Casa de alvenaria

Casa de alvenaria Carolina Maria de Jesus




Resenhas - Casa de alvenaria


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Carlos.Vergueiro 02/09/2021

Carolina Maria de Jesus é maior que Clarice Lispector (mas o Brasil não está preparado pra este debate)
"Eu ainda não habituei com este povo da sala de visita. Uma sala que estou procurando um lugar para sentar..." (p.94. Casa de alvenaria vol. 1)

É muito polêmico o que direi aqui. Não vou comparar duas grandes escritoras brasileiras, mas sim o fato de Clarice ter sua obra há décadas nas prateleiras e a Carol somente nos últimos anos. O resgate histórico que a Cia das Letras está fazendo vai ampliar este debate nos próximos anos ou viveremos mais um elitismo racista velado?

Carol foi mulher, negra, solteira, mãe, migrante e durante parte da vida catadora de lixo. Clarice foi uma mulher branca de família judaica que fugiu da guerra civil na URSS e esposa de diplomata. São contemporâneas, tiveram ao menos um livro best-seller, mas uma viveu boa parte da vida em um quarto de despejo e a outra na sala de visitas. Não é mais uma discussão sobre identitarismo, é uma breve análise classista sobre racismo estrutural.

Clarice seria Lispector se morasse na Favela do Canindé e ocupasse sua crise existencial catando restos da xepa na feira pra sobreviver? Carolina seria Lispector se pudesse escrever o que quisesse "Mas, o Audalio exige o diário"(p.50. Casa de Alvenaria vol. 2), se tivesse que escrever sem ter que pegar papel no lixo, cuidar sozinha dos filhos, limpar o barraco, sem ter uma visita inesperada do repórter Audalio? Como diz Carolina "quando estou entre os brancos, tenho a impressão que eles detestam a minha presença, ou talvez seja, a não estar habituada com estas damas, que não sabem o que é ter fome. (p. 137. Casa de alvenaria vol. 1) A qualidade literária de ambas não está em discussão, até porque boa parte dos textos de Carolina não eram o que ela queria publicar, mas aquilo que o mercado editorial via qualidade para o seu lugar . Ela queria ser poeta, mas diziam: "- Carolina, você não é literata! O teu livro não é literatura. É documentário." (p. 63. Casa de alvenaria vol. 2), pois contavam histórias do cotidiano da favela que a imprensa burguesa não conseguia atingir ou dos bairros que morou após seu sucesso estrondoso. A sua visão de mundo, sempre em conflito, demonstrava apreço pelos mais pobres e operários "Os escritores de Academia não quer considerar-me escritora. Mas, o povo quer." (p. 54. Casa de alvenaria vol. 2).

Gostava de políticos populistas, mas repudiava militares no poder. Veio a ditadura. Seus textos encontraram a censura e entraram em esquecimento popular. O povo retratado foi engolido pelos milicos por 21 anos de retrocesso que ela já profetizava "Escrever contra a burguesia, eles são poderosos, pode destruir-me"(p.144. Casa de alvenaria vol. 1). Morreu em parelheiros em um cemitério municipal. Mas a Clarice continuou nas prateleiras, sendo publicada, lida pela nata da sociedade, no rol dos grandes escritores, sendo colocada como na lista obrigatória para vestibulares, no cânone literário, mesmo sendo mulher, enquanto para Carol "as portas das academias do Brasil ainda estão fechadas para Carolina Maria de Jesus"(p.127. Casa de alvenaria vol. 1). Os conflitos de Clarice não ultrapassaram as paredes da sociedade burguesa, logo não encontravam muros nos olhos da censura. E é desse feminismo (majoritário no Brasil) desapegado a classe trabalhadora, desapegado ao povo pobre, que utiliza a ideia de representatividade feminina exclusiva que precisamos começar a debater. Que Angela Davis influencie mais, pois Simone Beauvoir já foi muito lida.

Ainda contaremos a história dos negros perseguidos pela ditadura. Pra eles a tortura, a prisão, o exílio ou anistia ocorreram, mas pra eles houve também o esquecimento sem direito a uma comissão própria da verdade, da memória e da justiça. Que a Carolina invada os lares do Brasil. Que a mulher negra, o pobre trabalhador e operário tenham acesso a sua escrita. Que o elitismo racista brasileiro que está no poder, mais do que nunca, e que agora ameaça um novo golpe se incomode com esta ousadia.

#ForaBolsonaro
#VivaCarolina
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Anna 03/10/2021

Todos nós precisamos saber!
Olá leitores, como vocês sabem, eu não sou muito a favor de fazer resenha sobre a vida de figuras públicas marcantes na nossa história, afinal de contas, como eu posso julgar as escolhas e decisões de uma mulher negra, em plena ditadura? Impossível!

Carolina Maria de Jesus, foi uma escritora fantástica, mas pouco se sabe sobre ela - inclusive no meu inatagram, muitas pessoas não sabiam quem era ela - mas com uma história rica e cheia de camadas.

Toda a sua luta, além de ser uma das primeiras escritoras negras no Brasil, para ser reconhecida foi e, é importante para a cultura nacional e internacional.

Se vocês querem saber mais sobre ela, e todo esse processo de publicação e reconhecimento das suas obras, "Casa de Alvenaria", é perfeito! Recomendo!
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Ká - @shotdaspalavras 19/10/2021

Carolina Maria de Jesus é uma das maiores escritoras brasileiras do século XX, que ficou muito conhecida com a publicação do seu livro Quarto de Despejo em 1960.
No livro Casa de Alvenaria - Volume 1 encontramos seus manuscritos originais do tempo em que ela viveu em Osasco - SP entre agosto e dezembro de 1960.
Acompanhamos as dificuldades que Carolina passou como moradora da favela com filhos para criar.
Carolina viveu em uma sociedade desigual, com muitas dificuldades e em uma época com inflação altíssima.
Além disso, acompanhamos também como foi conviver com o sucesso do seu primeiro livro. Foram impressos 10 mil exemplares e se esgotou em pouco mais de uma semana. Foi um grande sucesso para o mercado editorial da época.
Carolina tinha um amor imenso pelos livros que é lindo de se ver!
A publicação dos dois volumes de Casa de Alvenaria é uma forma de promover ainda mais a voz de Carolina, para que cada vez mais pessoas a conheçam. E era exatamente isso que ela queria: que seus trabalhos fossem reconhecidos.
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Marcia.Santos 21/09/2021

Casa de Alvenaria, o sonho
Enquanto lia o livro Casa de Alvenaria (vol 1), aparentava que até ouvia Carolina Maria de Jesus contando sua história, como minha uma amiga.

Surpreendente!
Só isso posso dizer.
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Camila | @lendocomamigos 02/11/2021

Casa de Alvenaria. Volume 1: Osasco
*Nota (?) "ilustrativa" explicação na resenha ??

"Quando escrevi contra os favelados fui apedrêjada. Escrevendo contra a burguesia podem enviar-me um tiro."

Após o sucesso do seu livro "Quarto de Despejo", onde contou como era seu dia a dia na favela e todo seu sofrimento, Carolina deixa Canindé acompanhada dos filhos e vai morar em Osasco, em uma tão almejada casa de alvenaria.
Carolina narra então o período que viveu em Osasco, a mudança e adaptação a sua nova vida, de uma pessoa que teve que catar lixo para poder se alimentar, para alguém que passou a ser considerada rica e ser reconhecida pelos brasileiros.

Não me sinto confortável em dar uma nota sobre esse tipo de livro visto que ele é a narração da VIDA de uma pessoa, então aqui vão algumas percepções que tive durante a leitura.

Mesmo com pouco estudo Carolina era uma pessoa politizada, defendia e lutava pelos pobres e menos favorecidos, sabia que a educação é o caminho para melhorar a vida das pessoas, por isso gostava de estar entre os estudantes e pessoas cultas.
Estranhou a mudança repentina de sua vida e ficou desanimada por não conseguir mais ler e escrever o que realmente gostava, pois usava todo o tempo que tinha viajando, autografando livros e escrevendo seu diário conforme Audálio (seu editor) queria que fizesse.
E apesar de tudo que viveu e sofreu amava o Brasil e seu povo, tinha orgulho da sua cor e seguia buscando motivos para sorrir e continuar escrevendo.

Como o livro tem estrutura de diário conhecemos a escrita original de Carolina e a leitura flui rapidamente, pois é como se ela estivesse pessoalmente contando ao leitor como foi seu dia.
E com certeza é uma história de vida que vale a pena conhecer, pois Carolina foi uma das primeiras escritoras negras do Brasil, é até hoje uma dos maiores do país e ainda tem muito a nos ensinar.
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