Alice No País das Maravilhas

Alice No País das Maravilhas Lewis Carroll




Resenhas - Alice no País das Maravilhas


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Andreia Santana 15/10/2011

Mil faces de Alice
Alice no País das Maravilhas talvez seja uma das histórias infantis mais queridas pelos adultos. Primeiro porque existe encanto e beleza e um certo toque de magia e absurdo, como em toda história infantil inteligente; depois, porque as mensagens subliminares escondidas em cada episódio, cada aventura vivida pela menina que cai na toca de um coelho e vai esbarrar em outro mundo, onde nada parece fazer sentido, dá margem às interpretações mais diversas.

Têm pesquisadores que até duvidam que Alice no País das Maravilhas tenha sido escrito para crianças. À luz da psicanálise, o jogo de espelhos, a loucura do chapeleiro, as obsessões da rainha de copas, o esconde-esconde com o gato, as variações de tamanho da personagem (ora minúscula e insignificante, ora gigantesca, desproporcional, sempre inadequada) dizem muito mais para um adulto do que para uma criança. Embora, originalmente, a história tenha sido escrita para uma menina de dez anos. No entanto, uma criança do século XIX. Alice e, por tabela, Lewis Carrol, seu criador, são enigmas que se reconfiguram e não perdem a juventude, o ineditismo, a surpresa, mesmo mais de século e meio depois da primeira publicação do livro na Inglaterra da época vitoriana, em 1865.

Considerada uma das obras mais importantes da literatura inglesa, Alice no País das Maravilhas é a história infanto-juvenil que mais coleciona adaptações para o cinema, seriados de televisão, teatro, quadrinhos ou que inspira outras obras do gênero. Dois escritores saídos do universo HQ, contemporâneos, já declararam sofrer influência do estilo surrealista e nonsense de Lewis Carrol: Neil Gaiman (criador da saga de Sandman) e Allan Moore (A Liga Extraordinária). Basta assistir Máscara da Ilusão ou ler Lugar Nenhum, para se ter uma ideia do quanto Alice no País das Maravilhas e sua continuação Alice através do espelho, influenciam a obra de Gaiman. Encontro ainda traços de Alice em Charlie e a fantástica fábrica de chocolates, de Roald Dahl e na obra de Terry Pratchett, ainda citando escritores do século XX.

As edições da história de Lewis Carrol são igualmente inesgotáveis. Das comentadas, luxuosas, integrais, às simplificadas para os menorzinhos, sempre existe uma alice adequada ao senso crítico ou idade do leitor. É uma história que, quando lida na infância, é interpretada de um jeito e quando lida na idade adulta, ganha outros significados.

As meninas da minha geração e creio que outras antes de nós, quando eram pequenas, queriam viver as aventuras da pequena Alice, apenas pelo gosto de conhecer o exótico, o diferente, transgredir, embora na infância não tenhamos nem consciência do que é uma transgressão. Só sabemos que, no nosso mundo lúdico, sempre há lugar para as coisas aparentemente sem sentido, mas recheadas de significados. Mal sabíamos nós que, ao crescer, encontraríamos em vários rostos pela vida afora, diversas versões da rainha de copas, do gato de cheshire e do chapeleiro louco.

De certa forma, toda menina traz dentro de si, mesmo quando mais velha, um pouco de Alice, seja no país das maravilhas ou de um dos dois lados do espelho.
Ingridy Rayane 20/01/2012minha estante
Adorei! Concordo! Vou usar seu trecho que amei: "De certa forma, toda menina traz dentro de si, mesmo quando mais velha, um pouco de Alice, seja no país das maravilhas ou de um dos dois lados do espelho."


Suh 23/05/2013minha estante
Amei sua resenha! Disse exatamente o que senti! Há muito tempo queria ler esse livro, e agora finalmente li, e sinceramente, apesar de não ser mais criança, viajei muito nas aventuras da Alice... Meu coração apertou nos momentos mais tensos, e ri muito nas partes mais doidas. Foi uma experiência maravilhosa! Livro extremamente bem escrito, feito simplesmente para todo tipo de pessoa! Muito boa sua resenha :)


Gui_Margutti 18/02/2016minha estante
Adoreii! Sensacional!!


Deni 08/06/2016minha estante
"De certa forma, toda menina traz dentro de si, mesmo quando mais velha, um pouco de Alice, seja no país das maravilhas ou de um dos dois lados do espelho." Simplesmente, adorei




kassya 28/07/2009

Real.
Essa historia fez parte da minha infancia. O livro, a peça de teatro, o LP, ... eu vivi intensamente essa historia, durante a minha infancia, foi depois dela que começei a estudar teatro. A muito tempo tento escrever alguam coisa sobre esse momento.. e hoje encontrei em palavras alheias tudo o que eu queria expressar. o autor do poema eu idenfico abaixo.


"A menina sonhadora
E pouco desavergonhada,
Desfez-se da realidade
E foi para uma terra encantada.

Senhora do seu nariz,
De seu nome Alice,
Escapou por um triz
A um universo de doidice.

Pois o seu mundo era de doidos
Mas até fazia sentido
Porque os doidos lá eram sãos
E o coelho andava vestido.

Um mundo impossível
Cheio de possibilidades,
Muito pouco plausível
Feito de mil realidades". – (Wiscat)
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Michael 22/01/2010

Depois da produção da Disney, a obra de Lewis Carrol passou a ser vista pela maioria como uma história infantil. Não se enganem. Alice no país das Maravilhas pode até ser repleta de histórias infantis, mas o caótico País das Maravilhas apresenta personagens interessantíssimos, diálogos memoráveis e muita filosofia!
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JLM 22/03/2009

Doidera
Alice é realmente um livro estranho, inicialmente. O leitor sente-se perdido na história, como se estivesse sendo conduzido por um escritor enlouquecido ou como se fosse transportado para um mundo sem a mínima pretensão de ser racional. Mas, em uma análise mais profunda, e levando-se em conta que é um livro infantil, pode-se dizer que Lewis Carroll tentou mostrar o mundo adulto pela visão de uma criança. Muitas coisas não fazem sentido, seja uma cerimônia de chá, um jogo de croqué, as atitudes daqueles que mandam, um julgamento etc. E, quando a criança, querendo satisfazer sua curiosidade inata, faz uma pergunta sincera, recebe complexas explicações que a deixam mais perdida ainda. Neste ponto de vista, o livro é uma pérola infantil, que deve influenciar muito mais crianças que adultos, pois já perderam a capacidade de sentir sem racionalizar. Quem senão uma criança conseguiria imaginar um País de Maravilhas com coelhos preocupados com a hora, cartas de baralho fiéis a uma rainha que só ordena execuções, um chapeleiro, um arganaz e uma lebre em uma interminável cerimônia de chá ou um gato de Cheshire que desaparece e reaparece em partes? As aparentes loucuras trazem à tona ensinamentos simples, mas importantes aos jovens.

O desenho animado da Disney (1951), foi adaptado da obra de Carroll para parecer um pouco mais entendível, e pode ser visto no Youtube, dublado, em 8 partes.

Em 2008, a EA lançou o jogo de computador American McGee's Alice, onde uma Alice adulta e dark retorna ao País das Maravilhas, agora bem mais perigoso.

Fonte: Libru Lumen (www.jefferson.blog.br)
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Victor 04/03/2011

Depois de anos e mais anos vendo o filme Alice no país das maravilhas passar incansavelmente no SBT e agora, depois da adaptação do Tim Burton, resolvi ler o clássico de Lewis Carroll.
É simplesmente adorável e absurdamente incrível.
Alice no país das maravilhas conta a história das aventuras de Alice por um mundo fantástico, cheio de criaturas surpreendentes. E em Através do espelho e o que Alice encontrou por lá, Alice se vê num jogo de xadrez, e a medida que ela avança casas para se tornar rainha, aparecem inúmeros personagens interessantes.
Cheio de poemas e enigmas, o livro de Carroll tem de tudo para continuar encantando os leitores por muito, muito mais tempo..
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Danton 08/07/2009

O buraco do coelho
O momento mais maravilho do livro é quando Alice chorando diz ao gato:
"Eu não sei que caminho devo tomar."
"Para onde você quer ir?"
"Eu não sei."
"Ah, então qualquer caminho serve."

ou algo assim.
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Nanci 18/07/2014

Alice moderna
“Aventuras de Alice no país das maravilhas” é mais uma adaptação do clássico infantil de Lewis Carroll (1832-1898); desta vez foi traduzido por Vanessa Barbara e ilustrado pela artista plástica japonesa Yayoi Kusama *. A edição da Editora Globo (2014) recebeu esmerado projeto gráfico, com capa dura em tecido: beleza que pode ser apreciada por crianças, jovens e adultos.

É a terceira vez que leio este famoso texto de Carroll – a obra traduzida por Monteiro Lobato e depois adaptada por Cristina Porto e agora com a frescura e atualização vocabular de Vanessa. A história simples e encantadora é mantida; personagens, lugares e situações preservados, mas as inclusões modernas, seja no humor, no jogo de palavras e trocadilhos foram muito acertadas. Vanessa Barbara não se afastou da tradução original: encontramos palavras e trechos iguais aos usados pelo mestre Monteiro Lobato; por outro lado, sua assinatura também aparece – e faz diferença!

As ilustrações de Kusama são um bônus. Seus desenhos não estão ali para repetir com imagens as fantasias, aventuras e encrencas vividas pela menina Alice. São, em contrapartida, uma nova porta para o mundo dos sonhos. Os objetos das obsessões da artista – que ocupam sua vasta produção – aparecem no livro: círculos, repetições, cores fortes etc.

Espero que Alice, o coelho apressado, a rainha maluca e os demais seres fantásticos e divertidos possam sobreviver no século XXI. Nossas crianças precisam conhecer a genialidade desse escritor inglês do século XIX.

* A exposição "Obsessões Infinitas" é excelente. Tive oportunidade de visitá-la em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake, e fiquei impressionada com a qualidade não só do trabalho da artista, mas da curadoria, de sua montagem e divulgação no Brasil. Minha motivação para reler Alice.
Renata CCS 21/07/2014minha estante
Adorei! Acho que jamais iria procurar por essa obra não fosse a sua resenha!




Érika dos Anjos 08/01/2010

Demorei muitos anos para finalmente ler o clássico Alice no País da Maravilhas... e garanto que não me arrependi. Porém, repetindo o lugar-comum, este não é um livro para crianças. Ou melhor, apesar de falar de uma criança (ou pré-adolescente, como queiram) tem muito mais de filosofia e de indagações do que se espera de um 'conto de fadas'.
A história e o mote nem vale a pena contar mais uma vez, porém, separei alguns pormenores que me chamaram atenção durante a leitura:
- A percepção de Alice sobre as mudanças no seu corpo, aumento e diminuição. O que me faz crer ainda mais na ideia de uma Alice pré-adolescente;
- A curiosidade inerente dos jovens, que nem sempre acabam bem;
- O coelho como um persongem que retrata (já naquela época) a tendência do ser humano em querer fazer mais e mais em menos tempo; além do medo dos superiores no trabalho;
- A Dama de Copas como uma crítica à monarquia; assim como o rei muito mais frouxo que a rainha;
- O chapeleiro louco e a lebre de março, que em seu eterno chá, podem querer dizer as eternas voltas que damos na vida sem chegar lugar nenhum;
- As funções do naipes como uma lembrança de que cada um tem seu lugar no mundo, sua função;
- Mas, acima de tudo, os questionamentos sobre o ser e o estar, a diferença entre o que se sente e o que os outros veem de você e outras perguntas que, até hoje, têm várias respostas, mas que nenhuma responde perfeitamente.

Enfim, um livro gostoso e que faz você continuar pensando depois de terminar de lê-lo...

PS.: Medo, muito medo da adaptação do Tim Burton...
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Mari 10/01/2010minha estante
Hhahahaha, to louca para a adaptação do Tim Burton! Vai nos mostrar outra... pespectiva?! aahahhaha, relaxa... O clássico não vai sumir, Tim sabe o que faz! Adoro o trabalho dele!




Mateus 16/03/2010

Alice no País das Maravilhas é um livro mágico. Mesmo não sendo mais criança, me encantei e me diverti com a doce Alice. Ela é tão ingênua, que a maioria de suas palavras são super hilárias. Ela me divertiu e me fez rir bastante.
Para quem leu o livro com bastante atenção, logo vemos que Lewis Carrol escondeu muito coisa nesse pequeno livrinho infantil. Ele debocha bastante da Inglaterra e suas manias: a grande pressa dos ingleses, representada pelo Coelho Branco sempre gritando "É tarde!"; a bagunça que sempre se encontra nos tribunais, como os jurados escrevendo seus nomes em quadros para não esquecê-los depois; o fanatismo dos ingleses pelo chá, como o Chapeleiro Louco que toma chá o dia todo; a grande mania das pessoas em mandar nos outros, que a Alice reclama o livro inteiro; dentre diversas outras coisas "escondidas" durante o livro.
Todos os personagens são memoráveis. A Rainha de Copas, o Chapeleiro Louco, a Lebre de Março, o Coelho Branco, Bill, o Lagarto, as Cartas, a Duquesa. São personagens que vão encantar todas as idades, tenho a certeza disso. Vale a pena ser lido, um livro para se ler e nunca mais esquecer.
Refletindo ao acabar de ler o livro, percebi que tudo na vida de Alice estava naquele sonho. Suas grandes dúvidas da vida, sua imaginação, seu amadurescimento. Cortem as cabeças! Será mesmo um País das Maravilhas?
Mika 25/03/2012minha estante
Esse é sem dúvida meu livro preferido.




Lacerda 29/11/2009

Alice não é um livro só para crianças; arrisco dizer que é como um Pequeno príncipe, cada vez que ler, é uma interpretação diferente.

Carroll pra escrevê-lo deve ter roubado o narguile da largarta e ficou longas horas no jardim vivendo sua história.

É simplesmente fantástico poder entrar nessa aventura, se sentir uma carta de baralho, participar do jogo de críquete da rainha, tomar chá com o chapeleiro, a lebre e o leirão; gostoso ver o gato de cheshire e viver uma aventura digna de Alice.
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Karenn 05/01/2009

Um livro infantil cheio de metáforas sobre a vida adulta.
Lindo.
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Gilberto 15/11/2009

Livro para criança?
A produção da Disney deve ter afastado muitos adultos desse maravilhoso livro. Não se engane, somente um adulto pode compreender o real significado da aventura de Alice no País das Maravilhas.

Os personagens são nada mais, nada menos, que as pessoas do mundo real. O Coelho Branco, por exemplo, representa todos os cidadãos modernos, que estão sempre apressados para receber e fazer ordens de seus superiores. O Rei e a Rainha de Copas como "superiores" (chefes), eles podem ser vistos como uma crítica contra a monarquia.

O ponto mais abordado do livro é sobre a adolescência. Lewis deixa clara a passagem súbita à adolescência da personagem. A garota fica confusa, já não sabe quem é e tem problemas com seu tamanho.

Além da parte lógica (matemática), outro ponto interessante é a do sonho. Lewis foi um dos primeiros a tratar o sonho como algo não sobrenatural, até mesmo antes de Freud. Interessante, não?

Já no final do livro, Alice, que já está maior que qualquer outra personagem, se cansa de ser mandada pelas "criaturas" e desrespeita todos, até mesmo, o Rei. Seria um grito pela sua própria independência?

Pessoalmente, a parte que mais gostei foi quando a Alice se encontra com o Gato de Cheshire e ela, perdida, pergunta qual caminho deve seguir, seja qual for o caminho. O Gato, simplesmente, diz que "se tanto faz um caminho, qualquer um serve. Você, certamente, chegará em algum lugar, seja ele qual for."

Mesmo sendo do estilo "nonsense", no geral o livro faz muito sentido. Não o leia achando que é mais um livro para criança, preste atenção em cada detalhe e o reflita na realidade. "Alice no País das Maravilhas" é sem sentido (que faz bastante sentido).
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Coruja 19/05/2015

Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho são, muito provavelmente, os mais famosos livros infantis do século XIX (antes que alguém tente argumentar, Peter Pan, de J. M. Barrie, foi publicado já no século XX). De fato, eles inauguraram uma nova era na literatura infantil inglesa – livros que não precisavam ser didáticos ou moralistas, que não ensinavam lições, mas que simplesmente criavam mundos fantasiosos em que as crianças podiam brincar com sua imaginação livremente.

Embora tenha havido outros autores antes de Carroll a usar de mundos fantásticos em suas obras, o sucesso que ele conseguiu com seus livros foi o que fez o mercado enxergar que existia um inteiro filão literário que não era explorado e que crianças (e adultos) também gostavam de histórias sem lições e moralismos.

Os dois volumes das aventuras de Alice são, simultaneamente, sem qualquer senso, ricos de significado e fortemente fundamentados na lógica. Isso pode parecer bastante contraditório, mas a verdade é que faz todo o sentido do mundo aplicado à obra de Carroll.

Tanto o País das Maravilhas quanto o Outro Lado do Espelho são mundos que, comparados ao nosso – e Alice, em suas jornadas, está constantemente fazendo comparações – são ‘o avesso do avesso do avesso’. Contudo, vistos mais de perto, eles possuem sua própria lógica, e, a partir do momento em que Alice – e o leitor – é capaz de compreendê-lo, ela pode usar essa lógica a seu favor.

Para ilustrar melhor esse ponto, vamos começar lembrando que a era vitoriana é um período famoso pela expansão do Império Britânico, o que gerou um enorme interesse pelo estrangeiro: o estranho, pigmeus, múmias, o misticismo oriental, tribos perdidas, cultos secretos, e por aí afora.

A idéia de Alice explorar de forma ‘profissional’ esse novo mundo em que ela chega – e o estranhamento que lhe causa os aparentes absurdos dessa cultura que ela não conhece – ecoa uma geração de aventureiros como Livingstone e Richard Burton, parte invasores, parte cientistas, parte ‘esforço civilizatório’.

Não à toa, a violência é também parte intrínseca das jornadas exploratórias da garota: a expansão do Império não se deu sem muito derramamento de sangue. Nos mundos imaginários de Carroll existem também conflitos e batalhas, muitas vezes inevitáveis, mas, ao mesmo tempo, desnecessárias e sem sentido. Essa violência gera um humor mórbido quase sadista, não particularmente diferente de desenhos animados de nossa infância, como Picapau ou Tom e Jerry.

A curiosidade move Alice, uma curiosidade infantil incapaz de avaliar riscos – afinal, ela se enfiou pela toca do coelho sem qualquer plano ou meio de retorno, e, não hesita muito a beber ou comer de cogumelos e frascos oferecidos por estranhos. Talvez isso possa nos horrorizar e usar como exemplo do que não se deve jamais fazer, mas não podemos esquecer que Alice é uma criança, e crianças não aprendem por deduções e inferências, mas através da experimentação – colocando o que não deve na boca, metendo o dedo na tomada...

De uma forma geral, os personagens nos dois volumes são bidimensionais, presos perpetuamente em padrões de conduta do qual não podem se desvencilhar. Tweedledum e Tweedledee estão sempre brigando, Humpty Dumpty sempre cairá do muro, a Rainha de Copas sempre pedirá as cabeças de seus súditos, a festa do chá nunca termina. Eles são francos ao ponto de serem bruscos, compartilhando seus pensamentos mais privados sem qualquer tipo de censura – em outras palavras, tudo o que precisamos saber deles está na superfície.

Uma das poucas exceções à regra é a Lagarta, que irá se metamorfosear em borboleta – e, não à toa, é a Lagarta que serve como uma das mais importantes guias de Alice no País das Maravilhas, levando-a a fazer uma das principais perguntas do livro: a questão da identidade.

Identidade, para Alice, é algo que está sempre mudando, junto com seu tamanho. Essa instabilidade cria um bocado de ansiedade e confusão para nossa heroína, mas também permite certo tipo de exploração diferente da geográfica . Quando perguntam a Alice “quem é você?”, somos levados, junto com ela, a questionar o que realmente constitui identidade – somos um nome, um comportamento, uma crença? Quem somos nós?

O motivo mais óbvio para essa confusão passa pela questão do crescimento – na mudança da infância para a adolescência. Mas devemos notar que Carroll não trata dessa transformação como algo bom e natural – para Alice, crescer é algo sobre o que ela não tem qualquer controle e que é, no mais das vezes, sinônimo de confinamento. Ela consegue se libertar através do engenho e imaginação, ‘armas’ frequentemente vinculadas à juventude – não apenas de corpo, mas de mente.

Alice precisa se confrontar com esse tipo de pergunta porque, até então, sua educação é uma imensa lista de fatos e frases decoradas – e decoradas muito mal a julgar pelo atropelo que ela faz do que está declamando. É uma clara crítica ao sistema educacional, da decoreba sem raciocínio: o que as crianças aprendem na escola não é nem um pouco prático, e Alice tem dificuldade de colocar o que aprendeu em contexto ou aplicar isso à vida real. Em vez de aprender como pensar, ela é ensinada sobre o que pensar.

Para além disso, a dificuldade que nossa heroína sente em explicar quem é ela decorre do fato que Alice também é uma personagem bastante bidimensional. E isso também não é coincidência.

No ‘mundo real’, a única personagem com nome com que Alice interage é sua gatinha Dinah. Fora isso, ela tem uma irmã mais velha que para além da breve aparição da moça ao final do primeiro volume, não dá mais o ar da graça. Alice não pensa em sua mãe, ou seu pai ou qualquer outro membro da família, mesmo nos momentos em que está mais assustada. Num certo aspecto é uma heroína completamente genérica e isso é o que permite a nós, leitores, nos imaginarmos em seu lugar.

Para além das famosas ilustrações de John Tenniel, e de algumas expressões idiomáticas características do período, há muito pouco nos livros que nos prenda a uma única e determinada época e lugar. Alice transcende esses contextos.

A falta de profundidade aparente nos permite usar Alice para refletir e descartar preconceitos, a nos afastar de presunções. Junto com ela, nos esforçamos para entender a lógica atrás de situações aparentemente insanas ou absurdas e assim nos abrirmos a novas interpretações.

Cá entre nós? Isso é uma das minhas coisas favoritas em Alice...

Embora os dois volumes de Alice sejam normalmente classificados como literatura infantil, a verdade é que ambos – com especial ênfase em Através do Espelho – possuem um verniz filosófico e um requinte linguístico que os tornam leitura bem mais madura.

Não que com isso eles percam o apelo junto ao público original. A imagística de Alice, seus coloridos absurdos, suas peculiares criaturas, suas esdrúxulas situações, apelam para tudo aquilo que fascina os pequenos.

O que existe aqui são diferentes níveis de compreensão captadas – há uma miríade de interpretações possíveis conforme os interesses e inclinações do leitor, e, por isso, existem várias diferentes Alices andando por aí na cabeça das pessoas.

É possível enxergar referências à Guerra das Rosas, críticas à política e a presença dominadora da Rainha Vitória, existencialismo, darwinismo, questões de gênero, religião, drogas e teorias da conspiração de sua preferência. Considerando a bidimensionalidade da maioria dos personagens, é fácil enxergá-los como alegorias e encaixá-los em qualquer simbologia que se queira.

O leitor ideal dos livros, contudo, é aquele que conhece o contexto da cultura vitoriana (o verdadeiro leitor ideal seria um vitoriano, mas, por motivos óbvios, eles não estão mais disponíveis... ). Sei que disse antes que as aventuras de Alice transcendem limites de tempo e espaço, e é perfeitamente possível aproveitar a sua leitura sem conhecer esse tipo de detalhe. Mas, ao mesmo tempo, ao acrescentar essas pequenas nuances à nossa compreensão do texto, ele ganha em sabor e argúcia.

Saber que a expressão “sorrir como um gato Cheshire” tem como possível origem queijos da região de Cheshire, que eram moldados na forma de rostos de gatos sorridentes, nos rende o surreal e hilariante paradoxo de um gato de queijo comido por um rato que é comido pelo gato – o tipo de lógica e humor bem ao gosto de Carroll. Ou reconhecer na irada Rainha de Copas o “cortem as cabeças” do Ricardo III de Shakespeare.

A prosa dos livros aparenta ser bem simples, com frases curtas e sem arroubos de sintaxe, mas seu estilo não é, nem de longe, simplório. Boa parte do humor das histórias se baseia em problemas de comunicação entre os personagens, decorrentes de brincadeiras linguísticas, trocadilhos e palavras homófonas – algo que, por melhor que seja a tradução, acaba por se perder no processo.

Carroll parodia cantigas de ninar, e cria novas palavras, e nos rodeia e dá nós em nossas cabeças com astutas observações e elegantes turnos de frase. Ele nos coloca dentro de jogos de xadrez onde cada movimento corresponde a uma aventura e nos força a enxergar reflexos e contrários no espelho. Ele nos propõe paradoxos, enigmas e quebra-cabeças. Você nunca sabe o que virá a seguir, e essa imprevisibilidade é, também, parte do que torna sua obra tão deliciosa.

Não é à toa que Carroll é um favorito entre cientistas e matemáticos, gente que trabalha com lógica, tendo sido leitura formativa de muitos deles – tanto que há mais de uma teoria sobre matemática e física quântica que se inspira em situações descritas em Alice.

Sendo muito sincera, não fosse o fascínio desses adultos, talvez Alice tivesse se perdido nos anais da história vez que sensibilidades modernas politicamente corretas costumam encarar o País das Maravilhas e o Outro Lado do Espelho não como espaços de sonho, mas sim de macabro pesadelo.

Sério, gente, quem cresceu assistindo Pernalonga acha perfeitamente aceitável o sadismo e o humor negro de Carroll. Crianças acham graça nisso e mais cedo ou mais tarde elas precisam ser confrontadas com a noção de que suas ações podem machucá-las, ou mesmo levá-las à morte. Por isso, é bastante razoável que Alice procure por um aviso de veneno nas garrafinhas que encontra mandando bebê-las (mas não tão razoável que ela decida fazê-lo sem saber qual a origem do misterioso líquido...).

Depois de tudo isso, o que podemos dizer que seja a real essência de Alice? O que devemos levar em consideração ao nos defrontar com as palavras escritas por um tímido matemático para sua jovem companheira mais de cem anos atrás?

Eu poderia extrair muitas lições da obra de Carroll e falar sobre suas interpretações metafísicas ou políticas, dizer que tudo é uma metáfora da reforma religiosa anglicana, comparar a queda pela toca do Coelho com a entrada de Dante no Inferno em A Divina Comédia (uma das interpretações mais interessantes que encontrei em minhas leituras, por sinal), ou falar do Jardim que Alice busca como uma alegoria do Jardim do Éden, ou, ainda, enumerar as instâncias em que Carroll parece querer dizer que a vida é um enorme quebra-cabeça sem sentido. Mas não acho que nada disso seja realmente a essência do que Carroll – ou melhor, Dodgson – queria. Tudo isso são interpretações que outras pessoas fizeram e elas chegaram a essas conclusões inspiradas em suas próprias experiências, e é por isso que não existe uma Alice igual a outra.

Então vou dizer o que Alice é, para mim, na minha experiência pessoal. Alice é o estranho, e o absurdo, e o sonho e a capacidade de aceitar o diferente. Mas, acima de tudo, Alice é o riso e a curiosidade de tentar descobrir o mundo, um erro de cada vez, sem nos deter, mesmo que haja momentos em que teremos de nos sentar no chão e chorar um pouco para recuperar a coragem.

É aceitar que somos todos loucos aqui... e nos regozijarmos com isso. Afinal, se o resto do mundo não faz sentido, porque então devemos fazer também?


site: http://owlsroof.blogspot.com.br/2015/05/wonderland-parte-ii-somos-todos-loucos.html
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inah 23/03/2010

dorgas mano!
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Sylvia 09/01/2012

Livro superestimado, a gente se vê por aqui!
Sério, eu até agora não entendi como esse livro é considerado um clássico. Já ouvi falar que é cheio de referências à sociedade da época e bláblá, mas a maioria das pessoas precisa de uma edição comentada pra perceber isso, e pode me chamar de inculta quando eu disser que eu precisaria também. Mas não tenho paciência com edições comentadas, então eu li a normal mesmo.
E tudo o que eu vi foi a historinha de uma menina mimada e chatinha, que tava de bobeira e resolveu entrar dentro de um buraco atrás de um coelho e vai pro país das dorgas loucas. A narrativa é um saco e também mal-construída, do tipo "ela tava lá fazendo tal coisa e aí arvorezinha pulou e Alice falou besteira enquanto andava pela floresta e bebeu uma fórmula mágica de cocaína".
Pra mim, Alice é só um livro sem história e muito chatinho de ler. É aqueles livros que sempre tem algum metido a cult-psicodélico-ou-sei-lá-o-quê falando "AI ADORO ALICE, AMO LIVROS LOUCOS, A HISTÓRIA É TÃÃÃO BEM CONSTRUÍDA". Já li outros livros nonsense e ia ser bom se as pessoas soubessem que história nonsense NÃO é sinônimo de narrativa sem sentido.
Uma merda, sério.
Humb 09/09/2013minha estante
E tem pessoas dizendo que é um livro para crianças.
Com uma rainha mandando cortar a cabeça? Desde quando um livro desses é para crianças?




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