Como usar um pesadelo

Como usar um pesadelo Bruno Ribeiro




Resenhas - Como usar um pesadelo


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Toni 03/03/2022

Leitura 065 de 2021
*Cortesia da editora*

Como usar um pesadelo [2020]
Bruno Ribeiro (MG, 1989-)
Caos & Letras, 2020, 144 p.

Acabei a leitura dos contos de Ribeiro antes de viajar e escrevi umas palavrinhas a título de impressões a serem elaboradas depois. Por coincidência, calhou que no último domingo almocei com uma amiga professora de literatura na UFPB (beijos, querida) e falamos sobre os novos escritores "paraibanos", dentre eles, um seu aluno especial que participou de uma disciplina e foi descrito pela professora amiga como “brilhante”: ele mesmo, o Bruno. Não contesto o adjetivo um tanto quanto extremo: há de fato um talento inegável nas narrativas do autor nascido em Minas e radicado em Campina Grande-PB, uma capacidade de trabalhar os desvios da normalidade e, ao mesmo tempo, fazer da normalidade algo assustadoramente atroz e desviado.

Bruno Ribeiro parece trabalhar a densidade da violência por vias que se lêem leves, cômicas, corriqueiras, mas aí reside, de fato, aquilo que nos traga, enquanto seus leitores, para um desconforto muitas vezes sem catarse à vista (seja no horizonte narrativo ou no horizonte simbólico em que estamos metidos). Gostei bem mais dos contos longos, mas isso não significa que os mais curtos possam ser facilmente esquecidos. O autor trabalha diferentes gêneros (do diário distópico ao formato cinematográfico/teatral etc) para apresentar uma topologia não só das violências estruturais do país, mas também a violência da resistência, do ato de narrar que se cria na afronta de cada dia, em nosso gesto de revelar o absurdo e imaginar outros mundos que desafia o sorriso dos torpes no poder.

Bruno está lançando seu novo romance “Porco de raça”, descrito pela editora como “uma distopia humana, sombria, visceral, potente, violenta e repleta de horror”. Tendo em vista a habilidade do autor em segurar narrativas mais longas, aguardo ansioso por mais essa leitura.

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Kaydson Gustavo 10/11/2021

"Ele nunca dobra a esquina em que a morte estará o esperando." (p. 34)
A escrita do Bruno chegou até mim através de um clube de leituras. No mês de outubro, cujo mês é aniversário de Campina Grande, foi decidido ler um autor daqui.

A leitura foi começada de forma resistente, livro de contos. Não é minha praia e tenho certa resistência para lê-los. Como tomar uma dose de Dipirona, programei para tomar de uma vez e engolir as palavras do Bruno para declarar seu fim.

E é no fim que inicia-se o caos. Bruno é visceral! E como eu o disse: Sádico e erótico. Sangue e sede. Passional, jogando-nos as nossas paixões, nossos crimes mentais e nossos desejos ocultos.

A gênesis de Bruno é seu primeiro conto nesse livro, seu parto. E não refiro a parir, mas partir-se, despedaçar, seu pesadelo, sua insanidade consciente, a morte de uma mosca. A mosca da sopa de Raul Seixas. As vísceras Kafkianas. É no primeiro conto que Bruno nos torna apocalípticos. Entre o corte de uma faca, uma saída de piloto automático de uma garçonete que busca entender a existência da vida. Nas vitrines que refletem isso? Vida. É o clube da luta psicodélico.

O livro reúne além desse primeiro conto mais doze contos, totalizando 13. É a Sexta-feira 13 de Bruno Ribeiro sendo nossa diversão e nossos azares. Se você que agora me lê está achando tudo isso insano e sem sentido, é somente no uso de seus pesadelos que o autor nos dá o caminho.

Conto como: Vem me ver. Ele traz sua caça e presa, tesão e tensão, água e gelo, frio e calor. As dicotomias, os extremos. Masoquismos sexuais e literários.

Um conto ao qual a morte nos espera e nunca saberemos quando a encontraremos na próxima esquina.
Infernos e paraísos.

Ribeiro traz questões importantes como futuro, homofobia, sexualidade, sensualidade, racismo, violência doméstica, violência dos cães do estado: a polícia. Carniceiros.

Por carniceiro, o autor nos mostra a carne, o sangue e seus pesadelos, sua babel mental. Bruno é gigante e seus contos não terminam, ficam rondando sua mente por dias, buscando a chave da saída. O fim do pensamento, a libertação da cela. Isso tudo para nos mostrar que o inferno está nos outros, mas também em nós. E talvez seja esse o paraíso.

Quais seus medos? E quais seus pesadelos?

Nota: 9,0/10
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Alexandre Kovacs / Mundo de K 10/02/2021

Bruno Ribeiro - Como usar um pesadelo
Editora Caos & Letras - 148 Páginas - Projeto Gráfico: Cristiano Silva - Arte de Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2020.

Distopia é pouco para explicar o clima de surrealismo nonsense e a banalização da violência presentes nos contos (ou pesadelos) de Bruno Ribeiro. Com uma linguagem direta e diálogos precisos e velozes, que poderiam ser utilizados em roteiros cinematográficos, o autor coloca os seus personagens, normalmente com posturas politicamente incorretas, em situações de tensão e desespero; um estilo que poderia ser definido como uma mistura de Quentin Tarantino e Chuck Palahniuk. Contudo, a verdade é que a inspiração para muitos desses textos poderia ter vindo de qualquer noticiário, considerando o clima de barbárie que assola o país ultimamente.

O conto de abertura, "A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero", premiado no "Brasil em Prosa", organizado pelo jornal O Globo e Amazon, é uma ótima introdução ao estilo do autor. O protagonista-narrador está em um restaurante e não demonstra a menor repulsa quando percebe uma mosca agonizante em seu prato com bife e batata frita, parecendo até mesmo admirá-la. Ele logo estabelece contato com a garçonete "gorda, cheia de espinha e depressiva" para compartilhar as suas impressões sobre o inseto; o conto avança até chegar a um final surpreendente. Destaquei alguns trechos, sem spoiler da conclusão, para dar uma ideia do ritmo narrativo.

"Uma mosca tomba no meu prato com bife e batata frita. Agoniza. Bactérias. Díptero braquícero da família Muscidae. Poucos milímetros de comprimento. Pego o garfo e cutuco o inseto, escuto um chiado, feito televisão fora do ar. Coloração cinza no tórax, abdômen amarelado. Duas asas, uma delas levemente rasgada. Por isso agoniza. Olhos grandes, espaçados, vermelhos. Continua chiando, morrendo. Empurro-a com a faca, corto um pedaço da carne, separo, finco o garfo em três batatas e depois na carne. Deixo cair uma gota do sangue do bife em cima da mosca. Engulo o alimento, mastigo, admiro o esforço do inseto em tentar sair da bolha marítima avermelhada. [...]" - Trecho de A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero (p. 15)

No conto "Vem me ver", a protagonista divide um apartamento na Argentina com um misterioso companheiro que recebe mensalmente uma caixa branca com com uma tarja verde, envelhecida, com a inscrição em negrito: "Consumir até 15 dias" e vive recluso em seu próprio quarto. Excitada por uma mórbida curiosidade, depois de insistentes tentativas de seduzir o "esquisitão", andando seminua pela casa durante as madrugadas, ela parte para o ataque completamente embriagada. Trabalhando com as tensões conflitantes entre o erotismo e o terror, Bruno Ribeiro sabe muito bem como conduzir a curiosidade do leitor.

"Ao meu redor, no restaurante, não há ninguém. Exceto a garçonete gorda, cheia de espinha e depressiva. Não há ninguém. Reconheço os meus. É como uma doença visível, lepra. Os olhos caídos, o cheiro de cadáver, a expressão derrotista. Impossível não reconhecer uma depressão. Ela pergunta se eu quero mais alguma coisa. Vejo um crachá acima do seu peito gigante: Marta. 'Não, Marta, obrigado'. Ela dá meia volta, carregando a bunda disforme e sua tristeza de volta para o balcão. Marta vive aprisionada dentro de uma bolha marítima avermelhada. A diferença dela para a mosca é que o inseto luta bravamente para sair, Marta já desistiu. [...]" - Continuação de A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero (p. 16)

"Talvez seja o paraíso", narrado em terceira pessoa é o último conto do livro e o maior em extensão, praticamente uma novela, apresentando um protagonista com uma inexplicável compulsão pela violência em um mundo que ficou repentinamente deserto. Nesta autêntica distopia, viajando de cidade em cidade "o homem", como é simplesmente nomeado, encontra um menino de treze anos que passa a acompanhá-lo. Apesar da "vontade de cortar o garoto só para ver se ele sangraria", ele consegue resistir aos seus instintos, por algum tempo apenas. O homem precisa de carne, sangue, o pulsar de um corte, o fluir do vermelho, a obra-prima do grito.

"Afogou-se. Vive por comodidade. É mais fácil respirar do que morrer. Se matar dá trabalho. Já tentei quatro vezes. Dá trabalho. É preciso ter coragem para fazer bem feito. Decido tirar a mosca da bolha. O chiado retorna, ofegante, como se ela estivesse afundando em um mar profundo e de repente alguém a socorresse. Como mais um pedaço de carne. Mastigo quatro fritas. Não pisco os olhos: a mosca tenta voar, cai. Tenta de novo, cai. Está nas fritas, buscando fôlego para uma nova empreitada. [...]" - Continuação de A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero (p. 16)

Sobre o autor: Bruno Ribeiro (1989) nasceu em Pouso Alegre-MG e é radicado em Campina Grande-PB. Escritor, tradutor e roteirista. Autor do livro de contos Arranhando Paredes, traduzido para o espanhol, e dos romances Febre de Enxofre, Glitter, Zumbis e Bartolomeu. Mestre em Escita Criativa pela Universidad Nacional de Tres de Febrero (UNTREF), de Buenos Aires, foi finalista da 1ª edição do Prêmio Kindle, Menção Honrosa do 1º Prêmio Mix Literário, e venceu os prêmios Brasil em Prosa, Todavia de Não Ficção e Machado Darkside.
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