Atos humanos

Atos humanos Han Kang




Resenhas - Atos humanos


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mpettrus 21/11/2021

O Sofrimento à Sombra de Um Massacre
Gwangju, Coréia do Sul, 1980. O povo reage contra o assassinato de estudantes universitários pelo Regime Militar. A onda de resistência fica mais poderosa e logo a ditadura se depara com uma revolução. Uma luta pela liberdade e democracia para o povo sul-coreano. O número de mortos aumenta a cada minuto. Os necrotérios e ginásios estão cheios de cadáveres, jovens e velhos, adultos e crianças. Eles são levados como lixo, as prisões se transformam no Inferno na Terra.

Entre as vítimas, está um jovem estudante com sonhos e aspirações de uma vida melhor, o carismático Dong-ho. Ele é o nosso guia para um curso de morte com sua voz cheia de melancolia e dor. Depois de ouvirmos seu relato, somos levados a conhecer mais cinco relatos. Do melhor amigo de Dong-ho, que não escapou da escuridão, morto pelas tropas. Da editora enfrentando a censura e a tortura. Do prisioneiro que foi torturado por seu envolvimento no levante; da ativista operária que luta para se recuperar dos traumas que a ditadura lhe trouxe; do relato da mãe de Dong-ho, que tenta entender a terrível realidade que destruiu seu mundo. E, por fim, do relato da própria autora que fornece seu próprio testemunho sobre como ela foi pessoalmente, embora indiretamente, afetada por aqueles 10 dias de maio de 1980, quando tinha apenas 9 anos de idade.

Essas vozes formam um coro que narra um conto sombrio da crueldade do que o ser humano é capaz de fazer contra seu semelhante. Crueldade inadulterada, desavergonhada e impiedosa para impor seu poder e ambições distorcidas.

A autora Han Kang desvenda com uma habilidade primorosa os catalisadores sociais e políticos por trás do massacre mapeando sua longa e tóxica precipitação sobre as vidas de Gwangju ao mesmo tempo em que nos entrega um romance de sangue e osso. Porque esse romance também fala da violência sobre o corpo de maneira gráfica e com uma dissonância estarrecedora. Eu não pude deixar de perceber que a cada capítulo a autora explora o que acontece quando dois elementos aparentemente diferentes ou opostos tentam coexistir quando a inocência é cercada de violência, quando os mortos continuam vivos, quando os sobreviventes vivem como os mortos, quando os prisioneiros ainda se sentem aprisionados e quando o passado se torna terrivelmente presente.

Enquanto lia “Atos Humanos”, cujo título original significa “O Menino se Aproxima”, minha paz foi decididamente abalada. Este romance angustiante sobre o massacre de Gwangju não tem interesse, e com razão, em nos fazer sentir em paz. Ele dilacera, assombra, sonha, lamenta e, por causa do uso eficaz da narração em segunda pessoa, os personagens o chamam – persistentemente – até que você sinta o que os mortos sentem e, talvez pior, o que os sobreviventes sentem. Brutal e intransigente, com um floreio de sangue e barbárie que é rápido e inesperado, esse romance é belo e urgente.

Vislumbramos a devastação que o evento causou, que posteriormente foi denominado de ‘Massacre de Gwangju’, e testemunhamos pela literatura de Han Kang um dos atos de violência mais perturbadores do século XX. O romance já começa nos apresentando uma pilha de cadáveres em um oceano de sangue, que são os corpos de todos os jovens que cantaram o hino nacional enquanto eram ceifados pelos soldados de seu próprio país. Porque os estudantes se reuniram nas ruas com suas bandeiras e seus gritos pela democracia e se depararam com uma ditadura impiedosa. As pessoas ficaram em ruínas, e tentar retomar qualquer sentido de vida normal tornou-se quase impossível. Nada seria como antes para a cidade de Gwangju e, sem dúvida, todos se lembrariam desse dia sombrio.

Para além de tudo o que eu disse, devo-lhes contar que esse romance também é sobre legado. E sobre traumas, culpas e recomeços – ou a tentativas de recomeços para os sobreviventes – que, em alguma parte da história, prefeririam ter morrido, porque os efeitos desse evento ainda assombram os passos daqueles que estiveram na luta pela democracia e liberdade. Esse evento, pode em última análise, mudar a face de uma nação. Como as pessoas lidariam com seu próprio país depois de tamanha maldade? Não houve respeito pelos vivos e nem pelos mortos. Os cadáveres foram pisoteados para se tornarem irreconhecíveis. Foram carregados em caminhões de lixo e despejados em vala comum. A ditadura eliminou qualquer traço de dignidade e justiça.

Estupros, espancamentos, torturas das mais vis e cruéis que a mente humana pode conceber, que por um momento, eu pensei que os que morreram foram incrivelmente abençoados. Os sobreviventes das atrocidades se encontraram no limbo anos depois do massacre. Não se recuperaram jamais.

Como você pode continuar vivendo? O que se tornou a vida após o ódio cego e o massacre? O que restou para manter a vida em movimento depois dessa terrível dança de pesadelo de puro terror? E a grande questão que se levanta após lermos esses relatos de atos desumanos: O que é a humanidade? A autora nunca responde.

Esse romance é uma autópsia lírica sobre a violência, entremeados de serenidade e beleza, mas também recheadas de crueldade insuportável e violência crua. É um romance impiedoso, que não nos permite desviar os olhos, apesar do conteúdo difícil de ler, para nos lembrar das feridas que assolam a humanidade há muito tempo, nos fazendo cavar mais fundo em nossa alma e ficar cara a cara com atos que só podem ser cometidos pelo animal mais violento da criação de Deus: o humano.

Mas que, embora ele nos pareça tão desolador, a autora nos entrega nas últimas folhas do romance uma obra-prima: o seu epílogo. Uma obra-prima, porque embora o romance seja uma prosa lírica sobre a violência, é também um chamado para conter essa mesma violência, que para mim seria uma outra perspectiva de interpretar o título da obra os ‘atos humanos’: a busca pela paz, praticando a paz para dias melhores no futuro no mundo e na península que é conhecida como “Terra das Manhãs Calmas”, e para que nunca mais leiamos um outro romance histórico e real de um personagem nos relatando seu sofrimento à sombra de um massacre.
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Angel 18/11/2021

Impactante
A questão inicial do livro é: "O que é ser humano? O que temos que fazer para o ser humano não deixar de ser humano?"
A maior parte do livro se passa na Coréia do Sul na década de 80, onde um grupo de estudantes se rebelaram contra o governo ditador, com a revolta se iniciou o Movimento Democrático de Gwangju, onde 600 pessoas foram executadas.
O livro conta a história do período de óticas diferentes. Temos desde personagens mortos a sobreviventes do massacre. A autora entra em uma boa discussão sobre o que é de fato sobreviver a um massacre brutal, valeu mesmo a pena ter sobrevivido?
O massacre foi covarde, não pode ser chamado de luta pois apenas um lado atacou, como ela descreve em:
"Ninguém do nosso grupo puxou o gatilho. Não podíamos fazer isso sabendo que, quando se puxa o gatilho, pessoas morrem. Nós éramos meninos que carregavam armas com as quais não se podia atirar."
A história é brutal, horrível e revoltante. E por isso é tão necessária. A autora não poupou detalhes ao descrever mortes, torturas e sentimentos de medo e pânico que ela mesma pôde vivenciar ao ouvir.
O livro é incrível e corajoso., difícil não se emocionar ao ler. Uma leitura que eu jamais recomendaria a quem é sensível, diversas vezes tive que parar de ler por me sentir enjoada, nauseada com as descrições. Mas com certeza é uma leitura que jamais vou esquecer.
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polly 16/11/2021

Sinceridade cínica e doce brutalidade.
Não sou de escrever resenhas para o skoob, normalmente não tenho muito o que falar sobre os livros, mas atos humanos é uma obra que precisa reverberar então aqui estou.
Han Kang cria uma atmosfera surreal nas primeiras páginas do livro, você está lá, faz parte de cada segundo contado pela autora amarrado em palanque em praça publica sem muitas opções. Ela força você a contar tudo.
O nivel de imersão desse livro é altissimo, cada página consome um pequeno pedaço da sua alma. Sua escrita é gentil e tranquila, o que facilita na hora de engolir algumas cenas mas ela é cinica, completamente! Lhe da a mão e guia você por caminhos escuros, é seguro até você perceeber onde realmente esta e então tudo pega fogo.
Atos humanos foi a melhor coisa que eu ja tive o prazer de ler!
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mands 12/11/2021

atos humanos
adorei muito a escrita e já pretendo ler a vegetariana, apesar de ser ficção é baseada no massacre de Gwangju, do qual eu nunca tinha ouvido falar e tomei conhecimento através da leitura, é uma obra forte, mas extremamente necessária!
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Mari Pereira 04/11/2021

Intenso, impactante... E com aquela estranheza narrativa que parece ser típica da autora.
Um excelente livro! Além de nos fazer conhecer mais sobre a história da Coreia, nos leva a refletir sobre o que, no fim das contas, nos torna humanos.
É impressionante como um livro tão curto pode ser tão específico e tão universal ao mesmo tempo. Recomendo!
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gybmarques 02/11/2021

incrível e necessário
han kang nunca decepciona. a escrita dessa autora é perfeita. através dela, você consegue sentir todas as emoções, que, nesse livro, costumam ser raiva, às vezes nojo, mas sobretudo incredulidade. "como alguns seres humanos podem ser tão cruéis?" -- foi o que me questionei na maior parte da obra.
a história é realmente pesada, mas justamente por isso se torna uma leitura necessária, que faz você perceber que, seja na Coreia do Sul, no Brasil ou no Chile, as ditaduras têm muito em comum e não devem ser tratadas nunca como apenas uma parte da história, e sim como o que elas realmente são: uma ferida aberta permanentemente.

(e parabéns ao/à tradutor/a! imagino que seja bem difícil traduzir do coreano para o português, mas ficou perfeito. já tinha começado a ler esse livro na tradução em inglês e senti que a versão em português é muuuito mais impactante)
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Maiara 29/10/2021

Forte
Não leia se tiver estômago fraco. Não que seja de um terror nojento, mas como é baseado em fatos reais, te deixa triste e brava/o. É um claro protesto aos governos totalitários.
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Van 28/10/2021

Forte
Sobre a revolta de estudantes contra o governo coreano e que levou a um massacre cruel. Algumas descrições são bem fortes e tristes.
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Sards 26/10/2021

Atos Humanos
"Atos Humanos" é o tipo de livro que deve ser lido em pequenas doses.

A obra remonta ao ocorrido no massacre de Gwangju, de maio de 1980. A Coreia do Sul era uma ditadura. Os movimentos pela democratização estavam em ebulição. O Estado não tinha pudores ou limites.

Fiquei impressionada com a escrita da autora e pela forma como ela insere o leitor na história. Nós sentimos um pouco de cada dor. Somos consumidos pelo desespero.

Fala-se sobre os males da repressão. A violência que dela decorre, o luto, o limbo entre sofrer e seguir em frente, a tortura... O ser humano (ou o não ser).

Ler este conjunto de histórias, que trazem diversas perspectivas sobre acontecimentos próximos (ou o mesmo acontecimento), é um processo sofrido. Han Kang criou algo excepcional.
gabi 29/10/2021minha estante
Quero muito ler esse, ainda mais depois que li A vegetariana, da mesma autora


Sards 29/10/2021minha estante
Eu tô doida para ler "A vegetariana" hahha




luna 22/10/2021

melhor leitura do ano até agora
que leitura difícil e extremamente necessária essa foi, cada pagina me trazia uma tristeza de arder o peito e eu tinha certeza que ia me tocar profundamente.

esse livro é sobre traumas sejam eles individuais ou de toda uma nação, te faz sentir repulsa, raiva e desgosto ao construir perfeitamente uma história extremamente fácil de se conectar , especialmente sendo do brasil onde também temos feridas abertas com o militarismo.

eu amo a construção e como cada tipo de narrativa acrescenta algo na história, a escolha de narrar em pessoas diferentes tem motivo e torna tudo mais simbólico e poético, mesmo estranhando o início sendo em segunda pessoa tudo valeu a pena no final.
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Jaqueline 22/10/2021

Comovente
O livro remonta um acontecimento histórico da Coréia do sul, quando uma ditadura se instalou e muitos morreram, outros torturados e que ainda carregam sequelas, psicológicas e físicas.
A autora trabalha com várias vozes...em que traça um paralelo entre as infâncias dos personagens até o período ditatorial.
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Virginia 14/10/2021

Levei meses pra terminar esse livro porque não tive estômago pra ler todas as atrocidades representadas em um ritmo normal de leitura. É arrebatador e incômodo. É uma leitura que te leva a tempos obscuros da história coreana através de diversas perspectivas narrativas, o que nos coloca a enxergar os acontecimentos de um jeito muito nu. Pesado, uma leitura que me deixou muito triste, mas simplesmente incrível.
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Camie 13/10/2021

No que se tornam os atos humanos?
Eu comecei o livro sem ter lido a sinopse, já que confio na aurora por seus outros trabalhos. Apenas mergulhei na leitura. Ela se tornou uma surpresa para mim, já que descreve, a cada capítulo, a história das pessoas vítimas de um regime autoritário e brutal da Coreia do Sul dos anos 70/80.
A autora traz muita sensibilidade pra cada relato, de modo a imergir o leitor mas dores e nas questões enfrentadas por cada um. Mesmo que seja um livro pequeno, ele traz profundidade para cada narrativa, e te faz refletir sobre as condições da vida humana, assim como suas fragilidades. Saio desta leitura tocada com os atos humanos.
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Igor 10/10/2021

Han Kang faz um trabalho magistral em reconstruir de forma ficcional um dos capítulos mais tenebrosos da Coreia do Sul. Em Atos Humanos, ela usa do artifício de recontar a história através de várias vozes e em diferentes tempos. Sua escrita sensorial torna tudo ainda mais magnífico, quase dá pra sentir o cheiro pútrido que está impregnado por quase toda a história, ela não polpa em descrever por mais horrível que seja a cena ( inclusive o capítulo contado por uma alma é um dos mais fortes para mim, me senti especialmente tocado). Mas, apesar de toda a brutalidade presente no livro, creio que há um espaço para enxergamos a beleza da resistência humana, da luta por ideias e de um povo que segue mesmo que marcado profundamente pelos traumas da violência física e simbólica do dia a dia
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Pâmela 10/10/2021

Revolução
É uma revolução estudantil em 1980, que culmina num massacre, muitos corpos no necrotério, corpo depois de corpo, e não acaba. As editoras tem de lidar com a censura, ao ponto de o livro ficar pesado de tanta tinta preta, com as partes censuradas. Há uma citação: "Esmagando aquele momento, vem massacre, vem tortura, vem repressão. Empurra para a frente, esmaga, varre. Entretanto, agora, contanto que estejamos com os olhos abertos, contanto que encaremos até o fim, nós..." É um livro com muita violência. Muito bem escrito. Gostei.
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