da Feliz Idade ( hein?)- é mais individualista, limitado ao núcleo familiar.
E foi esse senhor Silva , que ao ser tomado pela indignação por julgar que fora abandonado pelos seus filhos num “depósito” de idosos desesperançosos, começa a refletir sobre sua existência e sobre sua conduta frente o regime de Salazar – 1926 a 1974 - ( pedi ajuda aos universitários para entender um pouco mais sobre esse período), um Regime que se sustentava no tripé Estado, Família e Religião, quem me mostrou a similaridade na conduta dos povos quando se veem tomados pelo medo. Claro que me refiro ao povo português, e a nós brasileiros, pois, assim como os portugueses canalizaram suas emoções e interesses nos seus ídolos -no jogador Euzébio, na cantora Amália Rodrigues, nós, brasileiros, quando vivíamos sob o julgo da Ditadura, tivemos nossos momentos de sentimentos nacionalistas, como por ocasião da Copa de 70, das vitórias na Fórmula 1 de Emerson Fittipaldi, e nosso maior orgulho era poder dizer que o Pelé, assim como Deus, eram brasileiros, sentimentos que nos mantinham alheios ao assustador momento politico e social, que assolava nossos país.
Mas se por um lado, estufávamos o peito orgulhosos do nosso Pelé, os portugueses tinham, nada mais do menos, que o Fernando Pessoa. E é do poema Tabacaria desse genial poeta, que o genial escritor VHM, retira um companheiro para viver seus últimos anos de vida ao lado do sr. Silva : o Sr. Esteves sem metafísica. E é esse personagem fictício que vai retirar o Sr. Silva da letargia na qual ele se encontrava. A convivência com o Sr. Esteves e com outros idosos residentes no lar, permite ao também fictício ( ou não) Sr. Silva conhecer o amor fraterno e o valor a amizade.
Complementando as impressões e opinião com as quais iniciei este meu comentário, devo dizer, que “A Máquina de Fazer Espanhóis” é uma obra-prima, e daria para discursar muito sobre ele, é um livro que não pode receber menos do que 5 estrelas, e que só não foi para os meus favoritos devido ao impacto que o livro “O Filho de Mil Homens” exerceu sobre mim. “O Filho de Mil Homens” é , na minha opinião, um livro com poder transformador – um daqueles livros que, se alguém me perguntasse como você é?, antes de responder, perguntaria a mim mesma: antes ou depois da leitura de o “O Filho de Mil Homens”. Já, “ A Máquina Fazer Espanhóis”, apesar da sua indiscutível qualidade, achei que é um livro mais político.
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(...)quem não daria uma fortuna para estar num verso de fernando pessoa. pus-me dali para fora e achei que o esteves sem metafísica, com seus quase cem anos, era a melhor nossa senhora de fátima do lar. isso aliviou-me um não sei quê de sentimento que poderia me derrotar naquela tarde. (pag. 53)


não creio que algum dia tenha sido suficientemente amigo de alguém. fui sempre um homem de família, para a família, e o meu raio de acção
esgotava-se essencialmente na minha mulher, nos meus filhos, e nos
meus pais enquanto foram vivos. mas os que não tinham o meu sangue
estariam sempre desclassificados no concurso tão rigoroso dos meus
sentimentos(...) - (pag. 171)
Antonio 26/07/2016minha estante
Oi Dirce. Permita-me discordar do trecho em que você diz que o amor do protagonista-narrador "é mais individualista, limitado ao núcleo familiar". Realmente, isto foi verdade durante o livro inteiro, porém, justo no final do livro, nas últimas páginas, ele muda totalmente sua visão, e exatamente essa transformação dele é um dos elementos mais belos do livro, ele aprender, no finzinho da vida, que a família não é só a sanguínea e sim também a dos afetos, ou, de outra forma: que o amor não está apenas na família biológica. Veja o que ele diz textualmente na pág 244:

(obs: não vou escrever tudo em minúsculas como o Mãe faz porque isso dificulta a leitura e não acho necessário aqui):

"Como se o Esteves fosse nosso, e nós, eu e o Silva da Europa, e o senhor Pereira e mais o Anísio dos olhos de luz, fôssemos uma familia, uma outra família pela qual eu não poderia ter esperado. Unida sem parecenças no sangue, apenas no destino de distribuirmos a solidão uns pelos outros. Distribuída assim, a solidão de cada um entregue ao outro, era tanto quanto família. Era uma irmandade de coração, uma capacidade de se ser leal como nenhuma outra. Estendi a mão ao Silva da Europa, e disse-lhe: e o Américo, o Américo também, que é meu amigo. Nunca eu teria percebido a vulnerabilidade a que um homem chega perante outro. Nunca teria percebido como um estranho nos pode pertencer, fazendo-nos falta. Não era nada esperada aquela constatação de que a família também vinha de fora do sangue, de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas, indistintamente, um respeito e um cuidado pelas pessoas todas" (pag 244).

Este trecho acima foi um dos mais bonitos do livro pra mim.


Dirce 15/08/2016minha estante
Olá tonybon,
Obrigada. Realmente, muito belo o trecho por você mencionado.


Willian 08/03/2017minha estante
Dirce, concordo contigo em número e grau! Adorei "A máquina de fazer espanhóis", mas "O filho de mil homens" (primeiro Valter Hugo Mãe que li) é imbatível para mim - e nem falo em relação aos méritos literários, pois "A máquina..." é indiscutivelmente a obra-prima do autor. O que torna "O filho de mil homens" especial para mim é o amor pela humanidade que as páginas deste livro transbordam.




sonia 31/10/2013

A morte deveria estar presente em nossas meditações diárias - assim viveríamos melhor.
Um Silva, um zé ninguém

Um magistral estudo sobre a velhice – aquela velhice de quem não soube viver, que nada tem a contar, que nada construiu, e, dentro de si, não enxerga nada.
Uma obra que tem de tudo, de reflexão política a humor. Sobre as coisas que acontecem nas casas de repouso, sutis, tocantes, cruéis, o autor mergulhou no tema.
Não gosto – tb não gosto em Saramago – as invnecionices que em nada modificam o texto, como escrever em minúsculas, etc… Escrito da maneira normal o livro não perderia o brilho.
de uma pessoa pequena só se pode esperar covardia, egoismo, medo, maldade – o silva chega mesmo a matar uma velhinha do asilo, e pretende estar sendo assaltado por pesadelos con corvos, os seus demônios interiores, sem dúvida - a dor da perda não leva o personagem à loucura, mas o mergulha em um desespero aniquilador. E, à medida que o tempo passa, ele se dá conta de suas escolhas na vida, políticas, sobretudo.
É visível a influência de Saramago.
Ah, e porque a máquina de fazer espanhóis? Pois, para um povo de ‘caminhos salgados’no dizer do autor, ‘que filho da mãe de erro foi este de proclamar soberanai nos arremedos de uma peninsula?...estávamos bem a falar o castelhano…’

Num tempo em que todos somos bons homens, a culpa tem de atingir os inocentes. – 12
aprender a sobreviver aos dias foi aceitar morrer devagar. – 21
…uma falta grande de amor próprio, como mendigos do que haviam sido – 47
A educação que nos dão em criança tem amarras para uma vida inteira. – 92
Éramos todos livres de pensar as coisas mais atrozes; isso não nos impedia de sermos vistos pela sociedade como bons homens. – 118
Nunca eu teria percebido a vulnerabilidade a que um homem chega…aquela constatação de que a família também vinha de fora do sangue – 244
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Paula 11/01/2013

Passaram-se meses que li esse livro e só agora consigo fazer um comentário. Apesar de não gostar de demorar tanto para escrever uma resenha, esse tempo me foi necessário.
A máquina de fazer espanhóis é extremamente tocante. Aborda um tema temido por todos nós: a inevitável velhice. O romance começa com uma perda e é essa perda que vai ditar os rumos dos capítulos seguintes, mas não pense que é em torno disso que o romance vai girar. A tristeza e a verdade dos personagens de Valter Hugo Mãe são indescritíveis. Emociono-me de lembrar sua forma impecável de descrever os sentimentos. Acho que não me deparei com autor que exprimisse de forma mais delicada e precisa (mesmo sendo extremamente subjetivo) as emoções. Minha dificuldade de escrever algo sobre o livro era justamente essa: Valter Hugo Mãe me rouba as palavras. Não consigo achar uma forma de ilustrar o quão cruelmente verdadeira é a história narrada.
Não pense, por isso, que o livro é maçante ou carregado de tristezas excessivas: o autor sabe dosar isso de maneira que haja espaço pro humor. Sim, eu gargalhei com um romance que aborda a velhice e o processo de decrepitude. Só um autor como Valter é capaz disso sem perder seu objetivo, que é mostrar como chegamos à nossa única certeza na vida.
Não há mais palavras para esse autor. A máquina de fazer espanhóis figura nos meus livros favoritos e se você, leitor, ainda não leu nada do autor, sugiro que corra atrás. Vale muito cada página virada.
Aqui um vídeo sobre a obra: http://www.youtube.com/watch?v=ZVHSfZpeB7M
Dirce 03/03/2013minha estante
OI menininha sensível,
OK. Vocês venceram: você, a Layde e a Anica - vou ler esse livro.
bjs grande.


Paula 09/03/2013minha estante
Fico feliz por também ter te influenciado a essa leitura. Você não vai se arrepender; tudo de valter hugo mãe é incrível.
Beijos, querida :)


Renata CCS 17/10/2013minha estante
Que resenha sedutora! Sem dúvida, um convite à leitura deste livro.




jota 06/10/2012

Fazendo uma obra-prima
Não vou dizer que Valter Hugo Mãe é uma máquina de fazer obras-primas, mas este livro, A Máquina de Fazer Espanhóis, é certamente uma.

A partir de um poema do cultuado Fernando Pessoa (Tabacaria), através de seu heterônimo Álvaro de Campos, Hugo Mãe nos conta a história de António Jorge da Silva.

Silva, um velho barbeiro viúvo (84 anos), está internado num asilo da “feliz idade”, que, apropriadamente (isso é por minha conta) tem vista para um cemitério (não teria graça se fosse para um crematório). Além de nos contar sua história através de episódios nem sempre felizes, é nesse lugar que Silva encontra o personagem que se crê ser o mesmo do poema de Pessoa – o homem “sem metafísica”.

O que isso significa, o que significa ser velho, como se faz espanhóis, porque o livro é escrito com minúsculas (exceto dois capítulos; isso não está explicado – leia, então, o comentário do Sílvio Arruda para a resenha de Anica, em 09/07/2011) e respostas para outras coisas (também perguntas), você encontra no livro de Mãe. E antes de lê-lo (ou depois), conheça a ótima apresentação do livro feita por outro escritor, o brasileiro Lourenço Mutarelli.

Para finalizar: como já li muito Saramago, às vezes me esquecia do Valter e parecia estar lendo um livro dele. Aconteceu comigo, não sei se outras pessoas tiveram a mesma impressão. Como sei que ambos se admiravam – e ambos admiravam Pessoa – fica tudo em casa mesmo. Numa casa portuguesa, com certeza.
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liciahora 14/08/2015

O amor, a amizade e os nossos idosos
Desejei que algum dia alguém sentisse uma saudade desumana de mim - seria a constatação de que fui verdadeiramente amada. Ao mesmo tempo pensei em como superarei a falta absurda das pessoas que mais amo - como demoraria a ser uma saudade benigna. Aprendi que devo ser mais ouvidos para as pessoas idosas, que a amizade e o amor podem surgir de onde menos se espera, e que a angustia do fim, infelizmente, é inevitável - então é preciso amar com urgência.
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Gilberto 03/02/2017

A Máquina de fazer espanhóis – Valter Hugo Mãe
Eu poderia afirmar que a decisão do autor de escrever um livro sem usar letras maiúsculas foi um fator que durante a leitura me cansou muito e por isso não gostei do livro tanto quanto devia. Poderia, mas não direi isso, este é um daqueles casos de livro em que abri, e fui lendo de forma arrastada até chegar ao fim, e quando o fechei, soube que não gostei. Isso não quer dizer que eu não tenha entendido o livro ou estivesse no momento errado para lê-lo, quer dizer simplesmente que eu abri um livro li, e ele não me surpreendeu, divertiu ou me interessou tanto a ponto de eu acreditar que este seja um bom livro.

Em A máquina de fazer espanhóis somos apresentados ao senhor Silva, com 84 anos, e 48 anos de casado, ele repentinamente fica viúvo, e como era de se esperar ele sofre muito com a perda, afinal ele sempre desejou morrer junto com sua mulher, ou ao menos que ele morresse antes dela. Os filhos dele então decidem por interná-lo em um asilo para idosos. Lá o senhor Silva passa a ignorar e evita interagir com os outros hóspedes, e ainda se mantém amargo e melancólico, fazendo observações cáusticas sobre o envelhecimento.

De todos os internos do asilo o mais famoso é o Esteves, que além de ter quase cem anos, os outros internos afirmam que ele é o homem sem metafísica que aparece no poema Tabacaria de Fernando Pessoa. É depois de conhecer o Esteves é que aos poucos o senhor Silva passa a interagir com os outros internos e criar algumas amizades e de certa forma redescobrir a graça de viver.

Das coisas que me irritaram e fizeram a leitura de A máquina de fazer espanhóis ser um livro que eu não gostei: a primeira foi o fato do autor usar uma pontuação toda própria, em especial tirar as maiúsculas, tornou visualmente cansativo a leitura. Segundo, a necessidade do autor de em vários momentos se desviar da trama no presente para narrar sobre política e história de Portugal (não me interesso muito por política, história e guerra dentro de literatura). E por último o tom que Valter Hugo Mãe usa, muitas vezes um tom que mais parece de quem está interessado em passar ensinamentos, do que em quem está interessado em escrever ficção, apesar de ser inegável que quando ele quer escrever cenas de ficção elas podem ser muito interessantes.

A máquina de fazer espanhóis é um daqueles livros de que a maioria das pessoas que conheço leu e gostou, mas comigo não aconteceu isso, eu li achei um livro mediano em alguns momentos e em outros achei um livro chato e cansativo. Espero fazer as pazes com o autor, já que ainda tenho alguns livros dele aqui para ler.

site: https://lerateaexaustao.wordpress.com/2017/02/03/a-maquina-de-fazer-espanhois-valter-hugo-mae/
Matheus Caixeta 03/02/2017minha estante
Apesar do tom negativo da resenha (entendi seus pontos), fiquei bem interessado nele...


Gilberto 03/02/2017minha estante
É como eu tento deixar claro, as minhas resenhas seguem um tom bem pessoal, mas tem muita gente com bom gosto que adorou ele




Aguinaldo 03/09/2011

a máquina de fazer espanhóis
A Cosac Naify edita tão bem seus livros que em geral a primeira vontade é guardá-los, como objetos de culto ou decoração, mas logo lembramos que se trata de um livro, e a função daquele objeto é ser mesmo lido. É muito boa a ilustração da capa, uma imagem do Lourenço Mutarelli. Publicado no calor da última festa literária de Paraty, encontramos em "a máquina de fazer espanhóis" uma narrativa potente, um texto que surpreende o leitor, por sua inventividade e lirismo. O autor, valter hugo mãe, nasceu em Angola, tem quarenta anos, publicou quatro romances (já encomendei um outro seu, "o remorso de baltazar serapião"). Escreve um bocado, mas também se envolve em várias outras atividades artísticas, que vão da música às artes plásticas. Ele grafa todo o livro em caixa baixa. Não sei se os demais livros dele são assim, mas o efeito é curioso. Para o fluxo da narrativa é um achado, de tão simples, mas tão poderoso. Os dizeres dos personagens, o que é factual, a ação, as reviravoltas, brotam todos vívidos no texto, quase nos forçando a ler sempre em voz alta. Ao mesmo tempo há de se pensar que um leitor mais relaxado possa ter dificuldades em acompanhar todas as vozes que povoam seu livro. No início da história encontramos um senhor de seus oitenta e tantos anos que perde a mulher e passa a viver em uma casa de repouso, na companhia de uma centena de outros velhos. A certeza de seu amor e a separação abrupta, o calam e entorpecem. Alternam-se registros fragmentários de suas memórias (a vida com os pais, o casamento, os filhos, as decisões e escolhas) com o entendimento do que acontece na nova rotina. Com o tempo vem a vontade de interagir. Outros sujeitos, companheiros do mesmo destino funesto, dele se aproximam. É como se fossem todos alunos de uma escola infantil que, levados pelos pais nos primeiros dias de aula, demorassem a relaxar e franquear amizades. Tudo que há de intolerável nestes ambientes afloram no livro. Mas valter hugo mãe não precisa descrever os procedimentos médicos e os detalhes da rotina do lugar para alcançar este efeito. É exatamente o contrário. O lugar parece transparente. Só há os personagens e suas conversas. Apenas, vez por outra, o diretor do hospital ou algum agente externo (como uns policiais quando um incêndio suspeito acontece) interferem pontualmente na narrativa. Em geral, só sabemos o que o narrador, o senhor oitentão, fala e pensa, do que vê e sente. A velhice é sobretudo feia, o envelhicimento uma coisa intolerável, mas não se trata de um livro triste. Há nele muito humor e causos interessantes, poesia e ironia também. Interessantes os paralelos entre Esteves e Fernando Pessoa, Leopoldina e Teófilo Cubillas, Enrique e a Espanha, o Silva e a Europa. Claro, pode-se ler o livro como uma alegoria da história de Portugal (principalmente a história atribulada do século XX, da ditadura de Salazar e do terrível processo de descolonização), pois o autor pontua a narrativa com fatos políticos, embates sociais, eventos do futebol e das artes. Mas ao mesmo tempo o livro nos fala de um homem, que sofre e rememora, que mal verbaliza suas culpas mais entranhadas, que se assusta com os fantasmas que povoam suas noites. Como em todo homem há nele a potência das virtudes e também do mal. Por conta dessa ambiguidade "a máquina de fazer espanhóis" é um livro muito humano, muito rico em reflexões. Lembrei de dois livros ao ler este, como se os três fossem aparentados: "Leite derramado", do Chico Buarque (que não gostei muito), e "Homem lento", do J.M. Coetzee (que gostei bastante). E como não pensar no velho Guina, meu pai, senhor ruidoso e alegre, com seus oitenta e seis anos, ainda a me provocar reflexões e idéias, e não ficar feliz por ainda compartilhar o tempo e o espaço com ele? Hooray! Vamos a ver o que o outro livro do valter hugo mãe me conta. [início 21/08/2011 - fim 31/08/2011]
"a máquina de fazer espanhóis", valter hugo mãe, editora Cosac Naify, 1a. edição (2011), brochura 14x23 cm, 256 págs. ISBN:978-85-7503-813-0 [edição original: Alfaguara (Lisboa, Portugal) 2010]
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Renato 25/12/2015

Bom, mas nem tanto
Foi próximo ao final de 2013 que eu comecei a ler “A Máquina de Fazer Espanhóis”. Comprei-o numa promoção da Cosac. Não consegui passar de dez páginas; achei o livro muito, muito cansativo e coloquei-o de lado. Dois anos depois resolvi dar outra chance ao romance do Vitor Hugo Mãe. A leitura fluiu. Me empolguei e me encantei. Mas o encanto não durou até o final...

Antônio Jorge da Silva, barbeiro aposentado, perde a sua querida Laura, companheira de tantos anos. O ancião é levado pela filha a uma casa destinado à idosos(as), onde passa a conviver. O “Sr. Silva”, como é chamado, passa a nutrir sentimentos de revolta para com a filha, pois acha injusto ser largado naquele ambiente. E adquire ódio pelo filho, que sequer compareceu à cerimônia de sepultamento da mãe.

Para completar, decide não manter relação com qualquer pessoa; isola-se no seu mundo, permanece mudo. Até que o contato com outro interno muda essa realidade. Trata-se do “Esteves sem metafísica”, homem que é mencionado pelo poeta Fernando Pessoa no poema “Tabacaria”. O “Sr. Silva” passa a ser um cara comunicativo, interage com o outros presentes ali naquele ambiente. Ele também passa a relembrar de várias situações ocorridas ao longo de sua vida, e também a rever alguns conceitos, inclusive os sentimentos sobre ox filhxs.

Eu particularmente achei a leitura chatíssima depois da metade. Mas li até o fim. Acho que o autor poderia ser mais objetivo em muitas partes. A forma como o livro é narrado – em prosa – e a linguagem utilizada afastam de cara um leitor menos exigente. Mas essa forma de escrita é interessante. Foge dos clichês. No início do livro, o Antônio Silva conversa com o recepcionista do hospital (que também é Silva, e que depois vai parar na mesma casa para idosos) onde a Laura esta internada. A forma como ele expressa o amor que sente pela esposa e da importância dela na sua vida é de uma beleza e ternura formidáveis.

Se você gosta de livros tipo Nicholas Sparks, Jojo Moyes, Lucinda Riley, ou outros autores mais leves, esqueça do Hugo Mãe. Mas também pode ser a oportunidade de você experimentar outro tipo de leitura.
Mariana 09/03/2016minha estante
Ótima resenha!




Samuel (Barba) 19/10/2014

Frases
Essas duas frases são suficientes:
'o amor é uma estupidez intermitente mas universal".
'deus é uma cobiça que temos dentro de nós'.
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Valério 25/01/2016

A beleza do fim
Valter Hugo Mãe não á toa já me cativou no primeiro livro seu que li (O filho de mil homens).
Sua capacidade de não apenas capturar, mas igualmente de expressar o amor em pequenos gestos, impressiona.
Aqui temos um livro escrito pelo autor a imaginar como seria a vida de seu pai, caso não tivesse falecido antes da terceira idade.
O senhor Silva que, aos 84 anos, é colocado em um asilo. O mesmo senhor Silva que até então só havia dedicado cada batida de seu coração à sua família durante a ditadura portuguesa, sem nunca se preocupar em semear amizades.
E, aos 84, é obrigado a conviver diária e maciçamente com estranhos.
O surgimento de novas emoções, novos sentimentos, até então desconhecidos, o levam a ver que a vida é ainda mais do que o que viveu.
O senhor Silva, que achava que sua falecida esposa era mais feliz por se ter ido antes de ter que ser internada em um asilo, começa então a apenar-se da esposa por não ter tido a oportunidade de viver as experiências que então viveu.
A sensibilidade de Valter Hugo Mãe nos coloca dentro da cabeça dos idosos, com seu mundo lento de dores, despreocupação com as grandes bobagens da vida e preocupação com as pequenas coisas importantes da vida.
Pouquíssimos autores novos foram capazes de angariar minha admiração como o fez Valter Hugo Mãe. Já o havia feito com um livro. E a confirmou com outro.
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Rodrigo Pamplona 07/04/2019

Belíssimo, enche o peito de nós (Sem Spoilers)
José Saramago fez muito bem ao comparar a experiência de ler este livro a "assistir a um novo parto da língua portuguesa". Riquíssimas em sensibilidade, as palavras cortejam a poesia e surpreendem por transformarem sentimentos simples em passagens virtuosas carregadas de significado.

Como se isso não bastasse, o livro em si cria um certo sentimento de urgência, não porque um capítulo puxa o outro como em livros de aventura, mas porque é tão belamente escrito que você termina um capítulo já desejando ler o próximo.

Enfim, resumidamente e dentro do conceito de spoiler zero, A Máquina de Fazer Espanhóis é uma narrativa delicada e sensível sobre a vida do Senhor Silva, um português de 84 anos que é forçado a reaprender a viver em um ambiente permeado pela perda e pelo esquecimento. Fala sobre velhice, amizade, sobre o amor, sobre a vida e sobre a dor do abandono. Frequentemente também são lançadas representações de Portugal e da identidade portuguesa aos olhos do leitor, que, diante delas, passa a conhecer uma parte da história daquele país e do que é ser Português. Ecos do passado que retumbam no presente.

Recorrendo ao lirismo e dosando alegria e melancolia com a destreza de um artesão, o autor mantém o enredo bem equilibrado e torna a leitura extremamente agradável. É um daqueles livros em que você se pega lendo a mesma frase duas, três vezes; não porque não as entende, mas porque deseja captar a essência do que está ali.

Com personagens cativantes e excepcionalmente bem construídos, com uma prosa comovente e muito bem estruturada, não faltam passagens, belas ou duras, dignas de suspiros, tão poderosas os seus encantos e tão longos os seus alcances.

Para finalizar, em entrevista dada em visita ao Brasil, Valter contou sobre o seu dilema quando dos últimos dias de José Saramago. Este lhe vinha pedindo que enviasse um exemplar de A Máquina de Fazer Espanhóis. "Ora, eu não poderia mandar para Saramago, aos 86 anos, já muito doente, um livro que falava de um senhor de 84 anos, muito doente". E não enviou. Soube, posteriormente, por Pilar Del Rio, que, não obstante, A Máquina fora o último livro lido por Saramago, que, segundo ela, disse ter vivido um pouco mais para poder terminar a leitura.

Prepare-se para a beleza, caro leitor. Esse livro vai te encher o peito de nós.

Leva 5 de 5 estrelas cadentes.

Passagem interessante (há dezenas delas!):

"Quando dizemos que antigamente é que era bom estamos só a ter saudades, queremos na verdade dizer que antigamente éramos novos, reconhecíamos o mundo como nosso e não tínhamos dores de costas e reumatismo. É uma saudade de nós próprios." (pg 116)
Damares Honnef 11/04/2019minha estante
Bela resenha...fiquei com vontade de ler o livro.




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