Os diários de Virginia Woolf

Os diários de Virginia Woolf Virginia Woolf




Resenhas - Os diários de Virginia Woolf


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Ruh Dias (Perplexidade e Silêncio) 05/01/2022

Sugestão de Leitura
"Os Diários - Volume I" é o primeiro volume dos diários de Virginia, que manteve o hábito de escrever em diários por mais de quarenta anos, registrando momentos do cotidiano que, eventualmente, viravam cenas ou personagens em suas obras. Na época deste primeiro volume, Virginia tinha 33 anos de idade, havia casado recentemente com Leonard, eles moravam em Richmond (uma cidade próxima a Londres) e ainda não havia publicado nenhum de seus livros. Leonard estava começando a montar sua editora e vemos que ela ajudava em uma série de atividades desta editora.
Em paralelo, enquanto escrevia os diários, Virginia tentava encontrar a sua voz como autora e já percebemos, nos registros, muito de sua identidade e sensibilidade e, sobretudo, sua capacidade de transformar o cotidiano em algo poético e profundo.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de pessoas e amigos que passavam pela vida dela e do marido. Me pareceu que sempre havia uma visita, um passeio ou uma viagem acontecendo e que quase não havia oportunidade para Virginia ficar sozinha, refletir ou descansar. Quando li sobre sua vida, no passado, eu tive a impressão de que ela era uma mulher solitária, e depois de ter acesso a este Diário fiquei me perguntando se não era exatamente esse excesso (de pessoas, de conversas, de eventos) que a desconectavam de si mesma e da realidade. Eu que tenho uma natureza introvertida fiquei cansadíssima enquanto lia os registros e tive a sensação de que nenhum destes relacionamentos (ou poucos deles) eram realmente interessantes e relevantes na vida dela.

A outra coisa que me chamou a atenção foi o pano de fundo da Segunda Guerra Mundial. Cada vez que ela, o marido e as empregadas precisavam se esconder na cozinha, meu coração se apertava. Foi mais ou menos como ler O Diário de Anne Frank, de certa forma. E acho que o fato de eles terem ficado sãos e salvos ao longo desse período, passando apenas por algumas dificuldades relacionadas ao racionamento de comida, mostra como ela tinha um estilo de vida privilegiado.

Me surpreendi (e ao mesmo tempo não) com a amargura que sentimos nela, dependendo da pessoa e da situação que ela relata. Virginia sempre foi perfeita ao descrever as camadas mais profundas de seus personagens, e acho que isso só acontece quando o(a) escritor(a) observa e entende o ser humano - e imagino que não exista uma forma de conhecer o ser humano sem desprezá-lo um pouco. E foram estes momentos de amargura/acidez que me deixaram ainda mais entretida na leitura.
E também fiquei intrigada com a opinião de Virginia sobre Katherine Mansfield, sempre tive a impressão de que elas eram melhores amigas ou algo do tipo.

Como ponto histórico curioso, gostei de ler sobre o processo de impressão dos livros da época. Cada livro, cada simples unidade de um livro, dava um trabalho gigantesco e eu fiquei maravilhada (e aliviada que não seja mais assim). Também gostei de saber que ela lia e resenhava livros, nos primórdios do que seriam nossos blogs literários de hoje em dia.

Mas acho que o que mais chama a atenção é o que não está escrito. Há alguns períodos de hiato entre as entradas de diários que coincidem com períodos em que hoje sabemos que Virginia sofreu mais com saúde mental. [trigger warning - Se este tema é delicado para você, por favor, sinta-se à vontade para interromper a leitura do post] Para quem não sabe, Viginia cometeu suicídio aos 59 anos de idade e é inevitável não pensar nisso ao longo dos Diários, em uma tentativa de entendermos melhor essa escritora e mulher fantástica. Talvez fantástica demais para o mundo e tempo em que viveu.

Eu, que sou fã dela desde que era adolescente, me senti honrada por ter essa obra em mãos. Só fiquei me perguntando se ela gostaria de ter sua intimidade assim exposta - talvez não, ou talvez sim, quem sabe. De toda forma, eu queria que ela soubesse que os registros estão em boas mãos, nas mãos dos fãs que a admiram e a respeitam enormemente. E também queria poder abraçá-la.

site: https://perplexidadesilencio.blogspot.com/2022/01/sugestao-de-leitura-os-diarios-de.html
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Lucas 11/12/2021

A última dos grandes estetas da literatura
Há muito tempo aguardada pelos leitores brasileiros de Virginia Woolf (1882–1941), a tradução completa dos seus diários começa a se tornar realidade quando se celebram oitenta anos da morte da autora. O bom gosto visual da edição se completa no cuidadoso trabalho de tradução, apresentação e notas de Ana Carolina Mesquita, que enfrenta o desafio de entregar ao leitor, habituado com a riqueza e o aprumo estilístico de Woolf, um texto cheio de abreviações, repetições e lapsos, produzidos ao gosto do momento, com a curiosa mistura de urgência e de ponderação que caracteriza essa forma de escrita. Se falta a substância textual que torna tão fascinantes os seus romances e ensaios, por outro lado sobressai a essência de uma observadora cuja sagacidade se mostra desde uma simples saída para comprar flores a um sinistro refúgio noturno de um bombardeio. A constante ameaça gerada pela Primeira Guerra Mundial e a angústia provocada pelas crises nervosas são confrontadas por expressões de iluminada alegria e bom humor, sobretudo quando o prazer proporcionado pela arte e pela pulsação da vida urbana superam a opressão das horas. A última dos grandes estetas da literatura, como classificou o crítico Harold Bloom, Virginia Woolf demonstra que o esteticismo é tão mais verdadeiro, potente e criativo quanto mais inteligente, sensível e arrojado for o autor, sobretudo quando capaz de provocar, no encontro da sua solidão com a do leitor, vislumbres de uma realidade que se expande em uma direção desconhecida, na contramão das expectativas de boa parte do público que procura os seus livros pelos mais diversos motivos acessórios ou ideológicos. "Elogios? Fama? A boa opinião de Janet? Como são irrelevantes, todos eles! Não paro de pensar em maneiras diferentes de lidar com as minhas cenas, concebendo possibilidades infinitas, vendo a vida, ao caminhar pelas ruas, como um imenso bloco opaco de material que preciso transmutar em sua forma equivalente de linguagem", escreve. Erguendo o véu do hábito que nos impele a participar do mundo maquinalmente, as palavras da britânica abrem uma perspectiva inesgotável que posteriormente será tão bem explorada nos seus romances. "Que estranho destino, esse - sempre ser a espectadora do público, jamais parte dele", registra num sábado, 30 de novembro de 1918. Pouco mais de cem anos depois, a marca deixada por Woolf segue provocando um indizível estranhamento nos nossos dias.

site: https://www.revistaamalgama.com.br/12/2021/melhores-livros-de-2021/
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Amanda 30/08/2021

Gênio!
Leitura deliciosa. Só provou o que eu já esperava de Woolf. A acidez da autora é uma constante. Proporcionou-me gargalhadas estridentes e potentes reflexões. A descrição frequentemente detalhada, maldosa e bizarra (rs) que ela constrói de cada pessoa a sua volta me faz imaginar o que ela pensaria de mim. Será que eu seria só mais uma pessoa medíocre como tantas que ela descreveu? Ou ela desperdiçaria cinco minutos de sua tão preciosa vida pra trocar comigo algumas poucas palavras sobre nossa paixão comum, a literatura? Gosto de imaginar a segunda alternativa. Esta dúvida me atormentará por um bom tempo. Hahaha
Recomendo fortemente este diário para os já amantes de Woolf!
re.aforiori 19/09/2021minha estante
Pretendo iniciar com Woof em breve, estou a decidir por qual livro iniciar.

Nutro bastante interessante e curiosidade pela obra dela.


Amanda 19/09/2021minha estante
Woolf é minha autora favorita, apesar de sua obra um tanto complexa. Comecei com a não-ficção dela, foi a que despertou meu amor pela autora ?


re.aforiori 19/09/2021minha estante
Ah sim! Maravilha, Amanda! ??

E entre os romances de Woolf, qual você me recomendaria para iniciar?

Estou pensando começar pelo ?Mrs Dalloway?, que uma amiga o ama incondicionalmente, e me cobra sempre para lê-lo. Mas já ouvi falar que há outros livros de Woolf, que são mais recomendados para se adentrar ao seu mundo...


Amanda 20/09/2021minha estante
Mrs. Dalloway pode dar uma assustada assim de primeira haha, eu recomendaria Orlando, acho que é mais tranquilo pra começar!


re.aforiori 20/09/2021minha estante
Bacana, Amanda! Agradeço pela dica! ??

Vou iniciar pelo Orlando, então.

E você saberia me dizer, pelo seu conhecimento na obra da autora; se a complexidade que há em Virginia Woolf, se encontra apenas no fluxo de consciência, ou também em aspectos próprios da linguagem empregada?

E porque o Mr. Dalloway poderia assustar? Haha! ?
A alguma característica que seria mais saliente no mesmo?




TaizaMaria 29/06/2021

Ficção ou Literatura?
Não há como, penso eu, da leitura de um Diário publicado mensurar o que há de realidade nele... mas não é essa uma preocupação que se deva ter.
O de Virginia é instigante, inteligente, elaborado ...como são seus livros.
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