Os detetives selvagens

Os detetives selvagens Roberto Bolaño




Resenhas - Os Detetives Selvagens


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Alan 12/10/2020

Simplesmente leia!
Livro sensacional. Difícil fazer uma resenha. Simplesmente leia!
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djoni moraes 06/10/2020

Construindo a literatura latinoamericana
OS DETETIVES SELVAGENS - ROBERTO BOLAÑO

Quem me conhece sabe que eu não perco a oportunidade de enaltecer a literatura hispano-americana. Grande parte desse carinho vem do fato de meu eu-leitor ter sido forjado a partir de leituras de Cortázar, Borges, Mutis, Márquez (e, por que não, Allende e Llosa). Sempre passei de lado da leitura de livros do Bolaño porque, para ser sincero, a curiosidade nunca foi tão grande ao ponto de me tirar da inércia. E que tonto eu fui!

Analisar esta obra indica dividir-nos em mil fragmentos diferentes que nos permitam, assim, observar de mil ângulos diferentes cada um dos temas abordados aqui (e estes são bastante variados: literatura, poesia, sexo e drogas (e rock and roll), revolução, filosofia, política, ditaduras, peregrinação em busca de si próprio, amor, ódio, esperança, medo e loucura.

O livro é dividido em três partes. A primeira e a terceira, narradas em primeira pessoa de forma epistolar/diário com a voz do jovem García Madero, e a segunda parte (sendo esta a maior parte do livro) contada através de vários personagens, que tem (ou eventualmente não) a ver com o enredo principal: a busca pela poetisa realvisceralista Cesárea Tinajero. Na segunda parte do livro, um investigador implícito procura pelo Belano e Ulises Lima, poetas centrais da nossa história. Esta busca acontece nos quatro continentes, e o registro da mesma se dá através das entrevistas a esporádicas testemunhas que o investigador interpola no seu caminho. Nesta parte do livro, o autor tenta conter as pesquisas principais para formar (quase que de uma forma de bildungsroman ou romance de formação - alô Thomas Mann) a narrativa, a linha de tempo totalmente caótica e o caráter de nossos protagonistas.

A busca por Cesárea Tinajero é praticamente uma desculpa para a reflexão crítica sobre a literatura. O que perseguem Lima e Belano, através de Tinajero, é uma das origens da poesia moderna mexicana, representada pelo movimento do “real visceralismo”, uma escola fictícia que graceja sobre os movimentos poéticos vanguardistas no México (e na américa latina). Quando vemos a busca por Belano e Lima, observamos que está construída numa série de crônicas que visa representar os personagens de uma juventude latinoamericana que encontrava-se no seu auge quando os grandes acontecimentos já tinham, enfim, acontecido - as revoluções sociais já tinham fracassado ou tinham se tornado instituições recém criadas, e a poesia vanguardista tinha estagnado.
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“...Segundo ele, os atuais real-visceralistas andavam para trás. Como para trás, perguntei. - Andam de costas, olhando para um ponto mas se afastando dele, em linha reta, rumo ao desconhecido” - Os detetives selvagens.

Um livro que pode ter mil interpretações, que te prende como um romance policial e que se constrói de maneira genial até alcançar um clímax que nem eu, nem você, estamos esperando. Se você é alguém que gosta de um bom “suspense” não-criminal e que gosta de (ou tem interesse em) discutir literatura, esta é uma ótima indicação.
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André Vedder 24/09/2020

Brilhante e original!
Bolaño dá uma aula de narrativa ao trazer um enredo com dezenas de vozes, onde o "personagem" principal da trama é a poesia e o espírito aventureiro que permeia seu enredo. E os verdadeiros “detetives” somos nós, leitores, que aos poucos vamos descobrindo e montando a trajetória dos poetas do chamado “Realismo Visceral”.
Acredito que seja um livro que se torna melhor ainda em uma possível releitura.

"Jacinto dizia enquanto preparava a comida de Franz e passeava pela nossa casa, o que os olhos não veem, o coração não sente, viver na ignorância é quase como viver na felicidade."

"Belano, falei, o cerne da questão é saber se o mal (ou delito, ou o crime, ou como quiser chamar) é casual ou causal. Se for casual, podemos lutar contra ele, é difícil de derrotar, mas há uma possibilidade, mais ou menos como dois boxeadores do mesmo peso. Se é causal, pelo contrário, estamos fodidos. Que deus, se é que ele existe, nos perdoe. Tudo se resumo a isso."
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Paulo 30/08/2020

Interpretamos a vida em momentos de máximo desespero
Este é um livro quase impossível de resenhar e absolutamente impossível de resumir o que é, ao mesmo tempo, incrível e frustrante. Bolano criou uma narrativa que tenta capturar a energia, as personalidades, a juventude e a argamassa que uniu os poetas mexicanos e latino-americanos em meados da década de 70. Parece que ele pegou todas as imagens poéticas, ideias e papéis de todos os poetas mexicanos perdidos durante os últimos 50 anos e os colocou sobre veludo preto para serem examinados. Encontrou poesia nós excessos dos reais visceralistas e em suas confissões semi autobiográficas. Bolano salta de capítulo em capitulo, de cidade em cidade, personagem a personagem e continua reinventado seu romance enquanto o escreve. Bravo!
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Ginete Negro 28/06/2020

Dois poetas extremos e desaparecidos
Dividido em três partes, cuja segunda destoa das demais quanto ao tempo cronológico, é um romance muito bem elaborado. Seus personagens principais são os poetas real-visceralistas Artuto Belano e Ulises Lima, que são como "giramundos", mas que estavam em busca da fundadora do movimento real-visceralista, Cesárea Tinajero, uma poeta desaparecida.

A primeira parte é escrita em moldes de diário, por García Madero, um estudante que ocasionalmente tropeça nas vidas dos dois protagonistas e vai discorrendo sobre vários assuntos, inclusive sobre eles. Somos então apresentados a muitos personagens, poetas marginais, uma família abastada e pessoas desiludidas, garçonetes e prostitutas.

A segunda parte é em estilo epistolar, onde alguém compila vários relatos de pessoas que tiveram contato com os exóticos protagonistas em diversas partes do mundo, num período de trinta anos. E a terceira é a continuação da primeira, e que esclarece a segunda.

Roberto Bolaño era um escritor mesmo de corpo e alma, e um leitor voraz. Belano é seu alter-ego, e vemos muito da vida do próprio Bolaño nele. Assim, mesmo que todos os textos do livro sejam em primeira pessoa, nunca os dois protagonistas se expressam; só acompanhamos suas vidas, seus pensamentos e suas poesias através do relato de outros personagens.

Um calhamaço que não é nada maçante de se ler. Altamente recomendável.
Renato 28/06/2020minha estante
Está em minha lista e é dos que mais estou ansioso para ler!


Ginete Negro 28/06/2020minha estante
Sim. Ele atendeu às minhas expectativas, como 2666. Apesar que 2666 superou expectativas.


Renato 28/06/2020minha estante
Já tive o 2666 em formato digital, no Kindle, mas desisti da leitura, pois decidi comprar o físico. Em breve quero os dois em minha estante.




Ari 23/05/2020

Os detetives selvagens de Roberto Bolaño é um daqueles livros cuja a experimentação narrativa se mescla ao contexto político da ação. Em pleno subúrbio mexicano Arturo Belano, e Ulises Lima, vivem suas paixões intensas. Dentre elas a poesia e a literatura.
Dira 23/05/2020minha estante
Amiga, finalmente já tenho em mãos. O meu encontro com esse lindo vai acontecer ainda neste semestre. To alternando, autores negros, literatura nacional, clássico literário e literatura latina. Um por vez, tem lugar pra todo mundo. Hahahaha


Ari 23/05/2020minha estante
Que lindo! Assim poderemos falar sobre a experiência que é esse livraço. ?




Geian 03/05/2020

Um livro libertino e autêntico
O telos da obra é retratar um renascimento poético com traços biográficos. O livro deve ser dividido em duas partes, sendo a primeira fluida e de uma leitura agradável, na verdade até mesmo envolvente. Já na segunda parte, quando os traços biográficos começam a ser contados em dias como em um diário, a leveza começa a desaparecer. Vale a pena, uma das coisas relevantes é a demonstração do que acontece na aristocracia mexicana: sexo, drogas, brigas, risos etc, etc. É um livro que certamente te apresentará de forma autêntica uma maneira mexicana-libertina de ver o mundo.
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Romeu.Silveira 16/03/2019

entre protagonista e coadjuvante, ou vice-versa
Meu primeiro Bolaño e uma leitura sensacional. É como se o personagem coadjuvante do livro se tornasse o protagonista e os protagonistas virassem coadjuvantes, porque tudo que sabemos sobre eles é através de outras pessoas ou através do coadjuvante, que não é coadjuvante, mas o narrador da primeira e terceira parte do livro e que também não pode ser considerado protagonista, porque na verdade quem é o protagonista da história é o leitor, que é o verdadeiro detetive em busca de desvendar o paradeiro dos dois poetas real-visceralistas. A segunda parte, que é o miolo do livro, na minha opinião pode ser considerado um livro de contos, já que a variedades de histórias e acontecimentos sem qualquer relação com a história é imensa; e isso não é uma crítica, porque a construção de tudo é genial, e diria até, viciante. Acho que sentirei saudades dos personagens do livro.
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Diego Araujo 21/11/2018

A literatura não é inocente
Detetives Selvagens conta sobre os trabalhos de poetas americanos de língua espanhola, em especial Ulisses Lima e Arturo Belano. Publicado em 1998, possui três partes que narram a vida desses dois protagonistas de forma indireta.

A primeira parte do livro consiste no diário de Juan García Madero, aspirante a poeta negligenciado sob pressão familiar. Frequenta uma oficina literária de qualidade duvidosa até conhecer Lima e Belano e o seu movimento visceral-realista, quando também se integra ao grupo.

A segunda parte abrange o período de vinte anos — de 1976 a 1996 — em que reúne relatos narrados pelos mais diversos personagens, todos com alguma relação aos dois poetas. Por fim retoma o diário de García no momento exato de onde parou a primeira parte, na virada do ano para 1976, quando ele e os protagonistas procuram a poetisa precursora do visceral-realismo enquanto fogem de um certo perigo.

Entre citações de sexo, drogas, política e conflitos locais, o livro perdura com citações constantes de obras literárias e do trabalho feito pelos vários personagens envolvidos. De discussões sobre conceitos estruturais de poemas a análise de filme baseado no livro de Stephen King, como exemplos. Vê-se o reflexo do acervo literário do autor com essas menções entre as pessoas criadas em Detetives Selvagens.

O domínio das situações políticas e a discussão aberta de vários assuntos polêmicos na obra é de se impressionar. Descrições explícitas conforme quem as conta podem provocar o leitor. Longe de trazer heróis nas seiscentas páginas do livro, difícil sentir simpatia por personagens problemáticos e de péssimos exemplos, porém ainda com histórias para contar.

Detetives Selvagens aborda a intimidade dos poetas hispano-americanos a níveis muito particulares, sem pudor a ponto de trazer histórias fora do comum sobre os protagonistas. Narrativa longe de ser objetiva, convida o leito a serem os detetives a juntar as peças espalhadas nos relatos e conhecer Ulises Lima e Arturo Belano.

site: https://xpliterario.com.br/xp-leitura/detetives-selvagens/
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Leo 18/09/2018

A realidade é visceral, amigo.
Ontem li um rapaz comentando que derrubou os livros de uma moça; ajudou-a a recolher e então lembrou dos filmes onde grandes paixões nascem assim. Abriu um sorriso e ela, ao notar, comentou algo como: "o que é tão engraçado em derrubar meus livros, babaca?"

E foi embora. O rapaz, resignado, concluiu: a realidade é uma merda.

A tragicômica história tem muito a ver com o livro que, por coincidência, terminei ontem: Os Detetives Selvagens, clássico da literatura chilena escrito por Roberto Bolaño.

A ficção é feita para ser conforto. Esteriótipos de felicidade, sucesso, bem estar, preenchem telas e páginas. O casal feliz, o objetivo cumprido, o bem vencendo o mal, o herói derrotando o vilão. O coração dispara, a barriga gela, ficamos tensos. No final, dá tudo certo, e podemos viver nossas vidas com um sorriso a mais no rosto.

Não em Detetives Selvagens.

A trama gira em torno de um grupo de jovens poetas: os real-visceralistas. Universitários, boêmios, matam aulas em bares ou cafés, conhecendo as drogas e o sexo, alimentando sonhos de viajar pelo mundo. O livro não apresenta qualquer poema real-visceralista. Todavia podemos entendê-lo ele próprio dentro desta definição.

A despeito dos sonhos e boemia, existe uma realidade, dura e visceral, que se impõe aos personagens sem que haja muito a ser feito. Dificuldades de emprego, amores frustrados, impotência sexual, morte, doenças, golpes de Estado, guerras civis. Amizades que se iniciam e acabam, pessoas que vem e vão.

Não há grandes planos, um Destino manifesto que nos garanta a felicidade dos filmes de herói e bandido. A vida segue seu rumo, e este pode acabar em uma estabilidade que te mate de tédio ou, quem sabe, num precipício que te acabe de vez. Não espere redenção, não espere sentido, não espere o sorriso. Nada te garante.

Quando comecei a obra, pensei em se tratar de um romance policial. Enganei-me. Os detetives do título não são personagens do livro: somos nós, leitores. A investigação não é sobre algum crime violento, é da própria realidade e de como é selvagem, fluída, anárquica, muito distante das utopias da juventude e do felizes para sempre antes dos créditos finais.

Detetives Selvagens é uma obra áspera, filosófica e complexa.

Uma das mais prazerosas que li. A sensibilidade e profundidade das diversas personagens, as ideias refinadas, as reflexões plurais e diversas.

Uma das mais dolorosas que li. É duro ter esfregado na cara que seu grande amor não vai acontecer de um esbarrão. Ou que, mesmo que aconteça, este mesmo grande amor pode se tornar um fracasso que passa os dias comendo para engordar e bebendo até a embriaguez.

Afinal, a realidade é selvagem, camarada.
A realidade é visceral.

Não recomendo a ninguém.
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Karlan 29/07/2018

Para quem gosta de metaliteratura
Estrou descobrindo Roberto Bolaño. E adorando. Esse livro o representa, sua geração e suas ideias. Vale a pena. Mas não espere um enredo linear ou fácil. Você, leitor, se torna o detetive.
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Cristiano.Vituri 12/09/2016

O mundo selvagem
Papos cotidianos, roteiros triviais, sexo, assassinato, viagens pelo mundo. Pode parecer mais um história qualquer; mas não! Roberto Bolano, constrói uma barafunda de acontecimentos que prender e surpreende o leitor do começo ao fim.
Sabe aquela conversa de bar? Em Detetives selvagens, ela consegue ganhar sentimento, valor, moral e mesmo que não valha nada, o autor te ponha ali, faz te sentir o cheiro do lugar. Belano e Ulises (poetas, loucos e com parafusos a menos) procuram Césaria, uma ex-escritora desaparecida, para tanto precisam da ajuda de Juan Garcia Madero (o protagonista e narrador da primeira parte). Nesse entremeio se juntarão depoimentos de pessoas que conheceram (de vista ou de cama) os dois poetas.
Seria clichê dizer: "Viajamos ao ler", bla bla bla, porém neste caso é verdade, não apenas geograficamente (claro que tive que pesquisar: deserto de Sonora, México; Catalunha, Angola) mas também historicamente, com citações a Ditadura chilena, revolução mexicana, guerrilhas africanas. Músicos que sequer conhecia: Atahualpa Yupanqui, Cat Stevens (maravilhosos!).
Dá vontade de viver nesse livro.
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Uilians 17/08/2016

Show
livrão em todos os sentidos.
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Gláucia 08/09/2015

Os Detetives Selvagens - Roberto Bolaño
"Publicado em 1998, foi eleito em 2006 o livro chileno mais importante dos últimos 25 anos."
Assim que é apresentado o livro em sua contracapa o que me levou a pensar no que li até então de literatura chilena.
Jamais teria me aventurado sozinha a fazer essa leitura, debatida de forma presencial na parceria do FLEPEV e Os Espanadores. Não quero aqui criticar o livro, apenas falarei (como sempre faço) da minha relação com ele. Que foi sofrida. Muito sofrida.
Nem saberia como resumir o enredo. O livro é enorme e dividido em 3 partes. Na primeira o relato é feito em forma de um diário por um candidato a poeta de 17 anos, interessado na vertente Real Visceralismo, movimento poético liderado por Arturo Belano e Ulises Lima. Os dois partem na busca de uma poetisa do movimento desaparecida, Cesaria Tinajero. A segunda e mais extensa parte é composta por depoimentos de várias pessoas sobre os dois e para mim foi a parte mais sofrida pois se compõe de histórias absurdas, aparentemente sem relação uma com a outra que me levou a perguntar: qual o propósito desse livro? Na terceira parte ( a melhorzinha) voltamos ao diário de Juan García Madero onde teremos finalmente a resolução do misterioso paradeiro de Cesaria.
Certamente deve ser um excelente livro, mas para o tipo certo de leitor que, obviamente não sou eu. O debate foi ótimo e, para mim, extremamente necessário pois conseguiu aclarar um pouco minhas ideias em relação ao livro. Mas é inegável que sofri para terminar a leitura.
Bia 19/08/2017minha estante
Odiei o livro. Odiei o estilo do autor e o enredo. Resumindo: leitura muito sofrida!




Marc 04/09/2013

Minha intenção não é fornecer nunca uma interpretação exaustiva e fechada de qualquer livro. Até porque seria um disparate imaginar que uma resenha de uma ou duas páginas possa dar conta de um autor como Bolaño, ou de qualquer outro. É preciso investigar com calma suas referências e estilo de escrita para só então concluir algo de modo mais embasado. Me limito a mencionar de leve alguns pontos, assim como fiz com “O leilão do lote 49”, que havia sido duramente criticado em uma resenha que não havia sequer mencionado o motivo de tanta admiração dos críticos pelo livro (e a partir daí poderia tranquilamente dizer: “dado tudo isso, mesmo assim, não gostei do livro e essa é minha opinião pessoal”). Sem citar nomes ou entrar em polêmicas inúteis, minha resenha aqui vai tentar rebater uma outra sobre um livro de Bolaño que nada mais fez do que generalizar seus próprios pensamentos sobre o autor até estabelecer como verdades interpretações que são gerais demais e que simplesmente não conseguem deitar uma palavra sobre o livro em questão.

Assim, para começar, a questão da literatura como meio privilegiado de expressão íntima.

Me pergunto se vale a pena insistir nesse psicologismo. Porque se o que os autores fazem, de acordo com essa visão, é apenas mostrar algo de si, dar dicas sobre o que são e sobre os traumas que carregam da infância, não seria melhor só entrevistá-los e perguntar diretamente como era a vida em família, se passou fome e assistiu a todo tipo de violência, sendo que essa experiência moldou para sempre seu caráter?

Um romance tão complexo, com cerca de 50 personagens contando suas histórias, que muitas vezes chegam a desmentir o que outros haviam dito, pode mesmo ser apenas a expressão do autor? Tudo que ele quis foi apenas se disfarçar de Arturo Belano, o personagem que não tem voz? Se assim fosse, as inúmeras páginas de personagens se referindo a Belano trairiam uma vaidade sem limites de Bolaño... O sonho de ser o centro do mundo, um paranóico que ao ver suas suspeitas frustradas, se serviria de sua própria literatura para satisfazer sua doença. Antes de sair levantando essas hipóteses creio que vale a pena fazer o exercício lógico de imaginar até onde elas podem nos levar...

Outro ponto: a literatura dentro dos livros

Esse movimento de dobra, ou seja a literatura dentro do livro, que parece para alguns como uma autocrítica do autor — se formos seguir o próprio método psicanalítico, lembra o que Freud chamou de elaboração secundária nos sonhos. Basicamente trata-se dos sonhos em que uma voz racional parece se erguer e decretar que aquilo não passa de um sonho e podemos voltar a dormir tranquilamente. O mecanismo aqui, segundo o psicanalista, é uma tentativa da instância censora de suprimir o sentimento de angústia ou aflição suscitado por um sonho que escapou dela num primeiro momento. É o momento em que no sonho dizemos para nós mesmos: “isto é apenas um sonho”. Agora, se esse detalhe de que os personagens de Bolaño são sempre poetas, críticos e escritores merece ser mencionado, mais uma vez, devemos levar o raciocínio ao limite para ver onde pode dar. Quer dizer, ao perceber que está se revelando demais, justamente através de um personagem que não tem sequer uma fala durante todo o livro (!), o autor recorre ao mesmo mecanismo dos sonhos para dizer que isso é apenas literatura. Mas a pergunta anterior segue aqui tão válida quanto antes, talvez até mais forte: por que alguém se daria ao trabalho de se revelar e ocultar ao mesmo tempo? O simples prazer de sentir-se o centro do mundo, como um paranóico que precise ser decifrado me parece muito pouco provável...

Antes disso, e se ao escrever o livro mesmo fosse um mecanismo de intervenção social? E se ao invés de tentar se expressar codificadamente através do livro, o autor não quisesse ser decifrado mas provocar efeitos? Afinal, quem vai pegar um livro como esse, com uma estrutura complexa, multifacetada, e tentar encaixar todos os depoimentos para estabelecer a verdade do texto? Fico imaginando a dificuldade concreta de escrever um livro assim. Porque muitas vezes as histórias contadas abordam os dois personagens apenas durante um pequeno período. Como se fossem elipses e a proximidade acontece em um pequeno pedaço de sua trajetória. Não é apenas uma história complexa que está sendo contada, mas inúmeras e fica muito difícil definir com exatidão o diagrama geral do livro, porque isso também depende da nossa própria interpretação de momentos chave.

Sei que para a interpretação psinalítica da literatura, toda essa complexidade remete mesmo a alguns casos de paranóia que surpreendem justamente pela elaboração. E é difícil argumentar com uma ciência que estabelece o discurso como um sintoma em alguns casos, porque mina qualquer possibilidade de reconhecer a validade de seu conteúdo, remetendo sempre ao esquema do sintoma. Me pergunto, no entanto, se podemos continuar aceitando que gerações inteiras de artistas sejam reduzidas à mera expressividade de suas psicopatologias. Essa interpretação destrói qualquer objetivo mais amplo da arte, a domestica até ao ponto de nos tranquilizar e torná-la mais uma versão do que já estamos acostumados. Essa, basicamente, é uma das razões mais significativas para que não aceite esse tipo de leitura...

Esse livro produz, portanto, incerteza. E não é o trecho final, retirado do diário de García Madero que vai explicar tudo que a segunda parte do livro acaba de mostrar. Sei que essa sensação fica muito forte, mas ela abre para outra incerteza que é justamente o destino de seu autor.

Esse efeito, a produção de incerteza, me parece um grande tema da literatura contemporânea. Bolaño escolheu esse método, o da multiplicidade de versões, mesmo que todas elas sejam realistas e pareçam não dar margem a dúvidas. Mas é o acúmulo delas que ao invés de contar uma historia vai denunciando o quanto fica de fora na fala de cada um. Não se produz um efeito cumulativo, mas a dúvida. Thomas Pynchon, ao contrário, aposta no incrível (no sentido daquilo que não é acreditável). Isso para mencionar apenas dois autores.

Mais especificamente nesse livro de Bolaño, embora eu tenha sentido isso em alguma medida também na leitura de “Estrela Distante”, o tempo mostra o quanto corrói e modifica os personagens. Assim, me parece, não a violência, mas a vida (e a morte, evidentemente) como passagem do tempo que arrasta a tudo. Perceba como os depoimentos vão mudando de tom à medida que os personagens envelhecem. Como conflitos são atenuados e amores perdem a chama. A transformação da vida adulta que chega para todos, até para Ulisses Lima e Arturo Belano, embora esses, ao que parece, tenham preferido viver de modo diferente de todos os outros, se tornando nômades. O costume nos faz pensar que a explicação para esse nomadismo é uma incapacidade de adaptação às convenções sociais vigentes, que os dois, mesmo separados, vão vivendo e mantendo em si o desejo de não ser mais um na multidão. Mas não há nada que comprove esse tipo de afirmação idealizada no livro.

E a vida, a passagem do tempo, para ser mais exato, vai modificando a todos. Esse imenso universo criado pelo autor incorpora também essa dimensão, o que me faz pensar, com alegria, que Bolaño detestava a idéia de traçar retratos estáticos. Não há descrições, como nos acostumamos a ler nos romances novecentistas, mas sim um acompanhamento falho do movimento. Me pergunto se não é assim que vemos a vida passando por nós e pelas pessoas com que nos relacionamos, porque quando as encontramos depois de se ausentarem de nossas vidas, estão mudadas, com novas cicatrizes, novas alegrias e amores. E sentimos, mesmo que não possamos racionalizar isso num primeiro momento, que já não as conhecemos totalmente, que muita coisa nos fugiu e mesmo que elas contem o que se passou, é toda uma existência que não nos toca.
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