Semente de sangue

Semente de sangue Gabriel Yared




Resenhas - Semente de sangue


6 encontrados | exibindo 1 a 6


Victor 16/11/2021

Dívida através dos séculos
"Semente de Sangue" conta a história da família Guimarães, a partir da volta de Carlos com toda a sua família para Mazagão Velho. Bem aos poucos conhecemos a cidade, os personagens principais e um pouco do passado da família, até que uma excelente trama começa a se desenhar. Terror e mistério estão aqui nas suas melhores formas!

Todo capítulo é denso, pelas grandes descrições ou pela forma do autor de escrever, muitas vezes com palavras que não fazem parte do cotidiano ou não são comuns em livros contemporâneos, e com a notada tentativa de sempre evitar a simplicidade em descrever cenários, sentimentos, ações e até falas. É um estilo que, em certos pontos específicos, atrapalha o ritmo de leitura, mas no fim se torna uma marca da história e garante uma imersão bastante profunda nos protagonistas da trama.

A sensação maior é a de uma viagem para um lugar distante. Apesar do estilo deveras descritivo não interessar em alguns momentos, a visão do autor sobre Mazagão Velho é muito bem vinda em outros, em que a precisão dos detalhes da história é bem agradável e necessária. O repertório de palavras é bastante extenso e não faltou criatividade ao decorrer dos capítulos.

O destaque maior, na minha experiência de mais de um mês de leitura, é a excelente construção do passado da família Guimarães, com aparente precisão histórica, falas adequadas e reflexão sobre um passado presente, a realidade lamentável de uma sociedade escravocrata que nunca se transformou de verdade. Vários assuntos e pensamentos surgem a partir de uma análise do passado e do presente da citada família, que reflete em centenas de milhares de outras do Brasil atual.

Mais do que qualquer coisa, é uma história que não pode ser devorada, mas sim sentida. O apego emocional com os personagens é tão grande que há de se esquecer de que estamos falando de um livro. E a sensação de saudade, ao virar a última página, é inevitável. Madeleine, Manoel, Thiago, Bá, Carlos, entre tantos outros nomes carismáticos, são únicos, reais e belamente construídos.

Gabriel Yared é um grande escritor, tem a mente cheia de ideias e deixa seus leitores ansiosos para a próxima empreitada. Para onde vamos viajar? Quem vamos conhecer? Mal posso esperar!
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Vinicius.Dias 31/10/2021

Ótimo livro de terror nacional repleto de referencias da riquíssima cultura amapaense
Uma boa estória de terror é aquela que te deixa ansioso pelos personagens, que te causa desconforto a medida que vai passando e, principalmente, que desperta alguns receios/medos no avançar dos acontecimentos. Olha, tem tudo isso aqui, e sabe o que é mais bacana? Ela se passa no Brasil, em Mazagão Velho, cidade interiorana do Amapá.

Quando o patriarca da família Guimarães morre, seus filhos voltam para a terra natal acompanhados de suas famílias para velarem o pai e, com isso, acabam se deparando com velhos problemas do passado.

A família Guimarães, descendente de portugueses, carrega em sua história a chaga de tempos antigos. Quando aportaram no Brasil, ainda naquele período nefasto da escravidão, e sendo eles importantes fazendeiros, perpetuaram essa atrocidade, resultando em muita coisa ruim, o que acabou lançando sobre as gerações futuras uma maldição mortal.

Sabe quando falam de fazendas mal assombradas, ou de regiões com o clima pesado devido a imensidão de ruindade que aconteceu no passado? O livro se passa exatamente em um local assim, então, a todo instante existem momentos desconfortáveis que nos levam para uma realidade triste e pesada da história do nosso país. A gente se aprofunda na narrativa da família através de incorporações espíritas que vão mostrando o que aconteceu no passado, visões estranhas e muitos sonhos confusos e tumultuados.

Cada capítulo conta uma parte do acontecido na visão de um familiar, o que acaba trazendo várias outras pequenas estórias paralelas que são tão interessantes quanto a trama principal. Também somos apresentados a vários ditados e eventos culturais daquela cidade e região nortenha brasileira. Tem a festividade de São Thiago e o Marabaixo, duas tradições antigas que eu nunca havia ouvido falar e que achei simplesmente sensacional. Ou seja, além de uma grande narrativa, fui apresentado a uma nova realidade e a uma nova antiga cultura aqui do Brasil que eu sequer tinha conhecimento. Muito bacana!

Foi um livro que encontrou a luz do lançamento graças ao apoio coletivo da plataforma Catarse, sendo lançado pela Editora Corvus, que tem dado voz a escritores nacionais e lançado obras tão interessantes quanto essa. Se você curte esse tipo de literatura assombrosa que mistura cultura local nacional à fantasia e ao terror, não perca tempo e adquira agora esse ótimo livro. Super indicado!

"O amor do nego não foi brincadeira
por Madalena, nego quis matar
No peito a chama, na mão a peixeira
E uma tristeza a mais dentro do olhar" - Val Milhomem e Joãozinho Gomes

site: https://www.instagram.com/prosa.literal/
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Cauan.Monteiro 21/10/2021

Um grande passo para a literatura amapaense e nacional
É muito bom quando você pode se identificar com um livro, foi isso que aconteceu comigo lendo esse livro, todas referências em relação ao lugar em que se passa a história, os costumes, as musicas, as danças, os eventos históricos e até mesmo os problemas políticos locais, são muito bem expressados dentro do livro. Gabriel nos da a chance de se envolver com as lutas e histórias de cada personagem, construindo um laço e um apreço por cada um (principalmente com as crianças haha), devido a forma brilhante como ele os desenvolveu. Ele leva seus leitores numa aventura pela história de Mazagão Velho, uma história triste banhada de sangue derramado por corpos pretos ao longo do tempo, nos mostrando uma vilã que estava imersa nesse sangue e enfurecida pela raiva. Poderia falar por horas desse livro e só teria coisas boas para contar, isso sem falar das tantas teorias que se pode construir depois que você acaba de ler. Se eu tivesse o poder de fazer todas as pessoas lerem esse romance, eu ofaria sem pensar duas vezes, porque para muitas pessoas seria algo totalmente fora da sua realidade.
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Oceano 15/10/2021

Um dos melhores do ano
Há alguns anos eu venho estado de olho no que surge da ficção brasileira, principalmente nas regiões com menos destaque. Gabriel Yared, um escritor amapaense, é um destes novos nomes que cumprem o que prometem.
Em semente de sangue, primeiro livro dele que eu leio, prevalece o terror não pelas entidades espirituais presentes na história. O verdadeiro horror é o feito pelas mãos humanas, que perdura desde a época da escravidão até os dias atuais. Descobrimos a história da família Guimarães, amaldiçoada a um fim sombrio, geração após geração, para pagar uma dívida de sangue cometida por um deles.
Com a narrativa, é fácil se encantar pela atual geração de Guimarães, principalmente os quatro mais novos, que não escondem segredos como os maiores. E também há uma filosofia muito interessante sobre quem é o verdadeiro vilão da história. Eu acho que a única coisa que faltou no livro foi mostrar um pouquinho mais da personagem Amélia, que é interessante demais para aparecer tão pouco.
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Toca do Coelho 13/09/2021

Você caiu na toca do coelho, é muito bem-vinde a se sentar, não comer ou beber nada e ouvir um pouco sobre "Semente de Sangue".

Na trama, os Guimarães voltam para a casa ancestral em Mazagão Velho no Amapá para enterrar o avô e patriarca da família. Três núcleos familiares se unem: os dois filhos de Carlos Guimarães e sua esposa, os filhos de Adriana Guimarães ? irmã mais nova de Carlos ? e o passado terrível da família de Antônio.

Clichê é uma palavra que costuma ? erroneamente ? assombrar algumes autories. Um clichê, nada mais é, que uma narrativa com estrutura pré-definida, personagens arquétipos e final lugar-comum.

Semente de Sangue de Gabriel Yared é tudo isso, e não tem nada de errado, afinal, clichês podem ser bons. Yared nos entrega uma premissa simples, uma família e uma casa, assombrada por um espírito vingativo. Quantas histórias não temos como essa? Muitas e nenhuma.

Paradoxal? Talvez! Mas é a verdade. Embora a estrutura narrativa e seus personagens sejam algo ao qual nos habituamos, Yared sabe como manejar por dentro dos clichês que abraça. Os meios para chegar a conclusão são construídos por uma narrativa empolgante e amedrontadora.

O modo como Yared consegue unir um clima romântico ? não confundir com romance amoroso ? e gótico dentro do interior do Amapá, fato que também é observado por um dos personagens da trama, o adolescente Thiago, é mais uma prova da excelência narrativa do autor.

A cidade nunca é destratada, ou inferiorizada em relação aos centros de onde as famílias vem, pelo contrário, é respeitada. Outro personagem na história questiona o porquê de acharem que interior é sinônimo de ignorância.

Um diálogo interessante ao notarmos a dicotomia racional x crendice popular que estabelece-se com os personagens adultos. Quem conhece minimamente sobre construção social regional, sabe o quanto nós, dos centros e metrópoles, costumamos desfazer das crenças populares por, supostamente, estarmos mais próximes da ciência e que o interior é a casa do irracional.

Jogados dentro da realidade fantástica do passado familiar, cada Guimarães vai encarar a realidade terrível que colocou sua família ali. Um passado marcado pela crueldade humana e pelo preconceito racial. O passado se esconde nos tempos da escravidão, abafado pelo "era o costume da época" e por documentos escondidos com o intuito de não "manchar o bom nome da família".

Nesse ponto, elogio bastante o trabalho editorial do livro, conheço a equipe por trás e sei o quão cuidadoses foram ao retratar esse período brutal.

Mesmo o livro sendo de terror e contendo gatilhos como a escravidão, racismo, morte e abuso sexual, não foi feito de forma banal. Nem o autor, nem a equipe se utilizaram de desculpas rasas para retratar irresponsavelmente esses temas.

Finalizo a resenha elogiando também, a narrativa sutil que Yared fez na construção de visão de mundo. Especialmente ao retratar momentos históricos e reais de Mazagão Velho, aos quais não vou citar para não estragar a surpresa que eu também tive ao me aventurar nos enunciados tão bem estruturados do autor.
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Matheus Monteiro 12/09/2021

Fantástico
O patriarca da família Guimarães morreu. Dono de terras importantes na histórica vila de Mazagão Velho, um distrito do estado do Amapá, seu fim faz com que os filhos e outros familiares retornem para prestar os ritos fúnebres e decidirem o que fazer com a propriedade no local. Mas a estada no local não parece aleatória, e além de memórias desconfortáveis ressurgirem enquanto as festividades de São Tiago acontecem, a percepção de que algo os estava esperando cresce a cada momento.
Semente de Sangue é o romance de estreia de Gabriel Yared, escritor amapaense com trabalhos focados principalmente no horror. E que romance de estreia! Utilizando de uma escrita onde cada palavra parece cirurgicamente escolhida para construir a ambientação e detalhamento psicológico de seus personagens, Gabriel cria aqui um esplêndido, sombrio e rico livro de horror gótico, principalmente ao imprimir uma voz própria aos elementos tipicamente comuns a esse gênero literário. Sim, temos aqui uma mansão com passado sombrio, segredos de família, clima opressivo que visa o medo e fantasmas rancorosos presos em uma existência que não apenas os próprio atormenta, como aos vivos, mas o que sempre corre o risco de cair como um estrangeirismo ao imaginar uma história se passando em alguma região do Brasil, Gabriel transmuta os signos e elementos para a ambientação de Mazagão Velho de uma forma deslumbrante, aproveitando para usar do próprio gênero como potencializador de discussão social, ao dialogar com um tema perturbador na história, não apenas do distrito amapaense, como do próprio país que é o período colonial e o racismo contra pessoas negras.
Nesse ponto, é de se refletir, ainda que talvez muito cedo, como alguns escritores de horror latinos estão ressignificando o gótico (um gênero de origem europeia) para seus próprios territórios e discussões históricas. Silvia Moreno-Garcia fez isso em Gótico Mexicano, ao utilizar do gênero para narrar sobre as ideias eugenistas dos brancos europeus no México, principalmente com os povos indígenas. Em Semente de Sangue, o trauma colonial, a relação de violência e desumanização entre colonos europeus e pessoas do continente africano (aqui, mais especificamente o Marrocos) que foram escravizadas, é o cerne do conflito do sobrenatural com o humano, a origem do horror, o ímpeto da vingança. Utilizando da figura do fantasma, esse ser que está além de um fim de uma existência, uma memória fixa que manipula e interfere (segundo as narrativas e algumas religiões), que cobra, Gabriel conduz uma história sobre como os frutos desse conflito geram outros conflitos, outras violências, e algumas vezes se repete mesmo após décadas do seu fim (o arco inteiro de Madeleine é uma lembrança contínua dessas relações, onde os flashbacks também servem como sinalização de que a violência não se foi por completo, ou talvez só encontrou um novo rosto).
Mas se a escritora mexicana usa do gótico de forma literal, brincando com a ideia dos elementos europeus dentro de um território americano colonizado, Gabriel faz sua transmutação de signos, e não apenas traduz para a realidade colonial per si, como não deixa de reverenciar o território a qual história se passa. Entrelaçando ficção e história, e desenhando as festividades tradicionais de São Tiago (que também traz seus próprios conflitos entre cristãos e mouros) a qual os personagens participam de uma forma ou de outra, e celebrando a forma e força do território amapaense, com seus igarapés, igapós e florestas próximas, Gabriel cria sua própria versão de uma história gótica, enriquecendo culturalmente e sensorialmente, criando cenas memoráveis envolvendo o próprio ambiente, tanto numa cena delirante envolvendo garotos perseguindo pássaros boiando no rio, como no sombrio clímax.
Semente de Sangue é um livro sombrio, uma história de fantasmas revigorante, e um comentário sagaz sobre os horrores que ainda permanecem e que não devem ser esquecidos. Com personagens bem delineados e devidamente aproveitados, um tom de tragédia, e um pouco de esperança, é uma estreia deslumbrante.
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