Paganíssima trindade

Paganíssima trindade Mô Ribeiro




Resenhas - Paganíssima trindade


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Krishnamurti 01/12/2020

Paganíssima trindade
Noventa e quatro poemas compõem o livro “Paganíssima trindade” que assinala a estreia na literatura da autora Mônica Ribeiro, recentemente editado pela Editora Penalux. Ao longo da obra o leitor depara-se com uma poesia onde aflora um lirismo no qual observamos a maneira como a autora, com seus juízos subjetivos, alegrias e admirações, dores e sensações toma consciência de si mesma no âmago da existência.

Todo poeta como começa por ser lírico, seja na evolução de sua obra, seja na ordem dos impulsos que lhe comandam a visão de mundo, justamente porque o lirismo se constitui na manifestação imediata e primeira de suas inquietudes emocionais e sentimentais. O lirismo, sem dúvida, é o estado natural do eu para si próprio, e, portanto, a expressão da reação mais pronta do poeta em face dos estímulos de fora, e mesmo de dentro.

Um lirismo difuso o deste “Paganíssima trindade” a se espraiar em temas como o pânico, a autoestima as ansiedades e a depressão propriamente dita que nos conta de si, e mostra o que pode a tristeza, e o quanto a poesia, tanto para quem escreve como para quem apenas lê, nos faz ter uma força ‘para se alçar/feito asa’, como bem salienta João Gomes em texto de posfácio.

Seja como for, a poeta, lírica por excelência, trabalha com sentimentos e emoções, muitas delas tristes. À Flor da pele. Obviamente há vivências mais complexas que outras nesse plano por assim dizer, abaixo da consciência, onde há espaço também para poemas com viés filosófico com umas pitadas de humor e sarcasmo aqui e ali. Vejamos alguns poemas.

AMPULHETA p.25
Não sei / quantos pontos / são necessários / para estancar / o sangue / de quem se corta / com cacos / de ampulheta
Não sei / quantas pinças / são necessárias / para tirar / do sangue / a areia do tempo / que escapou
/ da ampulheta quebrada
Não sei / quantos anos / sofridos / são necessários / para que a ampulheta / não se quebre
Há de se saber / que a ampulheta / é por si / torta / trincada / mal lacrada
Embora viva / Morta

TEMPESTADE DE AREIA p.34
Dor não se mede / Dor desnorteia / Desagrega o ser / que agoniza / mesmo sem morrer
Dor é falta de ar / ventania que sufoca / hiperventilação arenosa / choro seco / de lágrimas secas
Dor é tempestade de areia / é falta de brisa / daquela que / em vez de ferir / alisa

DESDEPRESSÃO p.46
É estar bem pelo contraditório do breu / É aprender a tal afirmação do EU / É saber que existe uma alça / no fundo mais fundo do poço / e que o braço / embora flácido / por conta / do não movimento deprimido / tem sua força / sabe-se lá como / (importa saber como?) / para se alçar / feito asa
A desdepressão / é estar em brasa

CONSCIÊNCIA p.51
Aqui dentro há milhão / de não sei o que é que é / de um quê que eu sei bem / pois a gente sempre se sabe / não se sabendo porém

DITADO p.57
O empilhamento / das palavras / às vezes não forma pilha: / dá volta
O empilhamento / das palavras / às vezes não dá volta: / dá nó
O empilhamento / das palavras / às vezes não dá nó: / dá no indizível
O indizível / de tanto dizer / é irreproduzível

CORAGEM p.83
Coragem não é ser forte / É descobrir / que não há monstro embaixo da cama / É descobrir / que o monstro vive na cabeça
Coragem não é ser forte / É coisa que acontece / que nos dá um porte / uma adultice não cronológica
Para chegar à idade da coragem / é preciso ser a criança / que brinca com o monstro / embaixo da cama

ERRÁTICA – p.116
Não quero me esconder em úteros / Bebi hoje muita água que / com meu sal / criou em mim um mar
Ondas gigantes me agitaram
O mar dentro de mim / é a nau que me navega
Meu navegar é impreciso / Não há farol
Meu navio-mar / ruma múltiplo / errático
Água que é / prescinde do farol / Os ventos me levam / Os ventos me levem

A epígrafe que abre a obra é de Patti Smith, em Só Garotos. “Sempre trabalhei em surtos.” E realmente é o que parece ser em uma visada de conjunto, esta primeira obra da autora, um surto poético, um transbordamento lírico decorrente do contato com as dores e delícias da existência. Não é demais advertir-se, entretanto, que em literatura, como em tudo que a nossa humanidade se mete a empreender, o “surto” nem sempre é bom conselheiro, por mais que se possa admitir a espontaneidade poética e etc. Sempre benéfico deixar esfriar a emoção primeira e bruta que nos leva a escrever, e trabalhar sentimento e forma com o formão da paciência. Aguardamos com vivo interesse novas produções da autora que demonstra rara sensibilidade no trato com aquilo que vai (absurdamente), se tornando o hora-a-hora da humanidade. A dor.

Livro: “Paganíssima trindade”, Poesia de Mônica Ribeiro – 1ª edição – Editora Penalux – Guaratinguetá – SP, 2020, 128 p.
ISBN: 978-65-5862-003-7

Link para compra e pronta entrega:
https://www.editorapenalux.com.br/catalogo-titulo/paganissima-trindade

(*) Krishnamurti Góes dos Anjos. Escritor, Pesquisador, e Crítico literário. Autor de: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos, Embriagado Intelecto e outros contos, Doze Contos & meio Poema e À flor da pele – Contos. Tem participação em 28 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional - Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações ///
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Fatima 13/01/2022

Sentimentos
Sabe quando você não gosta de poesia, mas vê partes dos poemas e fica com vontade de ler o livro todo? Foi o que aconteceu comigo!! Simplesmente amei e me identifiquei com as palavras que cobrem cada página de Paganíssima Trindade! Super recomendo.
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Galhardo 20/01/2021

Mô Ribeiro apresenta uma lindíssima e deliciosa obra de estreia. "Paganíssima trindade" é uma coletânea de poemas para se devorar rápido e esperar maturar na mente. Entre temas comuns a existência, abordando angústias, medos, ansiedade, autoestima e cotidiano com sua poética acessível e cativante!
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