Os detetives selvagens

Os detetives selvagens Roberto Bolaño




Resenhas - Os Detetives Selvagens


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Leo 17/10/2009

Lá pelo terço final do romance “Soldados de Salamina”, de Javier Cercas, o escritor Roberto Bolaño surge como personagem para fazer uma curiosa intervenção no rumo da história. Quando o protagonista, que escreve um livro sobre a guerra civil espanhola e não consegue encontrar uma testemunha-chave do conflito, indaga de Bolaño o que deveria fazer, o autor chileno não hesita:

"- Você terá que inventar a entrevista com Miralles. É a única e a melhor forma de terminar o romance. (...) A realidade sempre nos trai; o melhor é não dar tempo a ela e traí-la antes. O Miralles real te decepcionaria; é melhor que o invente: seguramente, o Miralles inventado é mais real que o real."

Contar mais é estragar o final do livro, que merece ser lido. Mas a importância do trecho não está somente no fato de estabelecer a virada principal na trama de “Soldados...”, mas principalmente na forma como simboliza o atual papel de Bolaño como guru do que de melhor tem surgido na literatura em língua espanhola nos últimos anos.

Morto precocemente em 2003 após uma série de complicações hepáticas, Bolaño deixou cerca de 20 livros, entre romances, contos e poesia, nos quais, não é exagero dizer, conseguiu reinventar a literatura latino-americana sem negar sua tradição. Misturando o urbano com o pitoresco e buscando referências na cultura européia, o escritor chileno criou uma obra que consegue ser pop sem ser rasa, um pastiche de estilos e referências que leva finalmente a literatura latino-americana ao encontro do (pós-)pós-moderno e permite que ela escape, enfim, das amarras do realismo fantástico. Nesse sentido, ele se liberta, e liberta a própria literatura do nosso subcontinente, de um certo autocentrismo, partindo rumo a uma universalidade enriquecedora que, ao se espelhar em outras tradições, consegue definir melhor sua própria identidade.

Não que essa transgressão seja necessariamente pioneira. Mas o mérito de Bolaño é assimilar o antigo e o vanguardista, pôr tudo no liquidificador e assim criar o novo. Em “Os Detetives Selvagens”, considerado por muitos sua obra-prima, é possível encontrar um experimentalismo que costuma render comparações com Julio Cortázar, ainda que o estilo do chileno não possua o hermetismo do seu colega argentino. Isso porque, nos livros de Bolãno, há pluralidade de narradores, há metanarrativa, mas há sobretudo uma boa história, muitas vezes convencional, quase sempre romântica. Seus livros agarram o leitor e o levam por uma jornada apaixonante, em que a tragédia e o patético freqüentemente se confundem. Seus personagens são invariavelmente escritores, que se jogam no mundo em pequenas aventuras, à procura de algo que não sabem definir (a si próprios?).

Essa obsessão por protagonistas latinos, exilados e malditos reflete a própria biografia do autor. Após apoiar Salvador Allende e ser preso por Pinochet, Bolaño abandonou o Chile e correu o mundo. Morou no México, em El Salvador, na França e na Espanha. Foi vigia noturno, camelô, guerrilheiro, boêmio, vagabundo. Passou necessidade, escreveu para sobreviver, usou muitas drogas. Em matéria publicada pela Folha de S. Paulo, Sarah Pollack, professora da City University de Nova York, chega a definir a aura cool de Bolãno como “uma mistura dos beatniks com Rimbaud”.

A comparação do escritor chileno com o famoso movimento sócio-cultural-filosófico-literário surgido nos EUA durante os anos 50 não merece parar por aí. No já citado “Os Detetives Selvagens”, os dois protagonistas, Ulises Lima e Arturo Belano (Belano, Bolaño, pegou?) partem em um carro rumo ao deserto de Sonora, à procura de uma poetisa perdida, antes de saírem viajando pelos mais diversos países. É uma espécie de “On the road” da era da globalização, já que, aqui, a estrada é substituída pelo próprio mundo.

E, assim como no clássico beat de Kerouak, o que o leitor encontra em “Os Detetives Selvagens” é uma história envolvente, daquelas que despertam uma vontade imensa de se viver uma experiência parecida, repleta de personagens capazes de deixar saudades após se chegar à última página. É inegável que a intensidade e a riqueza da narrativa se devem à vivência de Bolaño, que realmente passou por grande parte das peripécias às quais submete seus personagens. Não é à toa que, a certa altura de “Soldados de Salamina”, ele comente com o protagonista:

“- Para escrever romances, não é preciso imaginação. Só memória. Os romances se escrevem combinando lembranças.”

Para nossa felicidade, lições como essas vêm sendo assimiladas e aplicadas pelos inúmeros escritores que, através de seu estilo ou temática, dão atualmente continuidade ao legado de Bolaño para a literatura do nosso subcontinente e, por que não, do resto do mundo.
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Mariana. 08/01/2010minha estante
Leo, tou impressionada. Um verdadeiro estudo sobre o Bolaño. Sabe que fiquei sabendo dele por aqui somente. No more information about. Até ler a sua resenha, o que me deixou me sentindo super íntima agora, rsrs. 'Os Detetives' é um bom livro para iniciar os trabalhos? Bjs!




Lucas de Sena 12/04/2010

Blog - entrevistas
Olha, Roberto Bolaño fala deste e de outros livros,
suas influências, seus amigos e o prêmios que ganhou neste blog, que edita suas entrevistas em português:

http://estrelaselvagem.wordpress.com/
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Ivan Picchi 01/07/2012

Genial
Pela andanças de autores latino-americanos, acabo nesse; um Cortázar chileno.

Cada personagem, e são muitos, parecem um autor diferente. Uma narrativa totalmente diferente. Puta que o pariu, só tinha visto isso sair bem natural em trainspotting e jogo da amarelinha.

Virou um dos meu autores favoritos. Só me resta caçar o q falta dele.

Recomendo e MUITO
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Dom Ramirez 08/02/2013

A Surpresa de Bolaño
Este livro foi para mim uma experiência peculiar. Geralmente, leio mais livros pequenos do que livros grandes, e na maioria livros do século XIX ou início do séc XX. Tenho certa dificuldade com contemporâneos, salvo algumas excessões. Quando me proponho a ler um livro grande, geralmente vou em algum dos meus autores favoritos, como Dostoievski.

No entanto, por insistência da minha namorada que amou este livro, decidi encarar Os Detetives Selvagens. Confesso que já tinha certa simpatia pelo título e pelo cenário, sou fascinado pelo México. Após este preambulo talvez desnecessário, vamos ao livro.

No início da leitura, notei algo estranho. Apesar de não estar achando o livro nada de mais, eu não conseguia parar de ler. E olha que eu não tenho cerimônias em abandonar um livro que eu não esteja gostando. Logo de primeira, li umas 70 pgs. Chegando na segunda parte do livro (o livro é dividido em 3 partes), fui entendendo o que a obra tem de genial. A história dos protagonistas vai sendo construída lentamente a partir de um mosaico de depoimentos de homens e mulheres que estiveram com eles desde os anos 60 até a década de 90. É impressionante como Bolaño conseguiu se comunicar através das mais diferentes vozes, pois cada depoimento é narrado em primeira pessoa pelo próprio depoente. A sensação é de que o livro está sendo escrito por diferentes pessoas.

Cabe dizer que em nenhum momento senti a leitura enfadonha ou algum trecho desnecessário. Bolaño também oferece ao leitor uma enxurrada de referências de poetas e escritores, em sua maioria latino-americanos. É um livro sobre poesia, poetas, cultura méxicana, um livro também sobre solidão e sensação de não pertencimento, pois acompanhamos a jornada de dois nômades em busca da poesia e, numa leitura mais profunda, em busca de um sentido.

Grande livro, vale o investimento.
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Gláucia 08/09/2015

Os Detetives Selvagens - Roberto Bolaño
"Publicado em 1998, foi eleito em 2006 o livro chileno mais importante dos últimos 25 anos."
Assim que é apresentado o livro em sua contracapa o que me levou a pensar no que li até então de literatura chilena.
Jamais teria me aventurado sozinha a fazer essa leitura, debatida de forma presencial na parceria do FLEPEV e Os Espanadores. Não quero aqui criticar o livro, apenas falarei (como sempre faço) da minha relação com ele. Que foi sofrida. Muito sofrida.
Nem saberia como resumir o enredo. O livro é enorme e dividido em 3 partes. Na primeira o relato é feito em forma de um diário por um candidato a poeta de 17 anos, interessado na vertente Real Visceralismo, movimento poético liderado por Arturo Belano e Ulises Lima. Os dois partem na busca de uma poetisa do movimento desaparecida, Cesaria Tinajero. A segunda e mais extensa parte é composta por depoimentos de várias pessoas sobre os dois e para mim foi a parte mais sofrida pois se compõe de histórias absurdas, aparentemente sem relação uma com a outra que me levou a perguntar: qual o propósito desse livro? Na terceira parte ( a melhorzinha) voltamos ao diário de Juan García Madero onde teremos finalmente a resolução do misterioso paradeiro de Cesaria.
Certamente deve ser um excelente livro, mas para o tipo certo de leitor que, obviamente não sou eu. O debate foi ótimo e, para mim, extremamente necessário pois conseguiu aclarar um pouco minhas ideias em relação ao livro. Mas é inegável que sofri para terminar a leitura.
Bia 19/08/2017minha estante
Odiei o livro. Odiei o estilo do autor e o enredo. Resumindo: leitura muito sofrida!




Ginete Negro 28/06/2020

Dois poetas extremos e desaparecidos
Dividido em três partes, cuja segunda destoa das demais quanto ao tempo cronológico, é um romance muito bem elaborado. Seus personagens principais são os poetas real-visceralistas Artuto Belano e Ulises Lima, que são como "giramundos", mas que estavam em busca da fundadora do movimento real-visceralista, Cesárea Tinajero, uma poeta desaparecida.

A primeira parte é escrita em moldes de diário, por García Madero, um estudante que ocasionalmente tropeça nas vidas dos dois protagonistas e vai discorrendo sobre vários assuntos, inclusive sobre eles. Somos então apresentados a muitos personagens, poetas marginais, uma família abastada e pessoas desiludidas, garçonetes e prostitutas.

A segunda parte é em estilo epistolar, onde alguém compila vários relatos de pessoas que tiveram contato com os exóticos protagonistas em diversas partes do mundo, num período de trinta anos. E a terceira é a continuação da primeira, e que esclarece a segunda.

Roberto Bolaño era um escritor mesmo de corpo e alma, e um leitor voraz. Belano é seu alter-ego, e vemos muito da vida do próprio Bolaño nele. Assim, mesmo que todos os textos do livro sejam em primeira pessoa, nunca os dois protagonistas se expressam; só acompanhamos suas vidas, seus pensamentos e suas poesias através do relato de outros personagens.

Um calhamaço que não é nada maçante de se ler. Altamente recomendável.
Renato 28/06/2020minha estante
Está em minha lista e é dos que mais estou ansioso para ler!


Ginete Negro 28/06/2020minha estante
Sim. Ele atendeu às minhas expectativas, como 2666. Apesar que 2666 superou expectativas.


Renato 28/06/2020minha estante
Já tive o 2666 em formato digital, no Kindle, mas desisti da leitura, pois decidi comprar o físico. Em breve quero os dois em minha estante.




Alan 12/10/2020

Simplesmente leia!
Livro sensacional. Difícil fazer uma resenha. Simplesmente leia!
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Leo 18/09/2018

A realidade é visceral, amigo.
Ontem li um rapaz comentando que derrubou os livros de uma moça; ajudou-a a recolher e então lembrou dos filmes onde grandes paixões nascem assim. Abriu um sorriso e ela, ao notar, comentou algo como: "o que é tão engraçado em derrubar meus livros, babaca?"

E foi embora. O rapaz, resignado, concluiu: a realidade é uma merda.

A tragicômica história tem muito a ver com o livro que, por coincidência, terminei ontem: Os Detetives Selvagens, clássico da literatura chilena escrito por Roberto Bolaño.

A ficção é feita para ser conforto. Esteriótipos de felicidade, sucesso, bem estar, preenchem telas e páginas. O casal feliz, o objetivo cumprido, o bem vencendo o mal, o herói derrotando o vilão. O coração dispara, a barriga gela, ficamos tensos. No final, dá tudo certo, e podemos viver nossas vidas com um sorriso a mais no rosto.

Não em Detetives Selvagens.

A trama gira em torno de um grupo de jovens poetas: os real-visceralistas. Universitários, boêmios, matam aulas em bares ou cafés, conhecendo as drogas e o sexo, alimentando sonhos de viajar pelo mundo. O livro não apresenta qualquer poema real-visceralista. Todavia podemos entendê-lo ele próprio dentro desta definição.

A despeito dos sonhos e boemia, existe uma realidade, dura e visceral, que se impõe aos personagens sem que haja muito a ser feito. Dificuldades de emprego, amores frustrados, impotência sexual, morte, doenças, golpes de Estado, guerras civis. Amizades que se iniciam e acabam, pessoas que vem e vão.

Não há grandes planos, um Destino manifesto que nos garanta a felicidade dos filmes de herói e bandido. A vida segue seu rumo, e este pode acabar em uma estabilidade que te mate de tédio ou, quem sabe, num precipício que te acabe de vez. Não espere redenção, não espere sentido, não espere o sorriso. Nada te garante.

Quando comecei a obra, pensei em se tratar de um romance policial. Enganei-me. Os detetives do título não são personagens do livro: somos nós, leitores. A investigação não é sobre algum crime violento, é da própria realidade e de como é selvagem, fluída, anárquica, muito distante das utopias da juventude e do felizes para sempre antes dos créditos finais.

Detetives Selvagens é uma obra áspera, filosófica e complexa.

Uma das mais prazerosas que li. A sensibilidade e profundidade das diversas personagens, as ideias refinadas, as reflexões plurais e diversas.

Uma das mais dolorosas que li. É duro ter esfregado na cara que seu grande amor não vai acontecer de um esbarrão. Ou que, mesmo que aconteça, este mesmo grande amor pode se tornar um fracasso que passa os dias comendo para engordar e bebendo até a embriaguez.

Afinal, a realidade é selvagem, camarada.
A realidade é visceral.

Não recomendo a ninguém.
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andalm 29/11/2009

Não tive paciência de ler todas as entrevistas e tentar fazer paralelos.Perdoem minha insensibilidade. Pra quem gosta é um prato cheio.
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djoni moraes 06/10/2020

Construindo a literatura latinoamericana
OS DETETIVES SELVAGENS - ROBERTO BOLAÑO

Quem me conhece sabe que eu não perco a oportunidade de enaltecer a literatura hispano-americana. Grande parte desse carinho vem do fato de meu eu-leitor ter sido forjado a partir de leituras de Cortázar, Borges, Mutis, Márquez (e, por que não, Allende e Llosa). Sempre passei de lado da leitura de livros do Bolaño porque, para ser sincero, a curiosidade nunca foi tão grande ao ponto de me tirar da inércia. E que tonto eu fui!

Analisar esta obra indica dividir-nos em mil fragmentos diferentes que nos permitam, assim, observar de mil ângulos diferentes cada um dos temas abordados aqui (e estes são bastante variados: literatura, poesia, sexo e drogas (e rock and roll), revolução, filosofia, política, ditaduras, peregrinação em busca de si próprio, amor, ódio, esperança, medo e loucura.

O livro é dividido em três partes. A primeira e a terceira, narradas em primeira pessoa de forma epistolar/diário com a voz do jovem García Madero, e a segunda parte (sendo esta a maior parte do livro) contada através de vários personagens, que tem (ou eventualmente não) a ver com o enredo principal: a busca pela poetisa realvisceralista Cesárea Tinajero. Na segunda parte do livro, um investigador implícito procura pelo Belano e Ulises Lima, poetas centrais da nossa história. Esta busca acontece nos quatro continentes, e o registro da mesma se dá através das entrevistas a esporádicas testemunhas que o investigador interpola no seu caminho. Nesta parte do livro, o autor tenta conter as pesquisas principais para formar (quase que de uma forma de bildungsroman ou romance de formação - alô Thomas Mann) a narrativa, a linha de tempo totalmente caótica e o caráter de nossos protagonistas.

A busca por Cesárea Tinajero é praticamente uma desculpa para a reflexão crítica sobre a literatura. O que perseguem Lima e Belano, através de Tinajero, é uma das origens da poesia moderna mexicana, representada pelo movimento do “real visceralismo”, uma escola fictícia que graceja sobre os movimentos poéticos vanguardistas no México (e na américa latina). Quando vemos a busca por Belano e Lima, observamos que está construída numa série de crônicas que visa representar os personagens de uma juventude latinoamericana que encontrava-se no seu auge quando os grandes acontecimentos já tinham, enfim, acontecido - as revoluções sociais já tinham fracassado ou tinham se tornado instituições recém criadas, e a poesia vanguardista tinha estagnado.
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“...Segundo ele, os atuais real-visceralistas andavam para trás. Como para trás, perguntei. - Andam de costas, olhando para um ponto mas se afastando dele, em linha reta, rumo ao desconhecido” - Os detetives selvagens.

Um livro que pode ter mil interpretações, que te prende como um romance policial e que se constrói de maneira genial até alcançar um clímax que nem eu, nem você, estamos esperando. Se você é alguém que gosta de um bom “suspense” não-criminal e que gosta de (ou tem interesse em) discutir literatura, esta é uma ótima indicação.
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Luciano Gaubatz 29/01/2009

Os poetas-detetives de Bolaño
Roberto Bolaño, autor chileno-mexicano, morto em 2003 diria que "Os detetives selvagens" tratavam-se de uma grande homenagem a sua geração. Bolaño lá está representando na figura de Arturo Belano (um dos "detetives" da história.
Mas, muito além de simples homenagem, a história de Bolaño nos conduz a uma imagem de América Latina: nos diz algo sobre quem somos e o que gostaríamos de ser.
Curiosamente, a ironia e o humor se manifestam desde o título: assim é que, nas palavras de Sérgio Rodrigues, do Todaprosa "os detetives são poetas, a mulher desaparecida que eles procuram também é, e todas as conversas giram em torno do assunto, um tanto absurdamente, como se nada mais no mundo tivesse importância." Nada mais, afinal, tem importância... Um livro realmente imenso.
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Marc 04/09/2013

Minha intenção não é fornecer nunca uma interpretação exaustiva e fechada de qualquer livro. Até porque seria um disparate imaginar que uma resenha de uma ou duas páginas possa dar conta de um autor como Bolaño, ou de qualquer outro. É preciso investigar com calma suas referências e estilo de escrita para só então concluir algo de modo mais embasado. Me limito a mencionar de leve alguns pontos, assim como fiz com “O leilão do lote 49”, que havia sido duramente criticado em uma resenha que não havia sequer mencionado o motivo de tanta admiração dos críticos pelo livro (e a partir daí poderia tranquilamente dizer: “dado tudo isso, mesmo assim, não gostei do livro e essa é minha opinião pessoal”). Sem citar nomes ou entrar em polêmicas inúteis, minha resenha aqui vai tentar rebater uma outra sobre um livro de Bolaño que nada mais fez do que generalizar seus próprios pensamentos sobre o autor até estabelecer como verdades interpretações que são gerais demais e que simplesmente não conseguem deitar uma palavra sobre o livro em questão.

Assim, para começar, a questão da literatura como meio privilegiado de expressão íntima.

Me pergunto se vale a pena insistir nesse psicologismo. Porque se o que os autores fazem, de acordo com essa visão, é apenas mostrar algo de si, dar dicas sobre o que são e sobre os traumas que carregam da infância, não seria melhor só entrevistá-los e perguntar diretamente como era a vida em família, se passou fome e assistiu a todo tipo de violência, sendo que essa experiência moldou para sempre seu caráter?

Um romance tão complexo, com cerca de 50 personagens contando suas histórias, que muitas vezes chegam a desmentir o que outros haviam dito, pode mesmo ser apenas a expressão do autor? Tudo que ele quis foi apenas se disfarçar de Arturo Belano, o personagem que não tem voz? Se assim fosse, as inúmeras páginas de personagens se referindo a Belano trairiam uma vaidade sem limites de Bolaño... O sonho de ser o centro do mundo, um paranóico que ao ver suas suspeitas frustradas, se serviria de sua própria literatura para satisfazer sua doença. Antes de sair levantando essas hipóteses creio que vale a pena fazer o exercício lógico de imaginar até onde elas podem nos levar...

Outro ponto: a literatura dentro dos livros

Esse movimento de dobra, ou seja a literatura dentro do livro, que parece para alguns como uma autocrítica do autor — se formos seguir o próprio método psicanalítico, lembra o que Freud chamou de elaboração secundária nos sonhos. Basicamente trata-se dos sonhos em que uma voz racional parece se erguer e decretar que aquilo não passa de um sonho e podemos voltar a dormir tranquilamente. O mecanismo aqui, segundo o psicanalista, é uma tentativa da instância censora de suprimir o sentimento de angústia ou aflição suscitado por um sonho que escapou dela num primeiro momento. É o momento em que no sonho dizemos para nós mesmos: “isto é apenas um sonho”. Agora, se esse detalhe de que os personagens de Bolaño são sempre poetas, críticos e escritores merece ser mencionado, mais uma vez, devemos levar o raciocínio ao limite para ver onde pode dar. Quer dizer, ao perceber que está se revelando demais, justamente através de um personagem que não tem sequer uma fala durante todo o livro (!), o autor recorre ao mesmo mecanismo dos sonhos para dizer que isso é apenas literatura. Mas a pergunta anterior segue aqui tão válida quanto antes, talvez até mais forte: por que alguém se daria ao trabalho de se revelar e ocultar ao mesmo tempo? O simples prazer de sentir-se o centro do mundo, como um paranóico que precise ser decifrado me parece muito pouco provável...

Antes disso, e se ao escrever o livro mesmo fosse um mecanismo de intervenção social? E se ao invés de tentar se expressar codificadamente através do livro, o autor não quisesse ser decifrado mas provocar efeitos? Afinal, quem vai pegar um livro como esse, com uma estrutura complexa, multifacetada, e tentar encaixar todos os depoimentos para estabelecer a verdade do texto? Fico imaginando a dificuldade concreta de escrever um livro assim. Porque muitas vezes as histórias contadas abordam os dois personagens apenas durante um pequeno período. Como se fossem elipses e a proximidade acontece em um pequeno pedaço de sua trajetória. Não é apenas uma história complexa que está sendo contada, mas inúmeras e fica muito difícil definir com exatidão o diagrama geral do livro, porque isso também depende da nossa própria interpretação de momentos chave.

Sei que para a interpretação psinalítica da literatura, toda essa complexidade remete mesmo a alguns casos de paranóia que surpreendem justamente pela elaboração. E é difícil argumentar com uma ciência que estabelece o discurso como um sintoma em alguns casos, porque mina qualquer possibilidade de reconhecer a validade de seu conteúdo, remetendo sempre ao esquema do sintoma. Me pergunto, no entanto, se podemos continuar aceitando que gerações inteiras de artistas sejam reduzidas à mera expressividade de suas psicopatologias. Essa interpretação destrói qualquer objetivo mais amplo da arte, a domestica até ao ponto de nos tranquilizar e torná-la mais uma versão do que já estamos acostumados. Essa, basicamente, é uma das razões mais significativas para que não aceite esse tipo de leitura...

Esse livro produz, portanto, incerteza. E não é o trecho final, retirado do diário de García Madero que vai explicar tudo que a segunda parte do livro acaba de mostrar. Sei que essa sensação fica muito forte, mas ela abre para outra incerteza que é justamente o destino de seu autor.

Esse efeito, a produção de incerteza, me parece um grande tema da literatura contemporânea. Bolaño escolheu esse método, o da multiplicidade de versões, mesmo que todas elas sejam realistas e pareçam não dar margem a dúvidas. Mas é o acúmulo delas que ao invés de contar uma historia vai denunciando o quanto fica de fora na fala de cada um. Não se produz um efeito cumulativo, mas a dúvida. Thomas Pynchon, ao contrário, aposta no incrível (no sentido daquilo que não é acreditável). Isso para mencionar apenas dois autores.

Mais especificamente nesse livro de Bolaño, embora eu tenha sentido isso em alguma medida também na leitura de “Estrela Distante”, o tempo mostra o quanto corrói e modifica os personagens. Assim, me parece, não a violência, mas a vida (e a morte, evidentemente) como passagem do tempo que arrasta a tudo. Perceba como os depoimentos vão mudando de tom à medida que os personagens envelhecem. Como conflitos são atenuados e amores perdem a chama. A transformação da vida adulta que chega para todos, até para Ulisses Lima e Arturo Belano, embora esses, ao que parece, tenham preferido viver de modo diferente de todos os outros, se tornando nômades. O costume nos faz pensar que a explicação para esse nomadismo é uma incapacidade de adaptação às convenções sociais vigentes, que os dois, mesmo separados, vão vivendo e mantendo em si o desejo de não ser mais um na multidão. Mas não há nada que comprove esse tipo de afirmação idealizada no livro.

E a vida, a passagem do tempo, para ser mais exato, vai modificando a todos. Esse imenso universo criado pelo autor incorpora também essa dimensão, o que me faz pensar, com alegria, que Bolaño detestava a idéia de traçar retratos estáticos. Não há descrições, como nos acostumamos a ler nos romances novecentistas, mas sim um acompanhamento falho do movimento. Me pergunto se não é assim que vemos a vida passando por nós e pelas pessoas com que nos relacionamos, porque quando as encontramos depois de se ausentarem de nossas vidas, estão mudadas, com novas cicatrizes, novas alegrias e amores. E sentimos, mesmo que não possamos racionalizar isso num primeiro momento, que já não as conhecemos totalmente, que muita coisa nos fugiu e mesmo que elas contem o que se passou, é toda uma existência que não nos toca.
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Ari 23/05/2020

Os detetives selvagens de Roberto Bolaño é um daqueles livros cuja a experimentação narrativa se mescla ao contexto político da ação. Em pleno subúrbio mexicano Arturo Belano, e Ulises Lima, vivem suas paixões intensas. Dentre elas a poesia e a literatura.
Dira 23/05/2020minha estante
Amiga, finalmente já tenho em mãos. O meu encontro com esse lindo vai acontecer ainda neste semestre. To alternando, autores negros, literatura nacional, clássico literário e literatura latina. Um por vez, tem lugar pra todo mundo. Hahahaha


Ari 23/05/2020minha estante
Que lindo! Assim poderemos falar sobre a experiência que é esse livraço. ?




Maltenri 06/06/2011

Sexo, drogas e... Poesia!
“Os Detetives Selvagens” é considerado a obra-prima de Roberto Bolaño, escritor chileno morto em 2003. Exilado após o advento da ditadura Pinochet, viveu no México, na Espanha e na França. Vivenciou e observou os eventos e movimentos ocorridos nas décadas de 70, 80 e 90. Resolveu fazer uma homenagem a esse período da forma como o tinha vivido. O resultado é “Os Detetives Selvagens”, no qual um dos personagens principais é o próprio Bolaño (porém no livro é chamado de Arturo Belano). Ao estabelecer uma comparação entre a vida de Belano e de Bolaño percebemos este ponto. Aliás, a grande maioria dos personagens tem um paralelo no mundo real.

O livro é estruturado em três partes: a primeira e a terceira são menores e compostas por entradas de diário de um jovem aspirante a poeta, Garcia Madero. A parte intermediária, principal parte do livro, é uma seqüência de depoimentos, testemunhos, de pessoas que em algum momento gravitaram entorno de Belano ou de seu principal comparsa, Ulises Lima. Desta forma, o leitor monta a vida de Belano e Lima, tarefa pouco fácil: ambos são na maior parte do tempo envoltos em mistério e imprecisão, afinal Bolaño nunca mostra seus pontos de vista. Aparecem sempre de soslaio na vida de algum outro personagem.

Belano e Lima são os fundadores de um movimento poético chamado realismo visceral, homenagem a um movimento com o mesmo nome que existiu no México na década de 20. Os dois decidem descobrir o paradeiro da fundadora do primeiro movimento, Cesárea Tinajero.
O movimento fundado pelos dois é vanguardista e se opõe fortemente a todos os paradigmas literários estabelecidos. Aí se estabelece um tema importante da obra: a oposição entre vanguardismo e passado. Bolaño reflete também sobre o quê acontece quando um movimento falha ao se estabelecer, principalmente com relação a seus participantes: o esquecimento. Reflete também sobre o que acontece com os que não tomam partido: não se pode viver sem tomar posições, sob pena de se tornar um pária.

A obra é uma bela homenagem aos usos e evoluções das décadas de 70, 80 e 90. Idéias importantes que surgiram nesse período estão presentes na obra, do movimento hippie no início da década de 70 até o começo do culto ao corpo no final dos anos 80 e começo dos anos 90.

O estilo de Bolaño é algo especial: flui bem, sem entraves a leitura, mesmo com grandes passagens escritas “à la José Saramago”. O autor consegue criar um linguajar, um modo de ser e de pensar e principalmente um modo de narrar próprios a cada personagem. O resultado é um conjunto de personagens verossímeis a quem se pode identificar ou identificar um conhecido facilmente.

No fim das contas, o livro é um magnífico retrato da época vivida por Bolaño, e se enquadraria perfeitamente na escola realista de literatura, com um quê de Machado de Assis em alguns momentos. Para ler e reler.
Amanda 08/08/2016minha estante
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