O Livro das Cousas que Acontecem

O Livro das Cousas que Acontecem Daniel Pellizzari




Resenhas - O Livro das Cousas que Acontecem


3 encontrados | exibindo 1 a 3


Tito 03/03/2011

Cousas estranhas; cousas úmidas; cousas raras (mas que acontecem).
comentários(0)comente



Enrique.Carvalho 28/07/2018

Louco
Um livro perturbador, mas no bom sentido. Cheio de histórias intrigantes que expõem o pior da natureza humana e mostra sua pior face. Vindo de uma mente perturbada. Algo que leiriam para Edgar Allan Por na hora de dormir.
comentários(0)comente



Diego Lunkes 15/10/2019

O melhor aqui é a criatividade. Daniel Pellizzari é um autor que busca, em suas próprias palavras, "catalisar literatura que traga visões novas, que ultrapasse o exercício estético vazio, o lugar-comum da classe média ou deslumbramento com o mundo pop". Para tal, o autor não tem medo de transgredir, causando estranheza e desconforto, mas também curiosidade. A galeria de micro contos que compõem "O Livro das Cousas que Acontecem" narra episódios do cotidiano, usando o absurdo e estruturas não convencionais como pano de fundo para registrar o aqui e o agora.

Pellizzari utiliza pelo menos um recurso diferente a cada narrativa, seja de forma ou conteúdo. Em "Agosto", temos uma história em primeira pessoa do ponto de vista de um cachorro de rua, que transforma eventos de ordem comum em algo tragicômico devido ao jargão empregado. "Fiquei tão puto que resolvi sair na porrada com eles e fui guinando os dois times de uma vez só, com camisa, sem camisa, o caralho". De forma semelhante, o conto "Adágio Para Umbigos" apresenta discursos típicos do registro oral, com gírias, falta de concordância e vícios linguísticos. Desta vez, porém, o destaque vai para o formato do texto apresentado como uma peça teatral onde quatro escritores mortos (Samuel Buckett, Daniil Kharms, Julio Cortázar e Franz Kafka) se embebedam em um bar enquanto filosofam em uma linguagem vulgar, o que parece uma paródia de Uma Noite na Taverna.

"SAMUEL BECKETT: Tá, mas alguém discorda que realismo é coisa de veado?

DANIIL KHARMS: Ô. Perder a fábula é perder a alma."

Já "Quatro Arestas" é um humorado diálogo entre dois presidiários, apresentado de forma unilateral, onde nunca temos acesso às palavras da segunda pessoa, mas que permite inferi-las pelas reações da primeira, produzindo um efeito curioso, como se o leitor escutasse sorrateiramente a conversa. "Era a porra da varzeana. Não, não a que eu tinha comido no cemitério, a outra. É, a guria do cartório. Pois é, eu também achei que ela tinha morrido". Por sua vez, o conto "Monomania" é um absurdo relato masturbatório que investe em retratar comentários parentéticos muito comuns no discurso falado. O autor brinca com este fenômeno linguístico extrapolando-o em proporções cômicas conforme interrompe constantemente um relato para inserir comentários paralelos que se tornam maiores do que a narrativa principal em si.

"Naquele exato momento, e era cedo, Douglas decidiu vender seu carro, de oito anos de idade mas bem-cuidado, e também abandonar seu emprego, que era o de diagramador de jornais de bairro, para se trancar no quarto de casa, onde morava com o pai, que era corretor de imóveis aposentado e certa vez seduziu uma cliente em um quitinete com vista para o rio, e vejam vocês, a cliente era casada e acabou por engravidar e bem, onde estávamos mesmo?"

Na sequência, Pellizzari apresenta uma discussão de casal com "História de Amor #62". Curiosamente dividido em três seções, o conto dedica os três primeiros parágrafos para descrever o marido (a. Dirceu), enquanto que a segunda seção (b. Marília) introduz a esposa simplesmente como "Era mulher". Na seção final (c. Dirceu e Marília), a narrativa em prosa é permeada por diálogos que lembram a estrutura de uma peça teatral, nos quais uma briga por uma fatia de pão desperdiçada toma proporções descomunais, levando a uma conclusão menos comum ainda. A estrutura teatral adotada parece ser um comentário do autor, sugerindo que acontecimentos do dia-a-dia são tão merecedores de registro quanto um feito épico tipicamente retratado no teatro clássico. O absurdo também está presente em "Proibida a Entrada de Pessoas Estranhas", onde uma revelação fotográfica é confundida com uma revelação divina, o que desencadeia o ataque de uma multidão enfurecida. Além de brincar com o sentido das palavras e demonstrar o quão facilmente ocorrem erros de comunicação, o conto ainda dá uma alfinetada na prática de caça às bruxas comumente motivada por crenças religiosas. Novamente exercitando estruturas textuais, Pellizzari compõe um relato fetichista em "O Próprio Sêmen", onde a redução de parágrafos a cada seção do conto serve como uma maneira de representar o sentimento de ansiedade crescente do protagonista. Concluindo este álbum de recortes e colagens do cotidiano e do absurdo, temos em "Acerca da Macrogeografia" uma espécie de guia histórico de uma cidade fictícia elencando tudo de incomum que ali acontece.

Contando ainda com uma série de ilustrações e epígrafes a cada capítulo, o livro instiga a imaginação e aguça a curiosidade. Pontual o suficiente para que o leitor compreenda a narrativa e reticente na medida para que a imaginação preencha as lacunas. Pellizzari impressiona pela criatividade temática, pela versatilidade narrativa, pela originalidade estrutural e pela qualidade literária. Mas, acima de tudo, o autor impressiona por tentar renovar o cenário da literatura brasileira contemporânea, o que de fato consegue. Tratam-se de contos modestos, mas de certa forma significativos. Tem-se aqui uma literatura recém-nascida que dá seus primeiros passos rumo a uma nova leva de escritores.

site: https://barbaliterata.wordpress.com/2019/10/15/o-livro-das-cousas-que-acontecem/
comentários(0)comente



3 encontrados | exibindo 1 a 3